segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Casamento moderno


Ali já não rola mais nada há muito tempo. Ela é mais chegada a meninas e ele adora uma gandaia, passa mais tempo na mesa do bar do que em casa ou no trabalho. Porque é que então tiveram filhos, e logo dois? É que faz parte, assim como faz parte o ladrilho hidráulico com o qual decoraram o banheiro novo bem como a cozinha americana que mandaram construir. Segundo explicaram para os amigos, o objetivo da cozinha era acabar com fronteiras e limites, eliminar a separação entre o produzir e o consumir, abolir as diferenças entre o servir e o ser servido, ajudar na superação da divisão em classes e contribuir para a derrocada do machismo.

Entenda-se o background para tanta teoria: a mãe da moça é desembargadora. A magistrada é a alma do negócio, porque ali só ela mesmo é que tem grana. Tendo passado por cinco casamentos e outros tantos amasiamentos, levou a vida cuidando da carreira. Hoje, velha e doente, sente remorso da vida fragmentada que levou. Na ânsia de juntar os cacos, esbarrou na filha, ou melhor, naquilo que restou mais ou menos incólume do campo de batalha. Prometeu-lhe generoso apoio, comprou a casa e pagou a decoração. Em troca, mulher forte e voluntariosa, queria os netinhos. Quis e teve.

Os meninos agora andam por aí, na mão de babá, também paga, é claro, pela verba da velha. Mãe e pai chegam tarde em casa, estressados. É celular tocando o dia todo e o polegar chega a ficar doído de tanto digitar mensagem. Quando não é tela, é telinha e os olhos estão cansados de tanta leitura na diagonal, cabeça pesando do vazio dos compromissos furados, das desculpas esfarrapadas e das tentativas para tentar viabilizar fantasias e ilusões. Encontram os filhos na frente da televisão, babá e empregada esparramadas nas poltronas. À guisa de saudação, disparam logo uma saraivada de broncas e proibições e mandam os filhos para a cama para poder ir para a cama também. Mas, ali já não rola mais nada há muito tempo.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Milho e soja transgênicos: envene-se o planeta!


Recentemente fiz uma viagem ao interior do estado de Santa Catarina em uma região de plantações de soja, milho e trigo. Tive duas longas conversas com produtores locais. A primeira conversa foi com uma mulher cuja família tem criação de suínos, cultiva uva, produz vinho e, ainda de quebra, planta soja, trigo e milho. Como na estrada eu tinha observado placas da Syngenta, empresa que junto com a Monsanto é uma das multinacionais responsáveis pelo milho e soja transgênicos, fiz perguntas relativas a este tipo de cultivo.

“Este é o último ano que plantamos milho transgênico.” foi o que ela me disse. “Porque?” perguntei. “É uma destruição total, morrem plantas, morrem passarinhos, morrem insetos, abelhas e morre o homem também, aos poucos.” Segundo a produtora, está se chegando a uma lógica inversa e perversa em que, hoje, na cidade, se está menos sujeito à poluição do que no campo. O constante manuseio de agrotóxicos, muitas vezes jogados de avião, espalhados pelo vento pelos quatro cantos, contamina florestas, lençóis e cursos d’água, vilas e vilarejos.

Alguns dias depois tive ocasião de me encontrar com um criador de trutas. Para permitir uma criação mais saudável e mais econômica ele produz a sua própria ração. Ele reclamou da dificuldade de encontrar soja não transgênica para misturar na ração. Eu perguntei: “Porque você não usa soja transgênica?” Ele disse que a truta é muito sensível e não resiste à quantidade de venenos que vem junto. Ele também reclamou da falta de apoio dada ao pequeno produtor rural, que é quem pode fazer frente à monocultura com cultivos orgânicos. “Para o grande produtor dão tudo: trator, sementes, máquinas e defensivos. Ele tem acesso ao financiamento e é para ele que os bancos abrem as portas do crédito. O pequeno produtor que é quem pode ter o cultivo orgânico, não tem nenhum tipo de ajuda.”

