segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Capitães, motim e naufrágio
L. já assumiu o posto com o barco fazendo água. Mas o porto estava longe e L. não queria correr risco. Tivesse ele convocado toda a marujada, passageiros inclusive, para meter a mão na massa, provavelmente tinham dado um jeito, ao menos, por um tempo. Mas L. tinha aprendido na sofrida luta pelo pão de cada dia que esse negócio de meter a mão na massa, convocar a marujada e contar com a ajuda dos passageiros nem sempre dá certo. Ficou com medo e achou melhor não arriscar. Decidiu-se pelo remendo. Remenda daqui, remenda dacolá, onde a fresta era maior, entrava mais água, ele mandava pregar algumas tábuas de reforço, enfiava estopa embebida em piche nas frestas menores, acionava as bombas, fechava comportas, e assim ia levando. O barco pesado, encharcado de água, ia seguindo devagar.
Só que a água não diminuía e a tripulação estava ficando cansada do trabalho dos remendos. O rádio estava com defeito e as bombas, funcionando dia e noite, começavam a falhar. Criou-se um clima de motim. Preparava-se o butim. Imprimiram-se folhas, empapelaram-se globos e os estados e estadões mobilizaram-se.
Foi aí que surgiu T. Sempre lépido e ligeiro, barba bem feita, perfumadíssimo. Lenço de cambraia branca no bolsinho do paletó prometeu dar um jeito na situação. Começaria colocando ordem na marujada, botando aquela corja de vagabundos para trabalhar. Além disso, com ele na direção, lei e ordem restabelecida, perfume e lenço de cambraia esvoaçando a bombordo e a estibordo, restabelecer-se-ia a confiança no comando. Mandaria concertar o rádio, enviaria mensagens e certamente apareceria ajuda. Podia vir do céu, podia vir do mar.
Armaram uma cilada, L. foi para cela escura e T. assumiu o comando. Agora ecoava música pelo convés e o perfume espalhava-se pelos salões. Concertou-se o rádio e mensagens foram mandadas pelo éter. Não sei dizer ao certo qual foi o barato, se foi éter ou clorofórmio, eu sei que naquela mesma noite, não muito longe dali, encharcados em rum e muito whisky, piratas passavam numa nau. Achando que ia ser servicinho fácil, do tipo que eles gostavam de fazer, o barco já estava mesmo indo para o fundo, iam somente dar uma ajudazinha, tiro de misericórdia, abordaram o barco. Prenderam todos no porão, levaram o rádio, os mantimentos e a bagagem dos passageiros.
T. é claro, se salvou. Percebendo para onde estava soprando o vento, adiantou-se, molho de chaves na mão. Ia abrindo as portas, mostrando o caminho. Em troca, levaram-no junto arrumaram-lhe um trabalho, nem difícil nem fácil demais. Deixavam que os acompanhasse mas não o perdiam de vista nem um minuto.
O que aconteceu com barco, ao certo, eu não sei. Uns, mais pessimistas, dizem que foi ao fundo. Sem comando, sem comandante, tripulação presa no porão, ninguém para ligar as bombas, a água foi assumindo o controle da situação e água tudo virou. Outros, mais otimistas, dizem que o navio, ou o que restava dele, acabou encalhando numa praia. Passageiros e tripulação livram-se da prisão, desembarcaram na ilha e fundaram uma nova civilização. Alguns poucos, mais otimistas ainda, contam que os passageiros e a tripulação, sem comando e comandante, finalmente compreenderam o que havia para fazer. Botaram a mão na massa, concertaram o navio e andam por aí, singrando os mares.
sábado, 16 de julho de 2016
Ele não era grande coisa...
Ele não era grande coisa. Suas tentativas desajeitadas de aproximação, seus insistentes cortejos e seus freqüentes assédios, me cansavam.
Eu, na verdade, não estou nem aí para estas coisas. Prefiro ficar preguiçosamente deitada por entre cobertas e travesseiros, deixar o sol banhar minha pele e meus pelos, comer, beber, dormir. De vez em quando, curto novidades, pesquisar novos cantos e recantos, olhar a mata, o jardim, sua vida e seus insetos, espreitar as aves gorjeando nas ramagens. Sinto o mundo dentro de mim, pertenço a tudo e a todos e este negócio de acasalamento me limita e me cerceia. A vida é bela, bela demais para a estreiteza do pertencer e do ser pertencido.
Por outro lado, se é verdade que ele não valia grande coisa, também é verdade que, na minha vida, jamais tive quem valesse mais. Se não era muito o que se passava entre nós, já era muito, o pouco que se passava. Não era grande a comunicação, mas bastava uma troca de olhares, a cumplicidade dos subentendidos, o decifrar conjunto do código de cheiros e ruídos que permeia uma casa, para preencher o vazio. Bastava o ficar junto, lado a lado, para espantar a solidão.
