quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Crime sem castigo



“E aí, você se recuperou do acidente?” Ela tinha vindo servir a comida e eu perguntara por perguntar, para ser gentil. Selma devia ter uns 25 anos, mas já tinha filha de 8. Nem feia, nem bonita, cabelos crespos amarrados em coque por trás, chamava a atenção pelo jeito educado, comedido, recatado com o qual se dirigia aos fregueses. Deviam ter lhe ensinado em alguma destas escolas de gastronomia, ou então, tinha sido o patrão mesmo que comentara: “Freguês não quer ser importunado com detalhes da sua vida pessoal.”
Eu soubera por alto do acidente, mas ela agora contava os detalhes. Vinham, ela e a filha, juntas na moto, quando, no topo da ladeira, notou que estava sem freio. A moto embalando velocidade, a filha agarrada na garupa, a velocidade aumentando, ela apavorada, mas, o que fazer? Só quem segurava a moto era o vento, mas vento é ar e moto é ferro e o que é que pode o ar contra o ferro ainda mais sob a ação da gravidade?
Selma não chegou a ter estes pensamentos porque a gravidade não passava pela cabeça dela, mas pensou em Deus que passa por todo lugar. E lá ia a moto, embalando velocidade, o peso do ferro, a gravidade, o vento e o pensamento em Deus. A filha agarrada na garupa, a força do abraço deixando claro o medo e o pavor. A esperança, ou seja, a realidade com a qual Selma esperava contar, era conseguir chegar lá embaixo, lá onde a gravidade acaba e se torna negativa. É que depois de descida costuma vir subida, e a esperança era chegarem vivas, ela e a filha, pegar a subida e ir parando aos poucos.
O que ela não contava era com a curva que antecedia a subida. E foi a curva, e não a gravidade negativa ou o vento, que as segurou. Infelizmente a curva não teve a delicadeza do vento ou da gravidade negativa. Se a gravidade tem a mão da física ou da metafísica, dependendo das convicções políticas, se o vento tem mão de brisa, carícias de aragem, a curva tinha garras de pedra. As unhas cortantes do barranco lanharam pele, rosto, pernas e mãos, mas das garras da morte escaparam as duas. Foram parar no hospital, ficaram lá um tempo, mas fora fraturas, hematomas e arranhões, não houve nada.
“Mas você não notou que estava sem freio? Não surgiu uma oportunidade para testar o freio antes da ladeira? Além disso, a moto tem dois freios, um na roda da frente e outro na roda de trás. Pifaram os dois? Ao mesmo tempo?” perguntei, depois que Selma terminou o relato.
“É que eu moro no topo da ladeira e a moto fica estacionada na calçada.” E Selma complementou: “Depois do acidente levei a moto no mecânico e ele confirmou: os cabos dos freios, tanto o da frente como o de trás, foram cortados. E foi alicate, dos grandes.”
“Cortados?” perguntei num eco. “Como é possível?”
“A minha moto fica na rua. Alguém passou e cortou os cabos. Só não morremos, eu e a minha filha, porque Deus não quis. Não era chegada a hora.”
Selma voltou para a cozinha encerrando a conversa. Fiquei eu e os meus pensamentos. Não dava para acreditar que aquilo fosse obra do acaso, que algum desconhecido tivesse saído por aí cortando cabo de moto. Dinheiro não podia explicar o acontecido, porque ali ninguém tinha nada. Só podia ser crime passional, possivelmente feito por algum ex-marido ou ex-namorado. Podia até mesmo ser o pai da criança, o que explicava porque Selma teimava em não querer ver. Ela não queria mexer em ferida aberta, não queria envolver a criança em mais uma briga. Talvez ela até se sentisse culpada, sentisse tudo aquilo como castigo. Talvez o criminoso, o verdadeiro, tivesse planejado tudo contando com esta brecha. Era por esta brecha que ele se esgueirava e conseguia escapar. Ficava lá o crime sem castigo.

domingo, 19 de janeiro de 2020

O anotador




            O rio fazia uma curva generosa antes de mergulhar por baixo da ponte, deixando a descoberto na margem interna, mais poupada pela correnteza, uma praia de areia grossa e seixos rolados. Generosos eram também os decotes e os cavados dos biquínis das meninas que iam ali se banhar, aproveitar o ouro das areias para se dourar. Deixavam a descoberto a carne morena e as curvas arredondadas dos quadris, que rolavam no caminhar suave sobre os seixos.
            Eu o encontrei pela primeira vez na estrada a uns trinta metros da prainha. Segurava um lápis e um bloco de anotações na mão. Muito magro, camisa de manga comprida abotoada nos punhos e no pescoço, trazia na cabeça um imenso chapéu de feltro escuro de abas largas. Calçava botas e vestia calças compridas gastas. Devia ter uns quarenta anos. Debaixo do chapéu, um rosto comprido, face encovada e nariz afilado, me pareceram vagamente conhecidos, mas isto não quer dizer nada, porque ali, fora os turistas, veranistas e visitantes, todo mundo pertence a uma única família, vinda de terras distantes.
            Estacionei o carro e o cumprimentei, não sem um certo espanto. O que é que, por aquelas bandas, fazia um anotador? Era para fiscalizar o rebolado dos biquínis, era para deixar registrado os avanços e recuos das curvas do rio ou era para anotar as cavas da estrada?
            Ele retribuiu o cumprimento com uma cortesia talvez um pouco excessiva e, quando lhe perguntei, talvez por medo de ser incluído nas anotações, se o meu carro estava atrapalhando, ele se apressou a me assegurar pelo contrário. Qual era exatamente o contrário ao qual ele se referia eu não perguntei, por consideração.
            Eu o vi ainda algumas vezes. Sempre na estradinha, sempre de lápis e caderno de anotações na mão, sempre perto da prainha, onde no verão os veranistas vêm apagar o fogo do corpo nas águas geladas.
            De onde viria o estranho personagem? O que é que estava fazendo ali? Só vim a descobrir quando uma manhã chuvosa me levou para bem longe do rio e das areias douradas. Eu tinha decidido fazer umas compras em uma vendinha e estacionei o carro perto de um campo de futebol. Para andar até a vendinha passava-se por uma casa pequena escondida atrás de uma sebe alta. Escutei a saudação, me virei, mas não vi ninguém. Foi quando surgiu no portão da casa a figura magra de chapéu de feltro grande. Vestia a mesma calça, as mesmas botas e a mesma camisa. Só não trazia o lápis e o caderno de anotações. Levou a mão ao chapéu e me saudou com um movimento da cabeça.
            Fiz as minhas compras e, na volta, passei na casa novamente. Me virei, mas a sebe alta escondia casa e morador. Só não me escondia, porque escutei nitidamente o cumprimento de despedida. Do seu posto, ele via tudo, espreitava olhando pelos espaços vazios das touceiras.