quarta-feira, 30 de julho de 2025

Sobre os limites da passividade

 

Fui comprar ingressos para um filme em um destes sites que existem na internet. Ao entrar, fui soterrado por uma avalanche de publicidade, blockbusters na frente. Tentavam me empurrar todo tipo de filme, menos aquele que eu queria ver. Consegui, através de um mecanismo de busca, encontrar o que eu queria, mas, a cada momento, surgiam novos obstáculos. Parecia que eu estava em um daqueles joguinhos eletrônicos: quanto mais dificuldades você supera, mais dificuldades surgem.

 

Havia um monte de formalidades a cumprir, um monte de exigências a serem satisfeitas. Queriam o meu cadastro, queriam o número do meu cartão de crédito, queriam o meu CPF e o número do meu documento de identidade. Mas, e se eu não quiser fazer o cadastro, se eu não tiver cartão de crédito? Sou obrigado a fornecer o meu CPF? E se eu não quiser revelar a minha identidade? Não posso ficar anônimo? Pensei: antigamente eu comprava ingresso no caixa do cinema sem fornecer informação nenhuma. Porque isto mudou? A tecnologia não é para melhorar a qualidade de vida? Não é para diminuir a burocracia?

 

Consegui escapar de algumas exigências. Cadastro eu não fiz, número de cartão de crédito eu não dei e optei por PIX. Mas, ao fazer o PIX me deram tão somente alguns minutos para fazer a transação. Para que esta pressa toda, porque este stress adicional? Eu sei que eles não podem manter a reserva dos assentos por muito tempo. Não podem ou não querem? Eu, por outro lado, não quero o stress da pressa. Eu posso, mas não quero.

 

O que dizem é que a automação visa baixar os custos, tudo é feito para minimizar o preço do serviço. Mas, e se eu não me importar de pagar um pouco mais em troca de menos stress?

 

Dizem que tudo é sempre feito para o meu bem. Mas, porque eu não posso escolher e decidir o que é bom para mim? Porque é que eu sempre tenho que deixar esta decisão para eles?

 

Ah, esqueci. Antes de fazer o pagamento, havia que ir para a pipoca. Caramba, além de toda esta via Crúcis, querem me obrigar a consumir pipoca? E se eu não gostar, ou não puder comer pipoca? Felizmente havia um botão de Pular, mas estava escondido no canto inferior direito da tela.

 

Consegui escolher os assentos e consegui fazer o pagamento. Mas faltava o principal: os ingressos. Imprimir os ingressos no site, nem pensar. Imagino que a razão alegada é a da segurança. Sempre tudo é feito visando a minha segurança. Mas segurança nunca é aquilo que eu julgo seguro para mim. Segurança é sempre aquilo que eles acham que é seguro. Peraí! É segurança para mim, ou é segurança para eles? E se forem eles a impedir a minha segurança, como é que a coisa fica?

 

Acabei descobrindo que, no meu caso, os ingressos seriam mandados por e-mail. Quer dizer, os ingressos não, o que seria mandado seriam os vouchers dos ingressos. Ou seja, se uma das vantagens do procedimento era evitar a fila do caixa, tinha sido tudo em vão. Mais este sapo que tive que engolir.

 

Comentei as minhas desventuras com um amigo. Ele me olhou espantado: Claudio, em que mundo você vive? As coisas hoje em dia são assim mesmo. É normal.

 

Pensei com meus botões, pensei, não disse, porque eu não quero perder o amigo. Normal é aquilo que a gente torna normal através da aceitação e da passividade. Me lembrei dos versos de Brecht Aos que hão de vir depois de nós:

 

...

Nos embates da luta de classe,

Trocamos de país mais do que de sapatos,

Desesperados, por verificar que somente havia injustiça,

E não revolta.

...

 

É, desde a época do Brecht muita coisa mudou. Mas isto continua exatamente igual!

 

domingo, 20 de julho de 2025

Brasileiro

 

 

Ao fazer a manutenção anual da minha máquina de lavar, quebrei o filtro da válvula de entrada d’água. É uma pecinha pequena, toda de plástico, aproximadamente dois centímetros de diâmetro por dois de profundidade. Peça pequena, não se dá nada por ela, mas é de fundamental importância, porque sem ela a válvula estraga e, sem a válvula, a máquina não funciona.

 

Procurei em vão nos bazares e em lojas de material de construção das redondezas. Só no centro, só em autorizada, foi a informação que me deram.

 

Gozado, pensei, é uma peça ruim de tirar, ruim de limpar e que deve quebrar frequentemente, ou será que sou só eu que limpo o filtro da máquina de lavar? Será que todos os outros chamam o técnico? Será que só eu sou desajeitado?

 

Não tendo encontrado a peça nas redondezas, resolvi procurar na internet. Encontrei algo parecido, mas havia que importar da China e levava dois meses para chegar.

 

Com as alternativas se esgotando resolvi ir ao centro. Na autorizada eu não encontrei, mas me indicaram uma loja especializada em peças de reposição de máquina de lavar. Lá tinha, mas não vendiam o filtro avulso. Somente com a válvula completa e esta custava quarenta reais. Ou seja, uma pecinha que podia custar talvez dois reais ia-me custar quarenta e eu ainda ia ter que retirar o filtro da dentro da válvula, com o risco de danificá-lo novamente, ou então instalar a válvula completa, o que eu não sei se seria capaz de fazer.

 

Fiz cara de missa de sétimo dia, e o vendedor, olhando o filtro velho que estava na minha mão, perguntou: Para que é que o senhor quer filtro novo, se o seu está bom?

 

Acredita em mim. Este aí está quebrado. É que eu encaixei a parte quebrada tão perfeitamente que não se vê. Mas que está quebrado, está, foi o que eu respondi.

 

O vendedor insistiu: Este aí está perfeito. Pode botar no lugar que vai funcionar. Eu garanto.

 

Ele insistiu, eu insisti: Este aí está quebrado. Vai por mim. Vai dar problema. Claro que eu podia colar a parte quebrada, mas colado é remendado, é gatilho, e a minha prática diz que este tipo de solução não funciona por muito tempo.  

 

Pedi para ver a válvula nova, a completa. Ele trouxe. Virei e revirei a peça, de frente, de trás e de todos os lados. Demoradamente. Tristemente. Era uma peça grande, de uns dez centímetros de comprimento, dez de largura e dez de profundidade. Tudo isto eu ia ter que levar, por causa de uns dois centímetros de plástico. Minha cara refletia meu pensamento. Meu pensamento refletia meu coração. Coração acabrunhado.

 

Tanto fiz que o vendedor se apiedou de mim: peraí. E sumiu nos fundos da loja. Demorou bastante, mas acabou ressurgindo, vitorioso, com o filtro de plástico na mão.

 

Agradeci reiteradamente e perguntei: quanto é que eu lhe devo?

 

Não é nada não. Voltei a agradecer e saí da loja exultante.

 

Pensei. Eu que sou filho de pais estrangeiros, já andei pelo mundo todo, passei muitos anos no exterior e me considero cidadão do mundo, sou é mesmo brasileiro. A nacionalidade não é falar a língua. É fácil aprender uma outra língua. A nacionalidade não é ter passaporte. É fácil conseguir um passaporte. A nacionalidade é conseguir mover-se dentro do país. Mover-se é isto, é saber resolver os pequenos problemas do dia a dia, é sentir-se à vontade dentro da cultura, dentro do jeito de ser de cada nação. Nacionalidade é identidade cultural.