terça-feira, 28 de setembro de 2021

Tempos, relógios e relojoeiros

 

              Quase todos os meus relógios são de corda. Eu sei que os relógios de quartzo são mais precisos e não tenho nada contra a precisão. Mas é que eu não suporto a cultura do descartável e cansei de comprar relógio elétrico que dura dois anos, pára, leva-se no conserto para ouvir: “Não tem jeito! Só trocando a máquina.”

            Claro que relógio de corda também dá defeito. Qualquer máquina dá defeito. Mas a gente consegue consertar, troca uma engrenagem, faz novo embuchamento, bota mola nova, quando não tem a gente arruma na sucata ou faz a peça, de dois relógios faz um, limpa, coloca óleo, regula, ajusta, tira folga e aperta. Tenho aqui em casa relógios de 40, 50 e até mesmo 100 anos. Valorizo a sua companhia e no meio de tantas caras conhecidas, décadas me contemplam e me acompanham.

            Para o conserto dos relógios uso os serviços do Adelino, nordestino arretado, que tem a sua oficina no centro da cidade. Se o Adelino me ajuda na minha cruzada contra o tempo, quem ajuda o Adelino são as filhas dele, cada uma mais bonita que a outra. Fica lá o velho, arrodeado de menina bonita, mais parece o pavão misterioso, batendo as asas e enchendo o peito, uma vista apertando a lupa de relojoeiro, enquanto com a outra toma conta das garotas.

            Usei um despertador quebrado como pretexto para fazer uma visita ao Adelino e ao seu harém. Chegando lá, ele examinou o relógio, fez o orçamento e eu acabei deixando a máquina. Passaram-se semanas. Um dia resolvi telefonar. Perguntei pelo despertador.  “Ih, rapaz, me lembro sim. Só não lembro onde eu coloquei. Só minha filha é que sabe, mas ela saiu. Liga outra hora.” foi o que ele disse.

            Esperei um dia inteiro para ligar. Falei com a filha, ela encontrou o relógio, mas não estava pronto. Mandou eu ligar na outra semana. Esperei duas. Liguei, falei de novo com a filha.  Agora o relógio estava pronto. No mesmo dia fui apanhá-lo.

            Desta vez quem me atendeu foi Adelino. Pegou o relógio que estava em cima da  prateleira, olhou bem nos meus olhos e perguntou: “Você é o Marcos?” Neguei, ao que ele, decepcionado, insistiu: “Então vê se este é o seu.” E me entregou o relógio. Peguei, examinei-o com cuidado e, sorrindo, disse: “Olha Adelino, jurar que este é o meu, eu não juro não, mas que é muito parecido, isto é. Só se você tiver outro igual.”

            Eu tinha falado por falar, me julgando muito engraçado, mas não é que o diabo do homem tinha mesmo outro igual? Qual um mágico que tira o coelho da cartola, ele tirou da manga da camisa um outro relógio igualzinho e me apresentou. Eu cocei a cabeça com ar preocupado: “E agora? Os dois são idênticos.”

Para minha salvação me lembrei que eu tinha feito uma marca na parte de trás e graças a ela foi possível a identificação. Coloquei o meu relógio na mochila e fui para casa crente que o problema tinha sido resolvido.

            Qual o que! Na pressa e na confusão da identificação, eu tinha esquecido de escutar o tique-taque e foi só em casa que eu resolvi verificar. Para minha decepção o relógio estava imerso em total mutismo. Liguei para Adelino e já providenciei a explicação: “Você consertou o outro, o do Marcos. O meu você deixou do jeito que estava.” Ele foi lacônico e respondeu só com um “Pode ser.”.

            Eu valorizo a honestidade e a sinceridade. Além disso, sei por experiência própria, que a vida é difícil, ainda por cima assim, cercado de filha bonita. Foi por isto que eu resolvi levar o relógio na oficina  outra vez.

