segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Minas e o queijo: ciência e fé
Minha mulher é mineira, quer dizer, ela nasceu mesmo foi no Rio de Janeiro, mas a mãe dela é mineira, legítima de muitas gerações. Até mesmo eu, que nem muito brasileiro sou, me considero mineiro, por casamento. Une-nos a nós e a Minas Gerais o mesmo amor, muito mais importante que o local do nascimento: o amor ao queijo.
Lá em casa o queijo ocupa um lugar central. Não só, como seria óbvio, na geladeira, mas em todo lugar existe queijo empilhado. Empilhado? Sim, pois eu me esqueci de dizer o principal: queijo, principalmente o queijo Minas, precisa, para adquirir o sabor e a textura característica, ser curado. E a cura do queijo é uma ciência que flui por meandros tão intrincados que, nos seus limites, atinge até mesmo a fé. Como explicar de outra maneira os véus, paninhos, campânulas e redomas a cobrir e manter afastado dos olhares indiscretos a recata e alva nudez da maciez úmida da matéria? Como explicar aquele incidente, ocorrido na véspera de um casamento da família, em que eu, ao retirar o meu terno para arejar, encontrei um queijo Minas no bolso interno do meu paletó? Questionada, minha mulher respondeu com ar de santa: “Poxa, você nunca usa o terno. Além disso, lá no escurinho do armário, a temperatura e umidade são ideais!”
Real ou ideal, isto daria uma discussão para muito além da física ou metafísica. Bem físico, no entanto, foi o encontro na cama, no escurinho do meu quarto, na hora de dormir. Debaixo do meu travesseiro jazia um queijo na placidez inocente da bem-aventurança! Desta vez nem mesmo a santidade pode ser evocada. Minha mulher fez ar de surpresa e, com uma ponta de culpa e arrependimento disse: “Ih, esqueci de tirar. Aproveitei o calorzinho da manhã para iniciar a cura, mas depois eu devia ter tirado.”
A nossa geladeira daria um capítulo à parte. Pilhas de queijo enchem o compartimento superior, separadas por pequenas tábuas de madeira, cobertas por todo tipo de recipiente para, de um lado, não ressecar demais e, por outro lado, não mofar ou amargar. São obras a desafiar a inventividade de arquitetos e engenheiros e o fato de até hoje, jamais ter havido desabamento ou catástrofe, são provas mais que suficientes de que na ciência existe também a fé.
Fila de Banco - De máquinas e homens
Fui ao banco antes do dia dez, coisa que não se deve fazer. Uma sala imensa atulhada de caixas eletrônicos estava repleta de gente, suada, nervosa e irritada. Em um dos lados, uma passagem dava para uma porta giratória que levava ao andar superior onde estavam os caixas humanos. Antes da porta formava-se uma pequena fila de umas dez pessoas para o recebimento da senha, distribuída por um funcionário sentado em uma escrivaninha. Entrei na fila, pois a operação que eu precisava realizar não podia ser feita no caixa eletrônico. Na minha frente uma senhora aparentando setenta e poucos anos, apoiava-se com uma das mãos em uma bengala e com a outra em um senhor de uns cinqüenta anos que parecia ser o seu filho. O senhor estava bem tenso e logo achei que a relação entre os dois não devia ser das melhores. A fila não andava porque o funcionário, além da distribuição das senhas, dava todo tipo de informação e ainda por cima ajudava as pessoas que não sabiam utilizar os caixas eletrônicos. O senhor à minha frente foi ficando cada vez mais tenso, a cabeça movia-se em todas as direções em movimentos bruscos, lábios apertados, dentes cerrados, maxilares salientes e pequenos tiques nervosos no rosto duro.
Finalmente a fila voltou a andar, o senhor e a senhora receberam a senha, mas e a porta giratória? A velha, a bengala e o filho não cabiam no espaço da porta e, aparentemente, a velha não conseguia dispensar nenhum dos dois. Felizmente havia uma passagem lateral e o segurança do banco, detrás da parede de vidro, indicou o caminho. A senhora, no entanto, trazia uma bolsa, o senhor portava uma mochila e o segurança indicou uma abertura por onde o equipamento teria que ser introduzido, para inspeção. Acontece que a mochila não passava pela abertura. Discussão daqui, discussão dali, o senhor foi ficando cada vez mais nervoso, pequenas gotas de suor brotavam no seu rosto, movimentava-se para um lado e para o outro, largou a mão da mãe que, sem apoio, encostou-se na parede, o senhor percebeu, voltou para junto da mãe, mas a mochila, o que fazer com a mochila?
Tensão do lado de cá, tensão do lado de lá da parede de vidro. De tanta tensão fiquei com medo da corda arrebentar, quer dizer, corda não, que não havia, mas podia o vidro da porta estilhaçar, a velha podia dar uma bengalada, o filho podia jogar a mochila ou outra coisa qualquer, sabe-se lá o que havia dentro da mochila, de forma que dei dois passos para trás e já ia perder o meu lugar na fila, quando, felizmente, a questão acabou-se resolvendo, bolsa e mochila foram inspecionadas, a porta de vidro foi aberta, os dois passaram e lá se foi a velha, passinho curto e duro e o seu filho, rosto crispado, olhando em volta, visivelmente incomodado.
