O meu contato mais íntimo com Rilke, afora algumas leituras esparsas e superficiais e o texto em prosa A balada do amor e morte do alferes Christoph Rilke, que eu tinha escutado em um LP compacto, foi em um CD que eu trouxe da Alemanha com poemas de amor lido por Christian Redl. Entendi uns 10% mas fiquei impactado pela beleza e a força das imagens, pelo melodioso da língua e do ritmo. Sentindo que estava perdendo muito, fui na internet buscar os poemas, imprimi e passei alguns meses lendo. Todo dia lia um ou dois poemas, botava de lado e no outro dia voltava a insistir. Dos quarenta poemas consegui entender uns quatro ou cinco, dos demais entendi um ou outro pedaço. De onde resultava entendimento, sacudia-me o espanto: como é que o cara conseguiu escrever isto? Algum pacto com o além? O que mais me espanta é o processo criativo por trás. As imagens invocadas são totalmente não convencionais, nada das metáforas usuais que se utiliza para falar do amor, a construção das imagens não tem nada com o foco tradicional que o tema recebe no mundo real e, no entanto, é realidade. A musicalidade da poesia de Rilke advém de uma rima toda espalhada pelos versos com tal engenhosidade que resultam versos dentro dos versos num intrincado de melodias que se entranham numa trama cuja lógica não consigo perceber. Que tipo de poesia é esta?
Hoje de manhã ao fazer a barba resolvi voltar a botar o CD. Não consegui, isto é, não consegui fazer a barba, ou melhor, para fazer a barba tive que desligar o aparelho. E veio a luz, ao menos um pouco de luz. Em Rilke o amor é reduzido, o amor é elevado à essência. É um processo de destilação em que do corpo é extraído espírito. É espiritualidade, é um amor metafísico, mas não, não é nada disto. Porque espírito, metafísica, lembra algo etéreo, irreal. E Rilke é concreto, é real, é matéria. A imagem que me veio na hora foi que do concreto Rilke faz o abstrato, ou seja, extrai a essência, mas não contente com isto, volta ao concreto, ou seja, condensa a essência em imagens da realidade. Concreto – abstrato – concreto este me parece ser o processo de criação de Rilke. É como se para falar do mar eu me voltasse para as nuvens, vapor d’água, mas não contente com o etéreo, o vaporoso, eu me voltasse depois para os rios e lagos nos quais o vapor se condensa. É nos rios e lagos que bebe o mar.
Estou cansado de poetas que, embevecidos, carregam as imagens de detalhes. Aprisionados na individualidade, aprisionam-se no hermético. Em Rilke não há espaço para detalhes porque o que importa é a essência. Ou seja, o gesto caracteriza-se pela economia, o verso é seco, enxuto, nenhuma palavra desnecessária. As palavras são simples, despojadas, fazem parte do cotidiano, do dia-a-dia. Não há exuberância barroca. O verso é gótico, adjetivos são utilizados com parcimônia, a rima não se impõe pela artificialidade. Tudo flui naturalmente e, no entanto, ou talvez por causa disto, nos sacode o espanto, pois no fluxo natural não parecem haver regras tal a quantidade de excessões. Regras são criadas a cada momento e abandonadas no momento seguinte. Aqui onde se esperava uma sequencia longa de palavras vem um corte, onde se esperava uma rima, vem outra. E, no entanto, a música se resolve no inusitado. Resulta harmonia na desarmonia. O que é a vida, senão isto? Unidade na multiplicidade.
As imagens de Rilke transcendem a individualidade do poeta. Apesar do inusitado, da leve suspeita do particular e do individual, as imagens têm generalidade e amplitude. A prova disto está nos sentimentos que em nós provocam. Porque se as imagens nos causam tamanho impacto, só pode ser fruto da riqueza do poeta. Se a construção fosse minha, era eu o Rilke, e não ele.
Procurando praticar Rilke e não teorizar/abstrair, pego talvez o poema mais famoso dele A Pantera e tento concretizar algumas das idéias acima. Uso a versão original e duas traduções magníficas que preservam a sonoridade do original. A Pantera não é bem uma poesia sobre o amor e tão somente a utilizo porque para ela disponho de traduções que considero boas. Depois pretendo examinar alguns poemas de amor do autor.
Der Panther
(Rainer Maria Rilke)
Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden, dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.
Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein grosser Wille steht.
Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf-. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille-
und hört im Herzen auf zu sein.
A Pantera
(Tradução de Augusto de Campos)
De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.
A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.
De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
A Pantera
(Tradução de Geir Campos)
Varando a grade, a nada mais se agarra
o olhar tomado de um torpor profundo
para ela é como se houvesse mil barras
e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.