Quando ele ainda estava aí eu não reconhecia o seu valor. Agora que ele falta, sinto a sua falta. É assim a vida. É de buracos que é feita a peneira.
sábado, 25 de junho de 2016
Apesar de...
Apesar do PT ter cavado a sua própria sepultura, fortalecendo os setores mais retrógrados da economia brasileira, multinacionais, bancos, financeiras e a mídia oligopolista que estão claramente atrás das maquinações que acabaram corroendo a sua base, apesar de tudo isto, acho que a hora não é de vingança.
Apesar do modelo exportador de commodities que nos fez retroceder duzentos anos, apesar do ministro Levi e do seu ajuste fiscal, da ministra Kátia Abreu e sua defesa do latifúndio e do agronegócio, apesar disto, acho que a hora não é de alimentar o ódio contra o PT.
Apesar da lei antiterrorismo, da criação da Policia Federal, da delação premiada e demais ferramentas de um estado onde policias e juízes dão as cartas; apesar da diminuição da participação da Petrobrás na exploração do pré-sal, projeto aprovado durante a última gestão do PT e que Dilma não conseguiu barrar; apesar da flexibilização dos direitos trabalhistas, de sucessivas reformas da previdência para prejuízo dos assalariados, apesar de tudo isto, acho que a hora não é de retroceder.
Apesar da corrupção generalizada criada pelos arquitetos do conformismo para conquistar um apoio político que teria que vir do campo e das ruas e não de acordos e tramóias; apesar do aval e do endosso do toma lá dá cá, da escolha de parceiros duvidosos entre os quais o atual presidente Temer; apesar da opção pelo poder a qualquer custo, ao invés do reconhecimento do custo do poder; apesar da escolha de parcerias ao invés de alianças; apesar do conluio com um congresso pra lá de corrupto e da opção de corrompê-lo ainda mais; apesar de tudo isto, acho que não cabe encerar-se tão somente em crítica e reprovação.
O que vem por aí, o que se prepara atrás de portas fechadas onde não penetra a escuta telefônica, ou, se penetra, não há quem a escute ou a faça escutar; o que se combina em reuniões que não vazam, simplesmente porque não tem onde vazar, porque os juízes que poderiam decretar o seu vazamento, já vazaram, isto é, já foram removidos; o que a elite de banqueiros e financistas que hoje comanda o país e seu séquito de togados, co-optados por favores, carreira, vaidade ou dinheiro mesmo, prepara para este país é para botar tudo o que houve, no chinelo. É bom lembrar que não se combate o ruim com o pior!
quinta-feira, 10 de março de 2016
Simpatia e amor
Não me lembro do nome dele. Perguntei, ele disse, mas, sinceramente não me lembro. Ele tinha ido lá em casa para tomar as medidas de um boxe de chuveiro. Era um senhor de meia idade, veio de metrô e reclamou muito da caminhada que tivera que dar desde a estação e que eu dissera que eram só cinco minutos. “Cinco minutos, uma ova! Andei quase quinze.” Depois viemos a descobrir que ele fizera um caminho muito mais complicado que o normal.
Simpatizei com ele mesmo assim. E porque eu simpatizei, perguntei se depois de aprovado o orçamento, pronto o boxe, ele viria instalá-lo. Baixou a cabeça meio embaraçado, disse que não e depois deu a explicação. Ia para a faca nos próximos dias. Constatara-se um tumor na próstata, era maligno, fizera um primeiro tratamento sem sucesso, e agora era pra valer.
Em nenhum momento falou da morte. Aparentemente era algo que não o preocupava. A vida é assim, altos e baixos e a idade não perdoa.
Em compensação falou muito da vida amorosa. É o que mais o preocupava. O médico tinha dito que não era para se apavorar, mas nunca mais ia ser a mesma coisa. Tinha uns remedinhos para estimular a potência, mas mesmo assim a operação deixava suas sequelas.
Simpatizei com ele mais ainda. Pela confiança de me fazer seu confidente, depois de uns cinco minutos de conversa a toa. Pela abertura e pela descontração. Acho que quem fala das coisas, principalmente as mais íntimas, as mais dolorosas, já tem meio caminho andado.
Simpatizei também pelo amor. Ele não era um aventureiro para quem o sexo permitia a conquista de troféus. Não, era ele e a velha só, filhos já criados. Bem que a cirurgia podia dar a desculpa para o descanso do guerreiro. Mas não! Ele não queria a desculpa. Ele queria era avançar, com a quilha sulcar os mares e fincar o firme e rijo mastro não na terra nova e desconhecida, mas na velha terra mesmo, a cansada, que também merecia uma conquista. Conquista muito mais difícil porque era a do dia a dia, sem luzes, nem brilhos.
Cláudio Thomás Bornstein
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