segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Cartas para minha fisioterapeuta


I

            Chegada a velhice cabe escolher entre a bengala e a fisioterapia. Eu optei pela última e comecei cheio de esperança. Qual fênix das cinzas eu iria renascer, aprenderia o caminho para a eterna juventude e conseguiria até mesmo driblar a morte. Foi o que eu pensei durante as primeiras semanas do tratamento. Um problema no joelho que a fisioterapeuta resolveu rapidamente, reforçou a minha fé.
            Depois veio o problema do ombro, uma dor no ombro direito que não me deixava mais carregar nem peso, nem sacolas e que me lembrava persistentemente que o tempo não anda para trás. Desconfio que a dor foi uma consequência de uns exercícios posturais que a fisioterapeuta me ensinou e que eu pratiquei com um afinco excessivo para a minha idade e para a minha condição física. Tudo tem o seu ritmo, tudo tem o seu tempo e é preciso deixar as coisas fluir naturalmente.
Exame, diagnóstico, me ensina daqui, me ensina dacolá, exercício assim, exercício assado, massagem, aperto, amasso, nada adiantava, nada resolvia aquela dorzinha renitente que não largava do meu ombro direito. Foi o primeiro despertar do sonho. A dura realidade confrontava a ilusão.
Como a dorzinha não largava o meu ombro, larguei o sonho da eterna juventude e parti para a velha e milenar sabedoria oriental. Sem exame nem diagnóstico, sem se preocupar com causas e encadeamentos lógicos, sem indagações sobre histórico ou passado, sem perguntas nem respostas, o shiatsu, a moxa e a acupuntura, em poucas sessões, resolveram o problema do ombro.
Acho que aprendi mais alguma coisa. O caminho não é o da eterna juventude. A menos que esta consista em parar o tempo. Hoje, o que eu quero é parar, aprender a parar, aceitando a minha finitude. Com o tempo parado, o tempo não passa e eu, parado no tempo, não vejo o tempo passar.



II

            É necessário envolver-se para poder criar e é necessário distanciar-se para apreciar a criação. As duas coisas são fundamentais e compõe a dialética do processo criativo. Sem a aproximação, a obra não existe porque ela é consequência deste chegar perto, do fazer, do tocar e do manipular. Por outro lado, nada é perfeito, é preciso trabalhar em cima da obra, modificá-la e para isto é preciso senso crítico. Crítica é distanciamento.
            Tento levar você para o meu mundo e é importante que você o conheça para me entender e, assim, poder me tratar. Mas você não pode se tornar parte deste mundo, sob pena de não mais conseguir fazer o tratamento.


sábado, 13 de janeiro de 2018

Bico, biscate e desemprego

O texto abaixo é de autoria de Lúcia Silva Kubrusly

 
I

O IBGE nos informa que entre os trabalhadores cresce o desemprego e a ocupação por conta própria, que aqui no Brasil a gente chama de “bico”.

     As variações no BRASIL:

BRASIL 2011
BRASIL 2015
variação (%)
desocupação
0,067
0,096
43,28
conta própria
0,210
0,230
9,52


O brasileiro perplexo; o brasileiro complexo: desigualdade, deseducação, doença, desemprego. Esses são os problemas do mundo real. Mas falam: basta de corrupção e violência. Quem fala? Pra quem se fala? O complexo do brasileiro; o brasileiro do complexo; o simples brasileiro com medo do complexo.