Seu firme andar de passos gráceis, dentro
dum círculo talvez muito apertado,
é uma dança de força em cujo centro
ergue-se um grande anseio atordoado.
De raro em raro, só, o véu das pupilas
abre-se sem ruído – e deixa entrar
a imagem, que sobe, pelas tranquilas
patas, ao coração, para aí ficar.
Em Rilke, em minha opinião, três coisas são fundamentais: a essência, as imagens e a música. A essência deste poema, dentro da minha ótica, é a fera enjaulada, uma metáfora para a natureza domada, ou seja, impulsos vitais e naturais, o id, a libido, colocados dentro da jaula das convenções, barrados em seu livre curso por civilização e cultura.
Concreto – abstrato – concreto é pegar A Pantera, tema concreto, tradicionalmente usado para cantar a natureza, força e graça, e usá-lo com um propósito diverso. A abstração aqui é o cerceamento, o aprisionamento dos instintos vitais. Mas a época em que Rilke vive não é mais a da fuga para a metafísica e Rilke retorna ao físico, ao concreto das barras da jaula desfilando perante o olhar entorpecido, dos círculos concêntricos do caminhar, das pupilas que observam e da observação que morre no coração porque não tem mais para onde ir.
O primeiro verso descreve este clima de clausura evocando o monótono desfile das barras da jaula. Para a pantera é a isto que o mundo se reduz. Mas a monotonia, o torpor da civilização é tão somente uma parte da história. O contraponto é a natureza com a sua vitalidade. É aí que entra o segundo verso que ressalta a força do felino contrastando-a com a graça e a suavidade dos seus movimentos. Para ressaltar a força, Rilke a contraponteia com a suavidade do andar. Depois, numa espécie de síntese, Rilke junta à pantera, força e graça, a jaula do primeiro verso. A jaula reduz a força a círculos concêntricos.
Barras, círculos concêntricos são motivos muito geométricos. Falta o coração. É aí que vem o terceiro verso. O tema fundamental é a morte e a morte se dá no coração. Morte é passividade, é o estímulo que entra e não sai, entra pelas pupilas e morre no âmago do ser.
Quero ainda falar da música. No primeiro verso a palavra Stäbe (barras) ocorre três vezes contribuindo para a maravilhosa sonoridade do verso. Na segunda linha junta-se ainda a palavra gäbe. Stäbe gäbe é um destes versos dentro do verso. Augusto de Campos traduz Stäbe por grades e coloca a palavra quatro vezes no verso o que ajuda a preservar a música.
No segundo verso, a primeira linha traduz magnífica onomatopéia. Gang e geschmeidig além da maravilhosa sonoridade em torno da letra g traduzem a suavidade, contrastando como o staccato de starker Schritte (st, da mesma maneira que sch, soa em alemão como o ch em português) que além de belas variações em torno do som da letra t, traduzem o caráter abrupto da força. Ainda na primeira linha weiche e geschmeidig criam uma linda cadência em torno do som ei (ei em alemão soa como ai em português) complementada pelo allerkleinsten Kreise da segunda linha. Na segunda e terceira linha, ainda do segundo verso as palavras allerkleinsten, Kreise e Kraft criam lindas combinações da gutural kr, a lingual kl e os sons ei e a. Mencionável é ainda o contraste dos sons abertos de ei e a (de allerkleinsten, Kreise e Kraft) e o som fechado eh (soa como ê em português) de dreht, steht estendendo-se para geht (duas vezes no terceiro verso).
Para terminar esta parte da análise uma palavrinha sobre as imagens. O centro do primeiro verso é o desfilar de barras traduzindo a cadência da monotonia. No segundo verso a imagem gira em torno de Kreise (círculo) e Mitte (centro), traduzidos por Augusto de Campos por círculos concêntricos, preservando, na minha opinião, a essência geométrica das idéias. Assim, as imagens desfilar de barras, círculo e centro têm a precisão fria da matemática, do objetivo objeto, contrastando com vida e carne de pupila (Pupille) e coração (Herz) do terceiro verso. Neste último, Herz contrasta com o prosaico Vorhang (cortina). A cortina da pupila abrindo-se em silêncio (lautlos) é uma imagem linda embora irreal que se complementa com silêncio tenso (angespannter Stille) e morte no coração (hört im Herzen auf zu sein). Todas as três imagens traduzem o desalento de uma vida condenada á passividade, uma vida reduzida ao não-ser.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
MANDINGA
Eu vivia feliz até que um dia apareceu uma banda na casa do lado. Não, até que a música era boa. Quanto aos ensaios, não perturbavam demais, pois o som da música não era muito alto. Festas eles davam frequentemente, em média uma por semana, mas dava para aguentar. Mas o pior mesmo eram os papos, altos papos até altas horas da madrugada. Eles viravam a noite, varavam o dia na conversa. A certa altura, dependendo das cervejas viradas ou varadas, a conversa reduzia-se tão somente a interjeições e depois só mesmo pontos de exclamação. O problema era a altura das exclamações e bem debaixo da nossa janela. Ninguém conseguia mais dormir. Eu até que não, bato na cama e durmo, mas a coitada da minha mulher não pregava mais o olho. Tentou-se de tudo, tampão de orelha, puxar os cobertores por cima da cabeça, fechar vidros e venezianas, mudar de quarto, tentou-se até isolamento acústico. Nada adiantava.