            Cheguei, e lá estava ele, com uma vista presa nas entranhas de um relógio, a outra me bisbilhotando. Nem me cumprimentou. Foi logo dizendo: “Porque você não leva o outro?”

            “O do Marcos?” perguntei desconcertado.

            “Ora, é tudo igual. E o outro está funcionando.”

            Levei o outro, o do Marcos, que está aqui na minha frente fazendo um tique-taque calmo de quem está muito feliz com o seu novo dono. A minha consciência está tranquila pois eu bem que avisei. Depois, é mesmo tudo igual. Para reforço das minhas boas intenções eu sempre posso alegar que é tudo invenção. Fui eu que inventei esta história. O Marcos nem existe, e se existe, abandonou o relógio na oficina do Adelino e nunca mais apareceu.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

A mendiga e a galinha

 

Sinal dos tempos. Para fazer companhia ao mendigo na fria solidão das ruas e calçadas, nem mais o cachorro tem vez. Cachorro precisa de comida. E mesmo que o cachorro seja pequeno, mesmo que coma resto de comida, será que resta comida nestes tempos sombrios?

Outro dia eu vi uma mendiga perto do prédio onde moro. Era muito miserável, muito suja e maltrapilha. Nem sandália havaiana tinha, andava descalça. A cabeça não devia funcionar muito bem, porque ela só falava coisas desconexas. O português dela mal dava para pedir esmola.

A única companhia dela era uma galinha. A galinha ciscava nos canteiros, era um grãozinho de arroz aqui, um farelo de pão ali, uma formiga acolá. A mendiga conversava com a galinha e, não sei se era imaginação minha, mas a impressão que eu tinha, era que a galinha entendia. Entendia ao menos que o lugar dela era ali, junto da mendiga que conversava com ela, apesar do trânsito, bicicletas, carros e pedestres.

Nenhum pedestre, dos muitos que passavam, prestava atenção nem na mendiga nem na galinha. Mas a galinha sim, prestava atenção no que a mendiga dizia. Volta e meia parava de ciscar, levantava a cabeça e escutava interessada. Olhava a mendiga, a mendiga olhava para ela e trocavam olhares.

Sinal dos tempos, foi o que eu pensei. No prato do pobre sumiu o frango, sumiu o feijão. Sobra só arroz com macarrão. E a galinha dá ovo e o ovo pode dar um colorido ao arroz com macarrão.

 

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Amante e cunhado

 

 

A vida requer estratégia. O amor também. Foi isto que João pensou quando bolou o plano. Na verdade, ele não bolou plano nenhum. As coisas foram acontecendo, ao longo do tempo, de uma forma natural, como as coisas acontecem. Naturalmente.

            João era dado a um Manoel, um Francisco e um José, mas na cidadezinha onde ele morava, isto era um problema. Podia cair na boca do povo e como tinha reputação a zelar, era chefe de repartição, ia perder autoridade, e, sem autoridade, onde é que ia dar?

            Ele costumava ser cuidadoso na escolha. Só escolhia menino novo, destes que não namoram, passeiam sozinhos na praça, e, nas festas, ficam de lado, sem jeito, deslocados, encabulados. João observava atentamente, colhia informações, escutava e aguardava o momento oportuno.

            Na época de S. João, todo ano tinha festa no pátio da paróquia. O forró estava comendo solto, pares dançando juntos, apertadinhos, mantendo a boca do povo ocupada.

         Manoel estava num canto, não dançava, não puxava conversa com as meninas, tímido, desajeitado.

            “Como é Manoel, desanimado?”

            “Não, estou cansado”

            “É a coisa aqui é devagar quase parando. Cidadezinha pequena, sabe como é?  Atraso de vida. Só dá forró. Voltei do Rio de Janeiro, semana passada. Lá que a farra é boa. Carnaval, boate e folia.” E tacava a falar das suas aventuras, deixando entrever, nas entrelinhas, subentendido, dito sem dizer, o que é que lhe interessava.