O cara acorda, mal fala, sai pro trabalho. Começa o dia assediando a recepcionista, que sorri embaraçada pela rudeza e grosseria dos comentários emitidos junto com um sorriso cafajeste. Ela escapa e ele entra no escritório.  Percebe que ontem não terminou o trabalho que devia terminar, e imediatamente põe a culpa no outro, seu subordinado, que não sabendo como mandar o chefe tomar no cu sem perder o emprego, engole mais essa. Apesar de ter se livrado fácil da responsabilidade da falta, começa a ficar irritado; 10 horas da manhã, o dia vai ser longo. Na hora do almoço, fica sabendo que vai ter demissão; demissões. Dá um jeito de entrar pra comissão que escolherá quais serão as próximas vítimas, supondo que quem é da comissão está a salvo. Termina o almoço e começa um relatório detalhado sobre uns três ou quatro que na sua opinião, podem ser dispensados sem prejuízo da empresa, muito pelo contrário. As vítimas são mulheres jovens, porque mulher não serve pra nada e jovem ainda por cima é inexperiente. Mas isso não está no relatório. Aliás seus relatórios escolhendo as vítimas foi elogiado, algumas das sugestões foram até seguidas, mesmo depois da sua própria demissão que ocorrerá depois de amanhã. Evidentemente a direção não vai querer manter esse cara que não protege nem a sua turma. Isso não é bom pra empresa, gera insegurança, etc. Depois de tanto trabalho detonando suas colegas, vai pra casa. Reclama da comida, da programação da tv, do país que é uma merda, da mulher que enche o saco. Ela também teve um dia cheio e está uma pilha. Manda o marido à merda e leva um tabefe. Revida e chuta o saco dele: “Se tá pensando que vou dar queixa na polícia está muito enganado. Você me paga aqui mesmo”, e deu outro chute que errou o alvo. Ele deu um soco que deixou o olho dela roxo -  “filho da puta!”-  e se trancou no banheiro e ligou o chuveiro. Ele bateu a porta e saiu. Foi beber uma cerveja. Sentou, pediu e esperou. Veio a cerveja e um pedinte: “tio me dá um salgado, ainda não comi hoje” “Não, sai, sai...” e pediu um salgado pra ele mesmo, que não tinha jantado direito. Pensou nas soluções que ia propor amanhã na comissão. O que fazer além da lista de demissões. Garantir seu lugar, ser muito criativo e competente. Voltou pra casa, dormiu no outro quarto, a mulher tinha trancado a porta do quarto deles. Melhor. Acordou, saiu, chegou cedo, antes da recepcionista que assim se livrou das grosserias dele, e entrou na sala. Abriu o computador e começou outro relatório. Dessa vez com ótimas ideias organizacionais. Na opinião dele. No almoço, ninguém veio conversar com ele, “melhor, um bando de idiotas, falsos, interesseiros”, foi o que pensou. Terminou o dia enviando seu relatório pra diretoria. Saiu.

No dia seguinte sua demissão foi o primeiro email que ele recebeu. Terminava assim: “favor passar no RH para os devidos acertos...todos os direitos serão respeitados. ” Contenção de despesas foi o que disseram pelos corredores. Usaram até frases que ele próprio escreveu nos relatórios. Ele até achou um certo consolo nisso. Não sabia que todos os relatórios tinham mais ou menos as mesmas frases.


II

Bico: trabalho temporário, biscate, serviço remunerado que se faz para além do emprego habitual, trabalho extra, etc.

Quando eu vivia de bico, eu era um coitado, não tinha aquele dinheiro certo no fim de mês, não podia garantir o aluguel, a comida, nada. Então fui morar com minha irmã e o meu cunhado e os filhos deles. Quando arranjava dinheiro, tinha que pagar conta, fazer supermercado, comprar sapato pras criança. Quando não arranjava, ia levando, mas não passava fome não. Fazia o que aparecia: pintava parede, derrubava parede, levantava parede, vendia bala no ponto de ônibus, água mineral no calçadão da praia, empadinha que a minha irmã fazia, tomava conta de cachorro quando o dono viajava, de tudo eu fazia um pouco. Isso durou 4 anos. Aí um colega que morava perto e tomava cerveja comigo no sábado, disse que tinha um emprego pra trabalhar num lugar lá no centro da cidade, ajudante, “auxiliar de escritório”, foi o que disse. Fui lá, num deu certo, precisava ter segundo grau e eu não tinha nem o primeiro completo. Mas o dono do depósito de bebida que ficava bem na porta do prédio, tava precisando de alguém que levasse o carrinho cheio de bebida pros bar dali perto. Tinha que chegar cedo, andar empurrando o carrinho o dia todo pela rua, sair tarde, e ganhar o salário mínimo. Era ruim, mas tinha a vantagem de não ficar em casa ouvindo que “quem era trabalhador mesmo tinha emprego fixo”, não tinha que tomar conta das criança quando minha irmã saia, nem consertar a pia quando entupia. Peguei o serviço. Era pior do que eu pensava. O carrinho era muito pesado, eu terminava o serviço estourado, a rua era cheia de gente, tinha bar que era bem longe, se quebrasse alguma garrafa, o prejuízo era meu, uma vez o carrinho escangalhou, o patrão descontou o conserto do meu salário, disse que era pra eu aprender a cuidar do que era dos outros; tive que pagar em três prestação. O salário que era pequeno, no final do mês quase nem existia. Mas sempre era um emprego, tinha vez que o desconto era pequeno, ia dando pra levar. Aí meu cunhado disse “agora que tu tem emprego, tu tem que pagar aluguel do quarto”, aí eu resolvi sair de lá. Se era pra pagar aluguel eu não tinha que aturar o cunhado, a irmã, as criança.  Arranjei outro quarto pra morar. Um pouco mais longe e um pouco pior; tinha goteira e o banheiro era fora. Mas eu não tenho luxo não, mudei e fiquei no serviço, acordando mais cedo ainda, voltando mais tarde um pouco. Só que tinha dia que não dava pra chegar na hora de jeito nenhum, se a Brasil tava parada, não tinha jeito, levava mais de duas horas pra chegar.  Aí o patrão reclamava, ameaçava mandar embora, descontava o atraso. Um dia cheguei lá o patrão disse que eu não precisava mais vir, que tinha arranjado outra pessoa. Me pagou só metade do mês, e agora nem tem como pagar o aluguel. Vou acabar de novo na casa da minha irmã. Meu cunhado largou ela, mas ela ficou na casa. Ta trabalhando de faxineira e precisando de alguém que olhe os filho. Acho que ela me aceita de novo. E eu volto pro bico, que é até melhor que o emprego de merda que eu tinha arrumado.  