Um dia tomei coragem e fui lá procurar o Miltão, o chefe da banda. Cheguei todo sorrisos, comecei pedindo desculpa, ficava até sem jeito de reclamar da conversa, era natural, pessoal jovem, animado, mas será que não dava para procurar outro lugar? Tinha que ser debaixo da nossa janela? Miltão, muito educado, prometeu providências, aquilo não ia mais acontecer e, de fato, por duas semanas tivemos paz. Depois tudo recomeçou.
Foi aí que eu bolei o plano. Procurei o Miltão outra vez e gaguejei nervoso. Eu estava preocupado. Não, não era o sono, nem o barulho, muito menos a conversa. Mas minha mulher tinha começado a rogar praga. Dizia que ia fazer mandinga. Quando eu chegava perto, desconversava, não queria dizer o que era. Uma vez eu tinha ouvido a palavra avião ou desastre, não me lembrava bem. Que tomassem cuidado. Se acontecesse alguma coisa, como é que a gente ia ficar? E ajuntei: “Eu aqui estou fazendo a minha parte. Comprei vitamina, a levei ao médico e fiz exame, porque se ela viva é capaz do maior estrago, imagina ela morta! Lá junto da turma da pesada, o que é que eles não são capazes de aprontar?”. Claro, amo minha mulher e quero que ela dure. O Miltão era boa pessoa, mas sabe-se lá?
Passaram mais umas semanas na casa e depois se mudaram. Um dia encontrei o Miltão no ônibus e perguntei: “Como é, e a banda?”. “Fomos para Jacarepaguá” foi a resposta. “Tão longe?”. E o Miltão, com ar misterioso: “Olha, problemas com o aquém, tudo bem, que a gente está acostumado, mas o além....”.
Setembro de 2009
Um dia tomei coragem e fui lá procurar o Miltão, o chefe da banda. Cheguei todo sorrisos, comecei pedindo desculpa, ficava até sem jeito de reclamar da conversa, era natural, pessoal jovem, animado, mas será que não dava para procurar outro lugar? Tinha que ser debaixo da nossa janela? Miltão, muito educado, prometeu providências, aquilo não ia mais acontecer e, de fato, por duas semanas tivemos paz. Depois tudo recomeçou.
Foi aí que eu bolei o plano. Procurei o Miltão outra vez e gaguejei nervoso. Eu estava preocupado. Não, não era o sono, nem o barulho, muito menos a conversa. Mas minha mulher tinha começado a rogar praga. Dizia que ia fazer mandinga. Quando eu chegava perto, desconversava, não queria dizer o que era. Uma vez eu tinha ouvido a palavra avião ou desastre, não me lembrava bem. Que tomassem cuidado. Se acontecesse alguma coisa, como é que a gente ia ficar? E ajuntei: “Eu aqui estou fazendo a minha parte. Comprei vitamina, a levei ao médico e fiz exame, porque se ela viva é capaz do maior estrago, imagina ela morta! Lá junto da turma da pesada, o que é que eles não são capazes de aprontar?”. Claro, amo minha mulher e quero que ela dure. O Miltão era boa pessoa, mas sabe-se lá?
Passaram mais umas semanas na casa e depois se mudaram. Um dia encontrei o Miltão no ônibus e perguntei: “Como é, e a banda?”. “Fomos para Jacarepaguá” foi a resposta. “Tão longe?”. E o Miltão, com ar misterioso: “Olha, problemas com o aquém, tudo bem, que a gente está acostumado, mas o além....”.
Setembro de 2009
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
UMA DIGRESSÃO SOBRE O MUNDO, O BOM E O MAU
Uma das razões centrais para a falta de crença das pessoas no mundo, natureza, Deus, ou qualquer outra entidade mais ampla (leia-se o todo) é o sofrimento. Manuel-gato, o pintor, me disse uma vez: “Minha fé em Deus desapareceu no dia que eu vi na televisão, de um lado um rebanho de bois bem nutridos, pastando grama farta e viçosa e, logo depois, um rebanho na seca, morrendo a mingua. Como é possível Deus deixar uma injustiça destas?” Manuel, na infinita sabedoria do ignorante, usou o boi, ao invés do ser humano. Boi a gente não pode acusar de pecador, para tentar justificar a injustiça.
