O texto abaixo é de autoria de Lúcia Silva Kubrusly
I
O IBGE nos informa que entre os trabalhadores cresce o
desemprego e a ocupação por conta própria, que aqui no Brasil a gente chama de
“bico”.
As variações no
BRASIL:
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BRASIL 2011
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BRASIL 2015
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variação (%)
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desocupação
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0,067
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0,096
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43,28
|
conta própria
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0,210
|
0,230
|
9,52
|
O brasileiro perplexo; o
brasileiro complexo: desigualdade, deseducação, doença, desemprego. Esses são
os problemas do mundo real. Mas falam: basta de corrupção e violência. Quem
fala? Pra quem se fala? O complexo do brasileiro; o brasileiro do complexo; o
simples brasileiro com medo do complexo.
O cara acorda, mal fala, sai pro
trabalho. Começa o dia assediando a recepcionista, que sorri embaraçada pela
rudeza e grosseria dos comentários emitidos junto com um sorriso cafajeste. Ela
escapa e ele entra no escritório.
Percebe que ontem não terminou o trabalho que devia terminar, e
imediatamente põe a culpa no outro, seu subordinado, que não sabendo como
mandar o chefe tomar no cu sem perder o emprego, engole mais essa. Apesar de
ter se livrado fácil da responsabilidade da falta, começa a ficar irritado; 10
horas da manhã, o dia vai ser longo. Na hora do almoço, fica sabendo que vai
ter demissão; demissões. Dá um jeito de entrar pra comissão que escolherá quais
serão as próximas vítimas, supondo que quem é da comissão está a salvo. Termina
o almoço e começa um relatório detalhado sobre uns três ou quatro que na sua
opinião, podem ser dispensados sem prejuízo da empresa, muito pelo contrário.
As vítimas são mulheres jovens, porque mulher não serve pra nada e jovem ainda
por cima é inexperiente. Mas isso não está no relatório. Aliás seus relatórios
escolhendo as vítimas foi elogiado, algumas das sugestões foram até seguidas, mesmo
depois da sua própria demissão que ocorrerá depois de amanhã. Evidentemente a
direção não vai querer manter esse cara que não protege nem a sua turma. Isso
não é bom pra empresa, gera insegurança, etc. Depois de tanto trabalho
detonando suas colegas, vai pra casa. Reclama da comida, da programação da tv,
do país que é uma merda, da mulher que enche o saco. Ela também teve um dia
cheio e está uma pilha. Manda o marido à merda e leva um tabefe. Revida e chuta
o saco dele: “Se tá pensando que vou dar queixa na polícia está muito enganado.
Você me paga aqui mesmo”, e deu outro chute que errou o alvo. Ele deu um soco
que deixou o olho dela roxo - “filho da
puta!”- e se trancou no banheiro e ligou
o chuveiro. Ele bateu a porta e saiu. Foi beber uma cerveja. Sentou, pediu e
esperou. Veio a cerveja e um pedinte: “tio me dá um salgado, ainda não comi
hoje” “Não, sai, sai...” e pediu um salgado pra ele mesmo, que não tinha
jantado direito. Pensou nas soluções que ia propor amanhã na comissão. O que
fazer além da lista de demissões. Garantir seu lugar, ser muito criativo e
competente. Voltou pra casa, dormiu no outro quarto, a mulher tinha trancado a
porta do quarto deles. Melhor. Acordou, saiu, chegou cedo, antes da recepcionista
que assim se livrou das grosserias dele, e entrou na sala. Abriu o computador e
começou outro relatório. Dessa vez com ótimas ideias organizacionais. Na
opinião dele. No almoço, ninguém veio conversar com ele, “melhor, um bando de
idiotas, falsos, interesseiros”, foi o que pensou. Terminou o dia enviando seu
relatório pra diretoria. Saiu.
No dia seguinte sua demissão foi
o primeiro email que ele recebeu. Terminava assim: “favor passar no RH para os
devidos acertos...todos os direitos serão respeitados. ” Contenção de despesas
foi o que disseram pelos corredores. Usaram até frases que ele próprio escreveu
nos relatórios. Ele até achou um certo consolo nisso. Não sabia que todos os
relatórios tinham mais ou menos as mesmas frases.
II
Bico: trabalho temporário, biscate,
serviço remunerado que se faz para além do emprego habitual, trabalho extra,
etc.