            O outro, que nunca tinha saído dos rincões da mata, bebia as palavras, olhos acesos, boca aberta, fogo na imaginação.

            Depois de atear o fogo, João ficou olhando o lume se espalhar. Fez uma pausa longa para estudar o efeito. “Qualquer dia te levo lá para passear, se divertir um pouco.”

            Mas Manoel era de família humilde. “Ai, quem dera, mas e a grana?”

            “Ora, isto a gente vê. Para tudo tem jeito. Posso emprestar, depois você devolve.”

            E a conversa morreu ali. João tinha dado o primeiro passo, tinha plantado a semente. Agora era esperar ela germinar.

 

            João tinha comprado uma casinha afastada, na beira da mata. Tinha sido um depósito de material e ferramentas, mas ele foi reformando, no capricho. Dizia que era para alugar, mas, longe de tudo, quem ia querer? Acabava ele usando, de vez em quando, para espairecer, esquecer de tudo, esfriar a cabeça. Era o que dizia.

            Morar mesmo, João morava bem no centro da cidadezinha, perto da pracinha principal. Foi na pracinha que ele voltou a encontrar Manoel. Conversaram, trocaram impressões.

            “Te falei outro dia da minha viagem. Tirei umas fotos. Você não quer ver? Está lá na minha casinha, na boca do mato. Levei para lá para ver na calma, sem pressa nem afobação.”

            E lá foram os dois. Era meia hora de caminhada. Subia a serra, descia a serra, a estrada ia dando voltas sinuosas e na sinuosidade da estrada foram se enredando, os passos se trocando, num troca-troca de passos e sinuosidades.

            Chegando na casinha, abriram a porta e entraram.

Eu, que sou o narrador, vou ficar de fora, esperando, que é para não embaraçar as ideias e a imaginação. Senão posso perder o fio da meada e me atrapalhar.

Vou ficar olhando a noite estrelada, porque a lua ainda não nasceu. Vejo em volta só estrelas. No céu, as estrelas de verdade. No chão, os vagalumes, estrelas caídas do céu.

            A única coisa que atrapalha o brilho da noite faiscando nas estrelas, é a luz amarelada que sai da janela da casinha. Mas logo, logo, também isto se resolve. A luz se apaga e agora é só a natureza e o seu espetáculo. Quem, no entanto, olhar bem, prestar bastante atenção, vai ver que da chaminé da casinha, começam a surgir umas fagulhas, uns pontinhos luminosos, fogo subindo pro céu.

 

            João e Manoel ainda se encontraram algumas vezes na casinha, mas aquilo era perigoso. Na cidadezinha tudo se sabia, tudo se acabava sabendo. Havia que botar as coisas nos eixos, ou como se diz, regularizar a situação, porque o que está regularizado, regularizado está.

            Para começo de conversa, João arrumou um emprego para Manoel. Na repartição é claro, porque ali quem mandava era ele. Assim, o contato ficava mais fácil e menos suspeito. Podia combinar os encontros, ter as conversas, sem levantar desconfianças.

Mas, a longo prazo, era pouco. Havia que dissipar as dúvidas porque a boca do povo está sempre à cata de notícias.

            É aqui que as três irmãs de João passam a figurar: Rosa Maria a mais velha, Maria Rosa a do meio e Rosemary a mais nova. Três rosas em botão, três botões de rosa. Todas três querendo desabrochar, principalmente a mais velha que já estava mesmo em idade de casar. Muito tímidas, muito recatadas, estavam esperando o irmão apresentar rapaz ajuizado, decente e trabalhador, de preferência com emprego e carteira assinada.

            Neste sentido Manoel vinha mesmo a calhar. E, de quebra, acabavam-se as suspeitas e as insinuações. Ficava claro que com a aproximação, a amizade e o emprego novo, João estava só procurando ajudar Rosa Maria a se arrumar na vida.