A linha de pensamento seguida por Manuel-gato é mais ou menos a seguinte. Se Deus existe, ele é bom. Mas Deus é o criador, o todo poderoso e, portanto, responsável pelo que cria. Se Deus é bom e é responsável pelo que cria como pode haver o sofrimento ainda mais na natureza?
Dentro desta ótica não há resposta possível. O que é necessário é mudar de ótica. Em primeiro lugar, será que faz sentido considerar Deus como criador? E se o mundo não teve começo? E se o mundo for uma infinita sucessão de estágios? Acabando-se com a idéia de Deus como criador acaba-se com a idéia de Deus como responsável. Não há responsáveis. Responsável pelo mundo é o mundo. Deus é tão somente o todo que o mundo é.
Ninguém em sã consciência vai negar que existe sofrimento no mundo. E daí? Isto prova o que? Dizer que o mundo é mau, ou a natureza é má porque existe sofrimento é restringir-se na sua visão de mundo ao que é mau ou sofrido, ou seja, é uma visão parcial, fragmentada do mundo. O mundo, a natureza não é má nem boa. A natureza simplesmente é. O mau e o bom, a beleza e a feiúra, o sofrimento e a beatitude co-existem no mundo. Se o mundo é mau ou bom, belo ou feio, sofrido ou paz, de que serve este julgamento? Será possível? Bom, mau, justo e injusto não seriam duas faces da mesma realidade? O boi gordo pode ir para o abate e o boi magro pode ser poupado. Assim o que era bom passa a ser mau e injustiça converte-se em justiça e vice-versa, ao menos na ótica do boi.
Numa linha de pensamento bastante parecida podemos citar o raciocínio do homem comum que reclama da injustiça do mundo porque este frequentemente não pune o sujeito pelos erros (leia-se pecados) que comete. Novamente temos um raciocínio que traz embutido diversas premissas que podem ser questionadas. Em primeiro lugar pressupõe um agente da punição, ou seja, alguém que pune, pois reclamar da injustiça é reclamar de alguém ou algo que é injusto. Se o mundo somos nós, a injustiça do mundo significa que nós estamos sendo injustos. Que tal reverter este quadro, procurando ser justo, ao invés de reclamar? Na verdade o que se está fazendo ao reclamar da injustiça do mundo é entender por mundo alguma entidade externa e indefinida, provavelmente metafísica e atribuir a ela a culpa. Em segundo lugar, traduz uma visão limitada do ato de errar. Porque se alguém errou, eu também errei por deixá-lo errar. Ou seja, querer que com o erro seja punido tão somente aquele que errou, traduz uma visão simplista, simplificada, cada ser, solitário e isolado, encerrado em seu mundo, cometendo erros e acertos segundo algum código mágico, pré-definido, recebendo por eles punição ou prêmio. Tal somatório de mundos individuais é o resultado de uma visão míope que não enxerga conexões e vê cada individuo encerrado em sua redoma. É o fato de eu ser responsável pelos erros dos outros que vai possibilitar que eu me mobilize para impedi-lo. Fosse cada um responsável exclusivamente pelos seus erros, além do elemento mágico e misterioso que teria que ser introduzido, como já foi mencionado acima, estar-se-ia consolidando um individualismo em que cada um cuidaria exclusivamente daquilo que faz. Uma punição post mortem (a admissão de céu e inferno), como o faz a igreja católica, apesar de traduzir uma visão mais elaborada ao jogar as consequências dos erros não na própria vida, mas na continuidade desta, continua sofrendo dos problemas apontados acima.
Agosto de 2009
A linha de pensamento seguida por Manuel-gato é mais ou menos a seguinte. Se Deus existe, ele é bom. Mas Deus é o criador, o todo poderoso e, portanto, responsável pelo que cria. Se Deus é bom e é responsável pelo que cria como pode haver o sofrimento ainda mais na natureza?
Dentro desta ótica não há resposta possível. O que é necessário é mudar de ótica. Em primeiro lugar, será que faz sentido considerar Deus como criador? E se o mundo não teve começo? E se o mundo for uma infinita sucessão de estágios? Acabando-se com a idéia de Deus como criador acaba-se com a idéia de Deus como responsável. Não há responsáveis. Responsável pelo mundo é o mundo. Deus é tão somente o todo que o mundo é.