III

Brasileiras e Brasileiros no mercado de trabalho em 2015 (PNAD / 2015)


Mulheres
Homens
Rendimento Mensal Médio
R$1432
R$1965
Desocupação *
11,7
7,9
Pessoa de referência no domicílio **
40,5
59,5
Trabalho sem rendimento ***
8,5
4,5
* percentual da PEA; **percentual dos domicílios; ***percentual da população ocupada


A brasileira trabalhadeira. A brasileira trabalhadora, a brasileira sem trabalho, a brasileira sem renda, a brasileira e os filhos.

Minha avó trabalhava o dia inteiro; na casa, na roça, na casa de novo; sem domingo, sem feriado. Minha mãe casou e veio pra cidade; trabalhava o dia todo em casa cozinhando, limpando, costurando. Eram mulheres trabalhadeiras. Eu cresci na cidade, estudei enquanto pude, quer dizer, enquanto meu pai não abandonou minha mãe, que aí os filhos tiveram que se virar. Eu entregava as roupas que minha mãe lavava pra fora; entregava também os uniformes que ela costurava; uniformes de escola e de trabalho. Uma fábrica contratou ela. Eu ajudava, entregando; tinha 12 anos. Meus irmãos mais velhos arranjavam uns bicos,  e ganhavam algum. Quando ela morreu, eu tinha 18 anos e já trabalhava há dois anos numa papelaria, no balcão. Estudava de noite e consegui terminar o segundo grau. Depois comecei a trabalhar num escritório de advogado. Era secretária, mas de vez em quando tinha trabalho de limpeza também. Um cara lá, um dia, me imprensou na parede. Saí de lá e fiquei uns tempos desempregada. Foi bom que conheci o Antonio e a gente se casou. E eu parecia minha mãe, trabalhadeira em casa. Mas  o dinheiro era pouco e eu tive de começar a trabalhar fora de novo, depois que o Wesley nasceu. Deixava ele com a minha sogra, pegava cedo no trabalho e largava tarde. Já pegava ele dormindo.  Agora nesse trabalho, eu era ajudante de escritório, eu colocava tudo que era escrito dum certo jeito, eles diziam formato. Vinha de tudo pro computador, bilhete, ordem de serviço, carta, mudança de horário. Eu ajeitava e enviava pra lista. O chefe do andar me mandou embora. Nem sei porque, nem me disseram,  falaram de política da empresa, demitiram várias pessoas. Fui falar com o chefe, não o do andar, que me mandou embora, o outro que trabalhava mais perto, na sala 110. Não adiantou, ele falou que ele também ia ser mandado embora. Mandaram entregar a carteira no RH. Tem um dinheiro pra receber, mas nem dá pra nada. O Antônio vai ficar puto da vida e logo logo o dinheiro vai faltar de novo. Mas o bom é que eu vou poder ficar com o meu filho. Ele tá no segundo ano mas ainda não sabe ler. Só o nome dele e o da gente, mas escrito grande ele não lê. Tomara que o Antonio não perca o trabalho...