A aparente vantagem do milho e da soja transgênicas é que eles são resistentes ao herbicida, permitindo a pulverização do agrotóxico mesmo após a semeadura. Isto, no entanto, é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo em que aparentemente possibilita uma melhor produtividade do cultivo, acaba levando, a médio e longo prazo, a um uso mais intensivo do herbicida. Além do mais, como nada é estático na natureza é de se esperar que com o uso mais intensivo do agrotóxico também as ervas daninhas desenvolvam resistência ao produto, surjam novas pragas desconhecidas, ou então que os insetos desenvolvam novos mecanismos de sobrevivência o que acaba levando a um círculo vicioso em que maior quantidade de defensivos é utilizada para combater espécies cada vez mais resistentes. Quem lucra evidentemente são as multinacionais que produzem estes venenos, entre elas a Syngenta e a Monsanto.

O argumento dados pelas multinacionais, por seus agentes e vendedores, é sempre o mesmo. Tudo isto são boatos da internet, nenhuma das acusações é verdadeira, nada disto tem base “científica”. O que eles não dizem é que a tal “base científica” é criada e financiada por eles. Os laboratórios onde se testam os produtos, as agências governamentais responsáveis pelo licenciamento, as instâncias políticas que tomam as decisões finais, em grande parte com sede nos EUA, são controladas pelos grandes conglomerados. Tem-se uma situação perversa, que na justiça levaria ao “impedimento”, em que pesquisadores que deveriam investigar os produtos, recebem bolsas, tem os seus projetos de pesquisa apoiados e os seus congressos financiados pelas empresas que fabricam estes produtos. Ou seja, eles não têm qualquer tipo de isenção para julgar os produtos. O livro de Marie-Monique Robin, “O mundo segundo a Monsanto” dá informações detalhadas de como isto se dá. Mostra inclusive que uma série de estudos científicos comprovando os danos da soja e do milho transgênicos foram “abafados”, seus autores foram aniquilados, perderam suas verbas, seus laboratórios e as revistas que publicaram os resultados perderam o aporte financeiro. Esta é a realidade sobre a tal “verdade científica”.

O que de fato é verdade, e não se necessita grande ciência para reconhecê-lo, é que o agronegócio movimenta hoje em dia uma quantidade imensa de recursos. Só no Brasil em 2012 ele foi responsável por mais de 22% do PIB (veja www.ecoagro.agr.br). Evidentemente que as empresas que atuam neste setor estão de olho nestes recursos. Quem produz veneno, quer vender veneno e cada vez vender mais veneno. Outro fato incontestável é que o mundo dos negócios hoje em dia é movido pela visão de curto prazo. O topo da esfera de decisões nas empresas é a assembléia de acionistas que se reúne uma vez por ano. É lá que as grandes decisões são tomadas e os diretores e executivos são escolhidos em função dos resultados do balanço patrimonial que também é anual. Junte-se tudo isto e temos a verdade clara e insofismável sem necessidade de muita ciência. Se o negócio é vender veneno que se venda veneno e cada vez mais veneno. Que se dane o resto. A longo prazo todos nós, homens, plantas e animais, estaremos mortos. Os números comprovam estes fatos. Em 2000 a venda de agrotóxicos no Brasil movimentou cerca de 2,5 bilhões de dólares, em 2005 já eram 4,2 bilhões e em 2010 eram 7,2 bilhões (dados da 52ª Reunião da Câmara Temática de Insumos Agropecuários – CTIA, veja www.agricultura.gov.br). Ou seja, em um espaço de 10 anos a venda de agrotóxicos no Brasil quase triplicou! Destes 7,2 bilhões em 2010, 35% foram para herbicidas, 30% para fungicidas e 30% para inseticidas. O aumento do consumo de herbicidas se deu, em parte, pelo aumento de cultivos transgênicos e alguns pesquisadores ainda têm a desfaçatez de afirmar que os cultivos transgênicos diminuem o uso de agrotóxicos [1]. Onde estão os resultados que comprovam, na prática, esta afirmação? O Brasil é conhecidamente um dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo e, ao mesmo tempo, um dos países onde houve maior difusão dos transgênicos. Estas duas questões, transgênicos e defensivos, andam juntas ou será que é necessário ser cego para poder ver? Não é a toa que as mesmas empresas que vendem as sementes dos transgênicos vendem também os defensivos. Os transgênicos foram criados justamente para permitir o uso mais indiscriminado dos herbicidas. Para ver isto não é necessário ter grande conhecimento científico.