Ninguém em sã consciência vai negar que existe sofrimento no mundo. E daí? Isto prova o que? Dizer que o mundo é mau, ou a natureza é má porque existe sofrimento é restringir-se na sua visão de mundo ao que é mau ou sofrido, ou seja, é uma visão parcial, fragmentada do mundo. O mundo, a natureza não é má nem boa. A natureza simplesmente é. O mau e o bom, a beleza e a feiúra, o sofrimento e a beatitude co-existem no mundo. Se o mundo é mau ou bom, belo ou feio, sofrido ou paz, de que serve este julgamento? Será possível? Bom, mau, justo e injusto não seriam duas faces da mesma realidade? O boi gordo pode ir para o abate e o boi magro pode ser poupado. Assim o que era bom passa a ser mau e injustiça converte-se em justiça e vice-versa, ao menos na ótica do boi.
Numa linha de pensamento bastante parecida podemos citar o raciocínio do homem comum que reclama da injustiça do mundo porque este frequentemente não pune o sujeito pelos erros (leia-se pecados) que comete. Novamente temos um raciocínio que traz embutido diversas premissas que podem ser questionadas. Em primeiro lugar pressupõe um agente da punição, ou seja, alguém que pune, pois reclamar da injustiça é reclamar de alguém ou algo que é injusto. Se o mundo somos nós, a injustiça do mundo significa que nós estamos sendo injustos. Que tal reverter este quadro, procurando ser justo, ao invés de reclamar? Na verdade o que se está fazendo ao reclamar da injustiça do mundo é entender por mundo alguma entidade externa e indefinida, provavelmente metafísica e atribuir a ela a culpa. Em segundo lugar, traduz uma visão limitada do ato de errar. Porque se alguém errou, eu também errei por deixá-lo errar. Ou seja, querer que com o erro seja punido tão somente aquele que errou, traduz uma visão simplista, simplificada, cada ser, solitário e isolado, encerrado em seu mundo, cometendo erros e acertos segundo algum código mágico, pré-definido, recebendo por eles punição ou prêmio. Tal somatório de mundos individuais é o resultado de uma visão míope que não enxerga conexões e vê cada individuo encerrado em sua redoma. É o fato de eu ser responsável pelos erros dos outros que vai possibilitar que eu me mobilize para impedi-lo. Fosse cada um responsável exclusivamente pelos seus erros, além do elemento mágico e misterioso que teria que ser introduzido, como já foi mencionado acima, estar-se-ia consolidando um individualismo em que cada um cuidaria exclusivamente daquilo que faz. Uma punição post mortem (a admissão de céu e inferno), como o faz a igreja católica, apesar de traduzir uma visão mais elaborada ao jogar as consequências dos erros não na própria vida, mas na continuidade desta, continua sofrendo dos problemas apontados acima.
Agosto de 2009
PORQUE EUROPA?
Porque Europa? Europa representa uma parte do passado, uma parte das raízes. Além disso, apesar dos carros, dos turistas e suas máquinas, poucos passeios urbanos para mim são tão prazerosos como andar pelas ruelas tortuosas de uma cidade européia de traçado medieval. Existe sempre um rio, uma ponte, um castelo, uma igreja, ou tudo isto junto, fornecendo a desculpa para a gente dobrar uma esquina.
Mais importante que o passado para mim, no entanto é o futuro. Porque para nós aqui imersos na luta pela sobrevivência é interessante conhecer como sobreviver à abastança. Claro, a Europa de hoje não é mais a Europa dos anos setenta. Mas talvez justamente por isto. Porque a Europa dos anos setenta, com seu equilíbrio, sua paz social me parece um objetivo excessivamente distante para ser interessante, enquanto que a Europa de hoje com suas massas de desempregados e desiludidos circulando no meio da riqueza já me parece bem mais próxima.
A viagem á Europa permite uma visita a uma constelação de problemas e questões existenciais que por uma série de razões eu consigo pensar, mas não vivenciar aqui. Em primeiro lugar pela premência das nossas questões sociais, econômicas e políticas que parecem a tudo absorver e dão uma resposta fácil a todas as questões. O meu vizinho é alcoólatra. Mas ele é pobre e negro e a sua perspectiva de vida extingue-se na sobrevivência da sua família. Isto explica tudo, ou, ao menos, parece explicar. O enteado do meu amigo londrino também é alcoólatra, mas é branco, tem olhos claros e mesmo afastado do trabalho recebe um auxílio que o permite viver confortavelmente em um apartamento decente e até mesmo viajar. E aí a pergunta sobre o como e o por que surge mais perturbadora e inquiridora.
Não quero colocar primazia nas questões existenciais frente a questões sociais e políticas. Mas dentro de uma visão holística, acho que elas caminham juntas. E a visita à Europa me propicia uma percepção mais clara e uma visão mais nítida das primeiras. Dou alguns exemplos só para ilustrar.
