Eu vivia feliz até que um dia apareceu uma banda na casa do lado. Não, até que a música era boa. Quanto aos ensaios, não perturbavam demais, pois o som da música não era muito alto. Festas eles davam frequentemente, em média uma por semana, mas dava para aguentar. Mas o pior mesmo eram os papos, altos papos até altas horas da madrugada. Eles viravam a noite, varavam o dia na conversa. A certa altura, dependendo das cervejas viradas ou varadas, a conversa reduzia-se tão somente a interjeições e depois só mesmo pontos de exclamação. O problema era a altura das exclamações e bem debaixo da nossa janela. Ninguém conseguia mais dormir. Eu até que não, bato na cama e durmo, mas a coitada da minha mulher não pregava mais o olho. Tentou-se de tudo, tampão de orelha, puxar os cobertores por cima da cabeça, fechar vidros e venezianas, mudar de quarto, tentou-se até isolamento acústico. Nada adiantava.
Um dia tomei coragem e fui lá procurar o Miltão, o chefe da banda. Cheguei todo sorrisos, comecei pedindo desculpa, ficava até sem jeito de reclamar da conversa, era natural, pessoal jovem, animado, mas será que não dava para procurar outro lugar? Tinha que ser debaixo da nossa janela? Miltão, muito educado, prometeu providências, aquilo não ia mais acontecer e, de fato, por duas semanas tivemos paz. Depois tudo recomeçou.
Foi aí que eu bolei o plano. Procurei o Miltão outra vez e gaguejei nervoso. Eu estava preocupado. Não, não era o sono, nem o barulho, muito menos a conversa. Mas minha mulher tinha começado a rogar praga. Dizia que ia fazer mandinga. Quando eu chegava perto, desconversava, não queria dizer o que era. Uma vez eu tinha ouvido a palavra avião ou desastre, não me lembrava bem. Que tomassem cuidado. Se acontecesse alguma coisa, como é que a gente ia ficar? E ajuntei: “Eu aqui estou fazendo a minha parte. Comprei vitamina, a levei ao médico e fiz exame, porque se ela viva é capaz do maior estrago, imagina ela morta! Lá junto da turma da pesada, o que é que eles não são capazes de aprontar?”. Claro, amo minha mulher e quero que ela dure. O Miltão era boa pessoa, mas sabe-se lá?
Passaram mais umas semanas na casa e depois se mudaram. Um dia encontrei o Miltão no ônibus e perguntei: “Como é, e a banda?”. “Fomos para Jacarepaguá” foi a resposta. “Tão longe?”. E o Miltão, com ar misterioso: “Olha, problemas com o aquém, tudo bem, que a gente está acostumado, mas o além....”.
Setembro de 2009
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Assinar:
Comentários (Atom)