Outra balela espalhada pelos vendilhões do templo da ciência é que os herbicidas utilizados nos cultivos transgênicos tem vida curta, ou seja, se degradam rapidamente e, portanto, não poluem o meio ambiente. O que, no entanto, significa exatamente o termo “degradar”? Significa que o produto original se decompõe em outros produtos que, no entanto, também podem causar danos ao meio ambiente. Além disso, mesmo que o tempo de atuação do produto original seja pequeno, os danos que ele pode causar podem ser grandes. Os danos de um produto não se limitam à sua vida útil, mas se refletem nas alterações introduzidas no meio ambiente, alterações estas que muitas vezes permanecem muito tempo após a degradação do produto [2].

Como é mostrado no livro de Marie-Monique Robin, mencionado acima, até mesmo o fato alegado pela Monsanto de que a soja transgênica é igual à soja convencional pode ser contestado. O que significa “igualdade”? A rigor nenhum grão é igual a outro. Quais os critérios segundo os quais se dá esta igualdade? No livro de Robin é mostrado que a soja transgênica tem algumas diferenças significativas em relação à soja tradicional e até hoje não se tem conhecimento exato de quais serão as consequências. Os alimentos são resultado de um processo de depuração que levou milhares de anos. Foi ao longo deste tempo que o homem aprendeu o que é útil e o que é prejudicial para a sua boa alimentação. Centenas e milhares de variáveis têm papel neste discernimento. E aí vêm alguns laboratórios, mexem na constituição do alimento e tentam empurrá-lo pela nossa goela abaixo?

Muitas vezes em ciência resultados obtidos são mais tarde refutados ou corrigidos. Qualquer pesquisador de boa fé sabe que resultados de pesquisa não são absolutos e estão sujeitos a uma série de condições extremamente restritivas, dependendo inclusive da quantidade de dinheiro investida. Em uma pesquisa prática a avaliação dos resultados baseia-se em algumas medições realizadas durante algum tempo. Nenhuma experiência pode abarcar todas as possíveis variáveis e durar todo o tempo, mesmo porque estes podem ser infinitos. Na área química e farmacêutica, a maioria das experiências é feitas com ratos. Apesar de alguns seres humanos se comportarem como ratos, a extensão dos resultados obtidos com ratos para seres humanos deve sempre ser feita com cuidado. Além disso, na avaliação dos resultados somente algumas características dos ratos são examinadas e isto só é feito durante algum tempo. Alterações de longo prazo frequentemente ficam fora da pesquisa. Ora, sabemos que as propriedades carcinogênicas, por exemplo, podem ser extremamente difusas e o potencial carcinogênico de determinada substância pode precisar muito tempo para ser reconhecido. Além disso, ainda existe muito desconhecimento sobre os fatores que provocam câncer. Tudo isto recomenda muita cautela na utilização de novos alimentos porque estes interferem intensa e diretamente na nossa saúde.

O grande argumento que costuma ser dado para refutar as idéias acima é que se isto é verdade para os herbicidas e os transgênicos, também é verdade para uma gama imensa de outros produtos. Com isto tenta-se jogar os opositores dos cultivos agrícolas transgênicos contra o progresso tecnológico. Trata-se de uma velha tática de refutação de uma tese por redução “ad absurdum” através da sua generalização forçada. O que acontece no caso da soja e do milho transgênicos e no uso indiscriminado de herbicidas é, no entanto, bastante diferente do que acontece para outras conquistas tecnológicas como, por exemplo, o celular. É exatamente daí que vem a gravidade da questão. Não é a toa que a área plantada com transgênicos na Europa é pequena, sendo que vários países proíbem estes cultivos (veja o artigo “20 anos de transgênicos: há o que comemorar?” de Flávia Londres em www.mst.org.br em 08/07/2014) [3]. Cabe lembrar que através da cadeia alimentar o uso de transgênicos e agrotóxicos mexe com plantas, homens, animais, o solo, a água e o ar, podendo afetar drasticamente e de forma irreversível a vida de milhões de pessoas [4].