Passada a tensão, pensei com meus botões. Primeiro vem a automação bancária e o abismo cultural que daí resulta: senha, memorizar senha, leitura biométrica, dedo sujo ou machucado, pressão do dedo incorreta, tela eletrônica e o seu código misterioso, saber onde estão as coisas, que botão clicar, quando e como, memorizar números e dados, memorizar a receita e o caminho do menu, saber a informação a tempo, tempo cada vez mais rápido, tempo que a máquina nos rouba que é para ganhar o tempo dela, quer dizer, deles. Tudo isto reforça a marginalização: velhos, pobres, iletrados, desligados, descolados e desmemoriados.
Depois vêm as barreiras para reter a massa dos marginalizados, marginalizados que o sistema mesmo criou: câmaras de segurança, portas giratórias, sensores eletrônicos, detectores de metais, seguranças e seu arsenal de armas e armaduras. Para neutralizar os monstros que o sistema mesmo cria, crackudos, ladrões, delinquentes e psicóticos de todo tipo, o sistema cria fossos, muros, barreiras tecnológicas, verdadeira idade média. Só que com os muros e barreiras criam-se ainda mais monstros, mais muros e barreiras, seguem mais monstros, daí resultando um círculo vicioso que não é difícil imaginar onde pode terminar.
Cláudio Thomas Bornstein
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Crackudos: matar ou morrer?
Recente discussão na lista de correio eletrônico da COPPE falava da invasão da ilha do Fundão por usuários de crack. De uma maneira geral, e se não me falha a memória, os argumentos enquadravam-se nas seguintes linhas de pensamentos. Uma primeira linha falava da necessidade de reforçar o policiamento. Uma segunda linha, oposta à primeira, defendia a necessidade de compreensão do problema social por trás da questão. Uma terceira linha falava da necessidade de discussão propondo um amplo debate do problema, palestras com especialistas, etc. E, finalmente, uma quarta linha propunha a internação compulsória dos viciados em centros de reabilitação.
Evidentemente que as quatro linhas mencionadas acima são uma simplificação das dezenas de idéias contidas nas mensagens. Vou simplificar ainda mais dizendo que a primeira e a quarta linha de pensamento implicam em um caminho sem volta para o viciado. Estou supondo que a primeira opção, ou seja, o reforço do policiamento implique em detenção e, possivelmente, encarceramento dos drogados [1] . Ora, o nosso sistema penitenciário é um dos piores do mundo, as prisões são superlotadas, as condições de vida são inumanas e a droga circula livremente. Poucos, pouquíssimos conseguem escapar do círculo vicioso encarceramento – crime – encarceramento e com certeza a droga acompanha os dois tipos de elos desta corrente. Além disso, o encarceramento para delitos leves é ineficiente, pois como o nosso sistema econômico é uma enorme fábrica de marginais, para cada individuo retirado do mercado (marginal), outros dois surgem para ocupar o seu lugar. Se o encarceramento pode, infelizmente, ser necessário no caso de crimes graves, ele me parece desaconselhável em caso de crimes menores como drogadição e pequenos furtos. Por outro lado, centros de reabilitação na base da internação compulsória são uma versão maquilada do sistema prisional. Boa parte dos estudos sobre drogadição menciona que condição fundamental para libertar o sujeito do vicio é a vontade do viciado de largar a droga, condição esta automaticamente excluída pelo compulsório da internação [2]. Além disso, tratamento a base de outras drogas (desta vez legais), sem a resolução das questões psicológicas e sociais por trás do problema, dificilmente produzirá resultado satisfatório além do imenso custo, provavelmente drenado da área de saúde já carente de recursos.
A necessidade de discussão e compreensão do problema social por trás (segunda e terceira linhas de pensamento) apesar dos nobres propósitos, pouco contribui para a solução do problema a curto prazo. A invasão da ilha por usuários de crack é uma questão que exige uma resposta de curto prazo, pois o que pode estar em jogo é a vida das pessoas que trabalham ou estudam na universidade.
O que fazer? Matar ou morrer? Antes de tentar responder esta questão gostaria de ressaltar que o dilema apontado acima é característico do sistema no qual vivemos. No capitalismo, o que vigora é a lei da selva, e esta se resume exatamente em matar ou morrer.
Sim, mas o que fazer? Não sou especialista no assunto, não possuo informações suficientes de forma que não quero introduzir mais caos na confusão. No entanto, para não ficar completamente em cima do muro vou mencionar algumas coisas que, em minha opinião, não fazem parte da solução. Dentro da minha ótica a solução certamente não passa pela Polícia (com p maiúsculo), ou pelo reforço da atuação desta dentro da cidade universitária. Polícia, dentro da minha perspectiva, não é solução, é parte do problema. Além disso, Polícia (com p maiúsculo) e Universidade, dentro da minha visão, são opostos que se repelem. Hoje prendem crackudos, amanhã... sabe-se lá o que mais são capaz de fazer. Excluída a Polícia, sobra o DISEG da UFRJ, ou seja, a solução poderia ser o reforço da atuação desta instituição com a cobrança de um trabalho mais efetivo. Evidentemente o DISEG é uma espécie de polícia da UFRJ, mas, acredito que exista uma diferença significativa entre o minúsculo e o maiúsculo do p. No fundo, trata-se de uma solução de compromisso entre o matar e o morrer. Solução limpa e livre de contradições evidentemente não existe pelos motivos já apontados acima.
[1]A bem da verdade, algumas mensagens deixavam clara uma solução diferente que comento no final deste artigo.
[2]Veja por exemplo www.recovery.org.
04/2014
Cláudio Thomás Bornstein
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