Quando eu vivia de bico, eu era
um coitado, não tinha aquele dinheiro certo no fim de mês, não podia garantir o
aluguel, a comida, nada. Então fui morar com minha irmã e o meu cunhado e os
filhos deles. Quando arranjava dinheiro, tinha que pagar conta, fazer
supermercado, comprar sapato pras criança. Quando não arranjava, ia levando,
mas não passava fome não. Fazia o que aparecia: pintava parede, derrubava
parede, levantava parede, vendia bala no ponto de ônibus, água mineral no
calçadão da praia, empadinha que a minha irmã fazia, tomava conta de cachorro
quando o dono viajava, de tudo eu fazia um pouco. Isso durou 4 anos. Aí um
colega que morava perto e tomava cerveja comigo no sábado, disse que tinha um
emprego pra trabalhar num lugar lá no centro da cidade, ajudante, “auxiliar de
escritório”, foi o que disse. Fui lá, num deu certo, precisava ter segundo grau
e eu não tinha nem o primeiro completo. Mas o dono do depósito de bebida que
ficava bem na porta do prédio, tava precisando de alguém que levasse o carrinho
cheio de bebida pros bar dali perto. Tinha que chegar cedo, andar empurrando o
carrinho o dia todo pela rua, sair tarde, e ganhar o salário mínimo. Era ruim,
mas tinha a vantagem de não ficar em casa ouvindo que “quem era trabalhador
mesmo tinha emprego fixo”, não tinha que tomar conta das criança quando minha
irmã saia, nem consertar a pia quando entupia. Peguei o serviço. Era pior do
que eu pensava. O carrinho era muito pesado, eu terminava o serviço estourado, a
rua era cheia de gente, tinha bar que era bem longe, se quebrasse alguma
garrafa, o prejuízo era meu, uma vez o carrinho escangalhou, o patrão descontou
o conserto do meu salário, disse que era pra eu aprender a cuidar do que era
dos outros; tive que pagar em três prestação. O salário que era pequeno, no
final do mês quase nem existia. Mas sempre era um emprego, tinha vez que o
desconto era pequeno, ia dando pra levar. Aí meu cunhado disse “agora que tu
tem emprego, tu tem que pagar aluguel do quarto”, aí eu resolvi sair de lá. Se
era pra pagar aluguel eu não tinha que aturar o cunhado, a irmã, as criança. Arranjei outro quarto pra morar. Um pouco
mais longe e um pouco pior; tinha goteira e o banheiro era fora. Mas eu não
tenho luxo não, mudei e fiquei no serviço, acordando mais cedo ainda, voltando
mais tarde um pouco. Só que tinha dia que não dava pra chegar na hora de jeito
nenhum, se a Brasil tava parada, não tinha jeito, levava mais de duas horas pra
chegar. Aí o patrão reclamava, ameaçava
mandar embora, descontava o atraso. Um dia cheguei lá o patrão disse que eu não
precisava mais vir, que tinha arranjado outra pessoa. Me pagou só metade do
mês, e agora nem tem como pagar o aluguel. Vou acabar de novo na casa da minha
irmã. Meu cunhado largou ela, mas ela ficou na casa. Ta trabalhando de
faxineira e precisando de alguém que olhe os filho. Acho que ela me aceita de
novo. E eu volto pro bico, que é até melhor que o emprego de merda que eu tinha
arrumado.
III
Brasileiras e Brasileiros no mercado de trabalho em 2015
(PNAD / 2015)
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Mulheres
|
Homens
|
Rendimento
Mensal Médio
|
R$1432
|
R$1965
|
Desocupação
*
|
11,7
|
7,9
|
Pessoa
de referência no domicílio **
|
40,5
|
59,5
|
Trabalho
sem rendimento ***
|
8,5
|
4,5
|
*
percentual da PEA; **percentual dos domicílios; ***percentual da população
ocupada
A brasileira trabalhadeira. A
brasileira trabalhadora, a brasileira sem trabalho, a brasileira sem renda, a
brasileira e os filhos.
Minha avó trabalhava o dia
inteiro; na casa, na roça, na casa de novo; sem domingo, sem feriado. Minha mãe
casou e veio pra cidade; trabalhava o dia todo em casa cozinhando, limpando,
costurando. Eram mulheres trabalhadeiras. Eu cresci na cidade, estudei enquanto
pude, quer dizer, enquanto meu pai não abandonou minha mãe, que aí os filhos
tiveram que se virar. Eu entregava as roupas que minha mãe lavava pra fora;
entregava também os uniformes que ela costurava; uniformes de escola e de
trabalho. Uma fábrica contratou ela. Eu ajudava, entregando; tinha 12 anos. Meus
irmãos mais velhos arranjavam uns bicos,
e ganhavam algum. Quando ela morreu, eu tinha 18 anos e já trabalhava há
dois anos numa papelaria, no balcão. Estudava de noite e consegui terminar o
segundo grau. Depois comecei a trabalhar num escritório de advogado. Era
secretária, mas de vez em quando tinha trabalho de limpeza também. Um cara lá,
um dia, me imprensou na parede. Saí de lá e fiquei uns tempos desempregada. Foi
bom que conheci o Antonio e a gente se casou. E eu parecia minha mãe,
trabalhadeira em casa. Mas o dinheiro
era pouco e eu tive de começar a trabalhar fora de novo, depois que o Wesley
nasceu. Deixava ele com a minha sogra, pegava cedo no trabalho e largava tarde.
Já pegava ele dormindo. Agora nesse
trabalho, eu era ajudante de escritório, eu colocava tudo que era escrito dum
certo jeito, eles diziam formato. Vinha de tudo pro computador, bilhete, ordem
de serviço, carta, mudança de horário. Eu ajeitava e enviava pra lista. O chefe
do andar me mandou embora. Nem sei porque, nem me disseram, falaram de política da empresa, demitiram
várias pessoas. Fui falar com o chefe, não o do andar, que me mandou embora, o
outro que trabalhava mais perto, na sala 110. Não adiantou, ele falou que ele
também ia ser mandado embora. Mandaram entregar a carteira no RH. Tem um
dinheiro pra receber, mas nem dá pra nada. O Antônio vai ficar puto da vida e logo
logo o dinheiro vai faltar de novo. Mas o bom é que eu vou poder ficar com o
meu filho. Ele tá no segundo ano mas ainda não sabe ler. Só o nome dele e o da
gente, mas escrito grande ele não lê. Tomara que o Antonio não perca o trabalho...