Outro argumento dado pelos agentes e vendedores dos grandes laboratórios químicos que atuam na área agrícola é que os agrotóxicos fazem parte de um “pacote tecnológico” que aumentou enormemente a produtividade no campo e contribuiu para baratear os alimentos. Alardeia-se que a “revolução verde” criou condições para uma produção agrícola potencialmente capaz de acabar com a fome no mundo. A primeira resposta que pode ser dada a este argumento é que se a "revolução verde" tinha o “potencial” de acabar com a fome no mundo, a verdade é que ela não acabou! Isto porque na questão da fome existem muitas outras variáveis. Não basta baratear os alimentos. Há também que garantir emprego e renda, e aí a “revolução verde” atuou exatamente no sentido contrário. Ao impor uma tecnologia intensiva em capital, ela expulsou o homem do campo, inflando as cidades e gerando uma massa de desempregados que veio a se constituir no exército de reserva de mão de obra que tanto beneficiou a máquina industrial da qual fazem parte a Monsanto e a Syngenta. Além disso, o preço é tão somente uma das características do alimento. Não basta garantir o preço baixo da comida, é preciso também garantir a qualidade. Evidentemente qualidade melhor pode representar um preço maior do alimento, mas este é um sacrifício que pode valer a pena fazer. Afinal não ser trata de baixar o preço a qualquer custo, pois este pode ser alto demais. Recentes desenvolvimentos na área da avicultura mostram que esta visão não tem nada de utópico. Cada vez mais pessoas estão optando por ovos e galinhas “caipiras”, mesmo sendo um pouco mais caras, porque reconheceram os malefícios de aves e ovos fabricados na linha de montagem.

O uso amplo, geral e indiscriminado de herbicidas é uma total insanidade! Herbicidas de uso geral são “máquinas mortíferas” destinadas a eliminar a vida vegetal que é a responsável pela quase totalidade da nossa alimentação, vestuário e materiais para a nossa habitação. Vá lá que se use um herbicida pontualmente para eliminar certo arbusto que cresce em um muro de difícil acesso. Mesmo neste caso não se justifica a pulverização e sim o que cabe fazer é cortar o arbusto e pincelar o toco de forma que a utilização do veneno seja local e restrita.

O problema principal não é o produto ser transgênico, mas é a lógica perversa que está por trás de cultivos como a soja e o milho transgênico: fazer um organismo que resista à morte para assim poder matar melhor. Paga-se um preço caro para matar, até mesmo para matar uma barata. Se às vezes é necessário matar (uma barata), este tipo de ação deve, no entanto, ser reduzido ao mínimo [5]. O preço a pagar pela morte generalizada é a vida no nosso planeta.

Não se trata de ser contra as conquistas tecnológicas. Por exemplo, inseticidas de uso doméstico podem inibir a proliferação de formigas e baratas. Cabe, no entanto, fazer um uso cauteloso, restrito e seletivo destes venenos. Deve-se tentar evitar espalhar os venenos pela casa e pelo ar, evitar borrifar plantas e ambientes e restringir o uso de pulverizadores e “sprays”. Preferir sempre o uso de pincel ou seringa, priorizar o uso de iscas, de forma a limitar a disseminação do veneno. Pincelar os caminhos dos insetos, moldura dos armários e injetar nos buracos e tocas, de preferência tampando-os depois. Higiene e o armazenamento dos alimentos em locais bem fechados podem contribuir muito para afastar pragas e insetos.