A solidão. A solidão é um tema universal. E, no entanto, a solidão num país tropical como o Brasil, onde a maior parte da vida se passa no exterior, ao ar livre, onde a família, a comunidade é uma presença marcante, jamais atinge o grau da solidão em um país de clima frio, dentro de um marco cultural como o anglo-saxão de reserva e introspecção. Claro, individualismo há aqui e lá, mas o fato de encontrar-se em uma etapa mais avançada do capitalismo acentua o individualismo lá e sempre é interessante ver com os próprios olhos onde isto pode dar. Solidão sempre houve, sempre haverá, e, no entanto, os tempos modernos com o seu individualismo, sua fragmentação, tornaram esta questão mais premente e que requer ser pensada, mas também sentida e vivida. Na Europa vive-se esta realidade com a fragmentação de toda e qualquer estrutura social. A última é a família e sua componente básica: o sexo. Em muitos ambientes vive-se a guerra dos sexos, guerra contra o sexo, e o sexo é visto como submissão e dependência não somente pelo heterossexual onde a desigualdade seria mais óbvia, mas também pelo homossexual onde aparentemente haveria mais base para um equilíbrio dos papeis. Aliás, longe de mim o homofóbico, eu que tive e ainda tenho grandes e bons amigos homossexuais, mas paira em mim uma dúvida. Esta excessiva ênfase na homossexualidade na Europa, a ponto de às vezes ter-se a impressão que o heterossexual é que é a anomalia, não atestaria a incapacidade de lidar com as diferenças?
A irracionalidade da racionalidade é outro tema fascinante para o qual a Europa fornece maravilhosas ilustrações. Assisti à apresentação de uma obra de John Cage tão preocupada em justificar a geração aleatória de sons, tão preocupada em explicar as razões para o silêncio da sua música que me deparo com um dilema: seria a irracionalidade da racionalidade, a racionalidade do irracional ou ambos?
O caminho dialético da contradição encontra na Europa muitas outras instâncias. Vejamos a Bauhaus, por exemplo, escola de arte surgida na Alemanha durante a república de Weimar, um dos berços do design e da arquitetura moderna. A proposta inicial era socialista, retirar a arte dos salões e colocá-la na rua ao alcance do homem comum. A idéia por trás das torres de vidro, concreto e metal era dar habitação barata e digna, ventilar os interiores e enche-los de luz, espantar o úmido e sombrio da vida do povo. Deu em que? A arte foi apropriada pela indústria, preocupações com custos substituíram a busca pelo prático e funcional, modismos, padronização e massificação tomaram o lugar da busca de uma estética satisfatória. As torres cresceram como cogumelos, lançando sombras uma sobre a outra e nesta dança de sombras sepultaram o sonho de ar e luz. Com o crescimento das torres, cresceram também as massas que as povoam e o seu movimento encheu as vias de carros, barulho e poluição. No burburinho e na agitação foi-se o relacionamento humano, o profundo, o intenso, o que importa. As massas soterraram o pequenino grão de areia. Ou talvez, tenham sido dois.
Finalmente tem a política. Uma ida a Europa permite deparar-se com um fenômeno praticamente ausente no Brasil e na América Latina de hoje, mas que pode desempenhar um papel relevante em um futuro não tão distante assim: o terrorismo. Andando pelas estações de trem de Londres, caroço de fruta na mão, levei algum tempo para entender o porquê da inexistência de lixeiras. Entendi mas reluto em aceitar uma lógica que procura eliminar bombas, eliminando as lixeiras. É o sintomatismo no seu mais alto grau. Não se mexe nas causas, não se investiga o porquê nem o como, nem ao menos vai-se em cima do indivíduo ou dos grupos que promovem o terrorismo. Num interesse bem particular de alguma corporação da polícia, de alguma repartição responsável pela segurança, para preservar a ordem que possibilita o progresso das corporações de interesse privado, pune-se o geral, acabando com as lixeiras. Em protesto eu depositei o meu caroço em cima de um telefone. Público.
Maio de 2009
Mais importante que o passado para mim, no entanto é o futuro. Porque para nós aqui imersos na luta pela sobrevivência é interessante conhecer como sobreviver à abastança. Claro, a Europa de hoje não é mais a Europa dos anos setenta. Mas talvez justamente por isto. Porque a Europa dos anos setenta, com seu equilíbrio, sua paz social me parece um objetivo excessivamente distante para ser interessante, enquanto que a Europa de hoje com suas massas de desempregados e desiludidos circulando no meio da riqueza já me parece bem mais próxima.