            Não foi difícil convencer Manoel. Ele era flexível, versátil, pau para toda obra. O que ele queria mesmo era se arrumar na vida, sair da pobreza e da miséria que ele tinha conhecido em casa. O emprego ele tinha arrumado, mas João podia se cansar dele, e aí como é que ia ser? Agora, entrando na família, era diferente. Rosa Maria era menina bonita, prendada, caprichosa, sabia cozinhar e costurar. Com ajuda do cunhado, ele comprava uma casinha, que Rosa ia mantendo limpa e arrumada. E, de quebra, ganhava prestígio, reputação e ainda ganhava uma família respeitada na cidade. Que mais ele podia querer?

            Foi exatamente assim que as coisas aconteceram. Manoel e Rosa Maria se casaram e João foi o padrinho. Um ano depois tiveram um filho, um ano depois mais um, e teriam tido mais, se o tempo permitisse, e se a casa em que moravam tivesse mais espaço, mas João tinha teimado em colocar limites.

            Os encontros de João e Manoel na casinha na boca do mato tinham rareado, mas, em compensação, volta e meia, eles faziam uma viagem. A viagem era grande e demorada. João já não era mais garoto e queria a ajuda e a companhia do cunhado para carregar as malas, e resolver os problemas que iam aparecendo. Era o que dizia.

            Rosa Maria ficava, porque havia que cuidar da casa e das crianças. Na verdade, ela até preferia, porque cidade grande, terra distante, gente desconhecida, barulho e confusão, não era bem o que ela gostava. Além disso, em troca dos cuidados e da dedicação, ganhava uma mala recheada de presentes.

            O arranjo teria durado a vida toda se Manoel não tivesse se cansado. Um certo dia, depois de uma viagem daquelas, longa e demorada, tinha chegado para João, no maior respeito e consideração, que era para não magoar, não ferir, porque ele queria a amizade do cunhado, lhe queria bem, lhe tinha carinho e afeição.

            Manoel tinha falado com cuidado, porque ali, tratava-se de sentimento e toda cautela era pouca. Mas ele, Manoel, precisava arrumar a vida, acertar o rumo, aprumar o juízo. Aquelas viagens longas e constantes perturbavam o ritmo e a vida do casal, e apontando para a barriga disse que já não era mais garoto.

            João compreendeu e, além disso, que mais lhe restava se não compreender? Havia que se conformar, partir para outra.

 

É aqui que Francisco e Maria Rosa entram na minha história. Ou melhor, é assim que a minha história continuaria. Eu só não conto porque é mais ou menos semelhante, e eu tenho o maior respeito pelo tempo e pela paciência do leitor.

Depois do Francisco e da Maria Rosa tem ainda o José e a Rosemary. Mas, e depois? Afinal, João só tinha três irmãs e todo estoque de planos e estratégias é finito.

Mas, como eu já disse, aqui não se trata de plano. Aqui se trata de coisas acontecendo, naturalmente.

Naturalmente pode ter acontecido que João, ele também, se cansasse da vida de viajante errante. Pode ter resolvido sossegar. Pode ter construído um caramanchão na casinha da boca do mato e hoje planta orquídeas.

            Para aqueles que preferem final mais trágico e menos natural, existe sempre a possibilidade do plano não ter dado certo. Em certo momento, Maria Rosa ou Rosemary desconfiaram das viagens prolongadas, e resolveram acabar com a farra.

Só como observação, e visando defender a versão do happy end, devo dizer que a probabilidade disto ter acontecido é pequena, porque ali todo mundo só tinha a ganhar, mantendo o silêncio e a discrição.

            A terceira e última possibilidade é a que mais me atrai e é por isto que eu a deixei por último. Vai ver que José não se cansou, vai ver que ele não criou nem barriga, nem juízo. Nem precisou arrumar a vida porque a vida dele já estava arrumada. Ele continua por aí, viajando com o João por este Brasil a fora.