Há que reconhecer as facilidades e o conforto que o progresso pode nos oferecer. Mas se existem vantagens, existem também desvantagens. Se existe a facilidade e o conforto, existe também o perigo e o risco. O que cabe é minimizar estes últimos e para isto é preciso fazer bom uso da tecnologia. Isto só pode ser dar através de um controle efetivo do uso desta tecnologia pela população. Deixar este controle por conta de empresas ou laboratórios que ganham com a venda destes produtos é abrir mão deste controle. Deixar tudo por conta do governo é desconhecer que este último está sujeito a pressões que frequentemente o tornam refém dos grandes conglomerados. Basta lembrar-se da recente derrubada do presidente Fernando Lugo no Paraguai provavelmente arquitetada pelo agronegócio e pelas empresas ligadas aos transgênicos, em particular a Monsanto e a Syngenta (veja “Monsanto golpea em Paraguay: Los muertos de Curuguyaty y el juicio políticio a Lugo” por Idílio Mendez Grimaldi em “Otramérica”, 23/06/2012). O que é importante é a população se mobilizar e se organizar, seja através da internet, associações de moradores, órgãos de defesa do consumidor, sindicatos rurais, movimentos no campo, etc. para que seja feito um uso adequando da tecnologia, gerando benefícios para a maioria da população.


Notas:

[1] Com a entrada da soja transgênica o consumo de glifosato (Roundup) se elevou em mais de 150%. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) determinou o aumento de 50 vezes do Limite Máximo Residual (LMR) do glifosato na soja transgênica, que passou 0,2 mg/kg para 10 mg/kg. Isto reforça a tese de que o consumo de herbicidas no plantio da soja transgênica aumentou (veja entrevista de Fran Paula no artigo Agronegócio faz o brasileiro consumir 5,2 litros de agrotóxicos por ano, no jornal Brasil de Fato, de 15 a 21 de janeiro de 2015).

[2] O herbicida pode continuar presente em alimentos num período de até dois anos após o contato com o produto. Em solos pode estar presente por mais de três anos (veja entrevista de Fran Paula).

[3] O glifosato foi banido de países com a Noruega, Suécia e Dinamarca (veja entrevista de Fran Paula).

[4] Na entrevista de Fran Paula no jornal Brasil de Fato (veja referência acima) menciona-se entre outras coisas que o glifosato pode provocar inflamações gástricas, danos genéticos, transtornos reprodutivos, tendo-se verificado inclusive aumento da frequência de tumores hepáticos e de câncer de tiróide.

[5] No caso da barata, por exemplo, é fundamental limpeza, guardar os alimentos em lugares fechados, evitar frestas e buracos, manter os esgotos tampados, etc.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Pôr do sol ou morte, dor e amor

Este poema foi escrito em maio de 1969 e traz nas suas (muitas) linhas um pouco da ingenuidade e da exuberância da juventude. Gosto dele, mesmo assim.

Sentado,
Contemplo o pôr do sol,
A transfiguração das cores,
O desmanchar das nuances,
A composição dos quadros,
Num fluido escoar de tonalidades,
Num fluxo continuo, equilibrado, harmonioso.
Num tempo,
Curto!

Uma dor pungente me avassala,
E quase me leva às raias da loucura.
Como o escoar das águas entre as mãos,
Aqueles instantes tão belos,
Me escapam!

Sinto e vejo,
E, no entanto, não consigo
Possuir, nem ser possuído,
Unir-me, fundir-me,
Em suma, amar!

Amar de uma maneira total,
Perfeita e infinita,
Aqueles instantes tão belos,
Aquele presente tão escorregadio.
E só quando este flui no passado,
Assim como o amarelo flui no alaranjado,
E o alaranjado no vermelho,
Algo me toca,
Nem bom, nem mau: a dor!

A dor,
Saudade
De um infinitésimo que passou.

A dor,
Fração,
Muito pequena, eu sei,
Deste amor total,
Perfeito e infinito.

A dor,
Consolo,
Que ao me tocar,
Destrói,
Ao menos por algum tempo,
O monstro glacial:
A insensibilidade!

Quisera,
Caminhar eternamente,
Na direção do pôr do sol,
Para que tivesse,
Presente em vez de passado,
Amor em vez de saudade.