A viagem á Europa permite uma visita a uma constelação de problemas e questões existenciais que por uma série de razões eu consigo pensar, mas não vivenciar aqui. Em primeiro lugar pela premência das nossas questões sociais, econômicas e políticas que parecem a tudo absorver e dão uma resposta fácil a todas as questões. O meu vizinho é alcoólatra. Mas ele é pobre e negro e a sua perspectiva de vida extingue-se na sobrevivência da sua família. Isto explica tudo, ou, ao menos, parece explicar. O enteado do meu amigo londrino também é alcoólatra, mas é branco, tem olhos claros e mesmo afastado do trabalho recebe um auxílio que o permite viver confortavelmente em um apartamento decente e até mesmo viajar. E aí a pergunta sobre o como e o por que surge mais perturbadora e inquiridora.
Não quero colocar primazia nas questões existenciais frente a questões sociais e políticas. Mas dentro de uma visão holística, acho que elas caminham juntas. E a visita à Europa me propicia uma percepção mais clara e uma visão mais nítida das primeiras. Dou alguns exemplos só para ilustrar.
A solidão. A solidão é um tema universal. E, no entanto, a solidão num país tropical como o Brasil, onde a maior parte da vida se passa no exterior, ao ar livre, onde a família, a comunidade é uma presença marcante, jamais atinge o grau da solidão em um país de clima frio, dentro de um marco cultural como o anglo-saxão de reserva e introspecção. Claro, individualismo há aqui e lá, mas o fato de encontrar-se em uma etapa mais avançada do capitalismo acentua o individualismo lá e sempre é interessante ver com os próprios olhos onde isto pode dar. Solidão sempre houve, sempre haverá, e, no entanto, os tempos modernos com o seu individualismo, sua fragmentação, tornaram esta questão mais premente e que requer ser pensada, mas também sentida e vivida. Na Europa vive-se esta realidade com a fragmentação de toda e qualquer estrutura social. A última é a família e sua componente básica: o sexo. Em muitos ambientes vive-se a guerra dos sexos, guerra contra o sexo, e o sexo é visto como submissão e dependência não somente pelo heterossexual onde a desigualdade seria mais óbvia, mas também pelo homossexual onde aparentemente haveria mais base para um equilíbrio dos papeis. Aliás, longe de mim o homofóbico, eu que tive e ainda tenho grandes e bons amigos homossexuais, mas paira em mim uma dúvida. Esta excessiva ênfase na homossexualidade na Europa, a ponto de às vezes ter-se a impressão que o heterossexual é que é a anomalia, não atestaria a incapacidade de lidar com as diferenças?
A irracionalidade da racionalidade é outro tema fascinante para o qual a Europa fornece maravilhosas ilustrações. Assisti à apresentação de uma obra de John Cage tão preocupada em justificar a geração aleatória de sons, tão preocupada em explicar as razões para o silêncio da sua música que me deparo com um dilema: seria a irracionalidade da racionalidade, a racionalidade do irracional ou ambos?
O caminho dialético da contradição encontra na Europa muitas outras instâncias. Vejamos a Bauhaus, por exemplo, escola de arte surgida na Alemanha durante a república de Weimar, um dos berços do design e da arquitetura moderna. A proposta inicial era socialista, retirar a arte dos salões e colocá-la na rua ao alcance do homem comum. A idéia por trás das torres de vidro, concreto e metal era dar habitação barata e digna, ventilar os interiores e enche-los de luz, espantar o úmido e sombrio da vida do povo. Deu em que? A arte foi apropriada pela indústria, preocupações com custos substituíram a busca pelo prático e funcional, modismos, padronização e massificação tomaram o lugar da busca de uma estética satisfatória. As torres cresceram como cogumelos, lançando sombras uma sobre a outra e nesta dança de sombras sepultaram o sonho de ar e luz. Com o crescimento das torres, cresceram também as massas que as povoam e o seu movimento encheu as vias de carros, barulho e poluição. No burburinho e na agitação foi-se o relacionamento humano, o profundo, o intenso, o que importa. As massas soterraram o pequenino grão de areia. Ou talvez, tenham sido dois.
Finalmente tem a política. Uma ida a Europa permite deparar-se com um fenômeno praticamente ausente no Brasil e na América Latina de hoje, mas que pode desempenhar um papel relevante em um futuro não tão distante assim: o terrorismo. Andando pelas estações de trem de Londres, caroço de fruta na mão, levei algum tempo para entender o porquê da inexistência de lixeiras. Entendi mas reluto em aceitar uma lógica que procura eliminar bombas, eliminando as lixeiras. É o sintomatismo no seu mais alto grau. Não se mexe nas causas, não se investiga o porquê nem o como, nem ao menos vai-se em cima do indivíduo ou dos grupos que promovem o terrorismo. Num interesse bem particular de alguma corporação da polícia, de alguma repartição responsável pela segurança, para preservar a ordem que possibilita o progresso das corporações de interesse privado, pune-se o geral, acabando com as lixeiras. Em protesto eu depositei o meu caroço em cima de um telefone. Público.
Maio de 2009
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
LIÇÕES DE TOLERÂNCIA
Fui passar as férias no Maranhão, terra de um dos pivôs da realpolitik do nosso presidente Lula. No caminho do aeroporto para a pousada em S. Luís o chofer de táxi me contou uma história que eu aqui reconto para vocês.
“Minha mulher agora resolveu adotar um menino. Tem três anos. Ele é filho da minha cunhada e minha mulher cisma que ele é meu.”
“E é?” foi a pergunta que eu consegui formular, aliás, de total irrelevância porque se fosse, ele podia não dizer, e se ele dissesse que era, podia não ser. Finalmente se ele dissesse que era e, de fato fosse, qual a diferença que faria?
“É não!” continuou o motorista “Mas eu gosto do danado do menino e ele de mim. Se o senhor visse como ele é esperto. Parecer ter oito anos. Fala que nem gente grande.”
“O senhor tem outros filhos?” prossegui eu dentro da minha lógica, tentando entender. Ele tinha mais dois, já adultos. E eu, insistindo na mesma direção: “Mas a mãe dele, sua cunhada, não achou mal perder a criança?”
“Achou não. Ela sabe que o menino gosta de mim, que eu posso dar melhor trato. Quando o menino era pequeno, ele costumava passar os fins-de-semana comigo. Minha cunhada mora no interior, sabe com é, né?”
“E o seu cunhado não diz nada?”
“Diz não. Ele também acha que o filho é meu.” Segundo o motorista, tudo se passava na mais santa paz. Se é verdade ou não, eu não sei nem nunca vou saber.
A história teve mais detalhes que eu aqui omito por causa do espaço. Teve ainda a questão do teste de DNA que o motorista propôs fazer, mas o cunhado recusou com a argumentação de que na hora do exame podia haver troca de sangue. Ou será que o cunhado estava com medo do teste dar negativo, e ele não ter mais pretexto para justificar a entrega do menino? Se o teste desse positivo, a dúvida podia perder um espaço talvez conveniente.
As feministas e os moralistas que me desculpem. Não estou aqui fazendo a apologia do macho que planta a sua semente pelo mundo afora, nem tampouco estou pregando a dissolução do casamento, campanha aliás de pouca serventia, visto já ter acontecido. Simplesmente achei a história bonita porque traduz um pouco daquele espírito comunitário que talvez venha dos indígenas, em que ninguém pertence a ninguém.
Julho de 2009
“Minha mulher agora resolveu adotar um menino. Tem três anos. Ele é filho da minha cunhada e minha mulher cisma que ele é meu.”
“E é?” foi a pergunta que eu consegui formular, aliás, de total irrelevância porque se fosse, ele podia não dizer, e se ele dissesse que era, podia não ser. Finalmente se ele dissesse que era e, de fato fosse, qual a diferença que faria?
“É não!” continuou o motorista “Mas eu gosto do danado do menino e ele de mim. Se o senhor visse como ele é esperto. Parecer ter oito anos. Fala que nem gente grande.”
“O senhor tem outros filhos?” prossegui eu dentro da minha lógica, tentando entender. Ele tinha mais dois, já adultos. E eu, insistindo na mesma direção: “Mas a mãe dele, sua cunhada, não achou mal perder a criança?”
“Achou não. Ela sabe que o menino gosta de mim, que eu posso dar melhor trato. Quando o menino era pequeno, ele costumava passar os fins-de-semana comigo. Minha cunhada mora no interior, sabe com é, né?”
“E o seu cunhado não diz nada?”
“Diz não. Ele também acha que o filho é meu.” Segundo o motorista, tudo se passava na mais santa paz. Se é verdade ou não, eu não sei nem nunca vou saber.
A história teve mais detalhes que eu aqui omito por causa do espaço. Teve ainda a questão do teste de DNA que o motorista propôs fazer, mas o cunhado recusou com a argumentação de que na hora do exame podia haver troca de sangue. Ou será que o cunhado estava com medo do teste dar negativo, e ele não ter mais pretexto para justificar a entrega do menino? Se o teste desse positivo, a dúvida podia perder um espaço talvez conveniente.
As feministas e os moralistas que me desculpem. Não estou aqui fazendo a apologia do macho que planta a sua semente pelo mundo afora, nem tampouco estou pregando a dissolução do casamento, campanha aliás de pouca serventia, visto já ter acontecido. Simplesmente achei a história bonita porque traduz um pouco daquele espírito comunitário que talvez venha dos indígenas, em que ninguém pertence a ninguém.
Julho de 2009
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