Mas sei,
Mesmo se possível,
O eterno presente
A rotina,
Trariam, de volta,
O monstro glacial:
A insensibilidade!

Só restaria então,
A fusão total,
E louca,
Num redemoinho,
Numa mistura de moléculas,
Profusa,
Infusa,
E rodopiante,
Com as cores,
O desmanchar de nuances,
O fluido escoar de tonalidades.

Só assim atingiria,
O amor total,
Perfeito,
E infinito.

Triste opção,
Triste sina.
Entre a morte por insensibilidade,
E a morte por amor total.
Entre o nada,
E a loucura.
Entre o vácuo,
E o delírio.
A dor,
Fração do amor,
Pequena, eu sei.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Reflexões na praia de Ipanema



Estava eu passeando pela praia de Ipanema quando me deparei com um grupo constituído por três garotas adolescentes e um moreno forte que devia ser o personal trainer delas. Faziam ginástica num daqueles deques ao longo do calçadão. Eu devia estar sem ter o que fazer, ou então, as meninas eram, de fato, uma gracinha, porque fiquei observando a cena durante bastante tempo.

Além dos quatro havia um personagem que ocupava o centro do espetáculo: uma balança, dessas portáteis, digitais, elegantemente slim, quase uma folha de papel. Era um tal de subir e descer da balança, acaloradas discussões em torno de diferenças entre uma e outra pesagem, comparações com a pesagem do dia anterior e da semana passada. Quase tudo devia estar girando em torno de frações de quilo, bem abaixo da precisão da balança, foi o que eu pensei com sarcasmo.

Não sei se foi alguma informação que as meninas deram ou se foi algum fato novo, só sei que, lentamente a discussão foi tomando novos rumos e o foco foi se deslocando do aferido para o aferidor. Era argumento para lá, argumento para cá, via-se claramente que o moreno estava começando a ficar preocupado. Desconcertado, ele tentava se justificar, elas fazendo pouco caso do instrumento dele que, de fato, podia ser chinês, mas, era novo, comprado em camelô de confiança.

Estavam naquele bate-boca, elas atacando, ele na defensiva, quando subitamente da noite fez-se dia. A balança devia estar mal posicionada, algum grão de areia devia estar prejudicando a precisão da máquina, ou então foi algum ajuste que o rapaz deu, a verdade é que, depois de uma mexida, o peso das meninas baixou. Agora era tudo só felicidade, as meninas sorrindo e o forçudo nitidamente aliviado, fazendo graça.

Eu pensei com meus botões: quanto desperdício! Não que eu quisesse que a preocupação das meninas fosse outra, que elas se ocupassem com o destino da humanidade, o mundo aí se esvaindo em crises. Não que eu esperasse que a energia delas, gasta com a balança, com os exercícios de ginástica, fosse empregada de forma mais útil. Não! Isto seria muita ingenuidade, pior, seria muita ignorância!

Eu pensei em sexo mesmo! As meninas cavando a sua própria sepultura com as preocupações de uma beleza que esvanece, rendendo-se à tirania da balança, da academia, do personal trainer, da dieta, submetendo-se aos preconceitos de uma sociedade para quem mulher é tão somente forma, o slim da balança regendo a anorexia, afinando a silhueta.

Depois, em casa, eu refleti melhor: ignorância mesmo era eu achar que estas coisas se separam, a questão social da questão sexual. O mercado que paga pouco para uma força de trabalho que abunda, porque a automatização comandada pelos donos do poder assim o fez, é o mesmo mercado que define o slim da silhueta. A mídia que comenta em tom sério e circunspecto a emissão de papéis fantasmas por empresas fantasmas sem qualquer respaldo no real, que alardeia o lado podre de tudo, divulga morte e crime fazendo do mundo um circo de horrores é a mesma mídia que cria o escape, a fuga para um mundo fictício e virtual, de beldades plásticas, heróis movidos a pó. É neste mundo que se vende o esvanecimento da mulher no slim da balança, claro, só depois de empanturrá-la nos fast-foods da vida!

Cláudio Thomas Bornstein