quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Crackudos: matar ou morrer?
Recente discussão na lista de correio eletrônico da COPPE falava da invasão da ilha do Fundão por usuários de crack. De uma maneira geral, e se não me falha a memória, os argumentos enquadravam-se nas seguintes linhas de pensamentos. Uma primeira linha falava da necessidade de reforçar o policiamento. Uma segunda linha, oposta à primeira, defendia a necessidade de compreensão do problema social por trás da questão. Uma terceira linha falava da necessidade de discussão propondo um amplo debate do problema, palestras com especialistas, etc. E, finalmente, uma quarta linha propunha a internação compulsória dos viciados em centros de reabilitação.
Evidentemente que as quatro linhas mencionadas acima são uma simplificação das dezenas de idéias contidas nas mensagens. Vou simplificar ainda mais dizendo que a primeira e a quarta linha de pensamento implicam em um caminho sem volta para o viciado. Estou supondo que a primeira opção, ou seja, o reforço do policiamento implique em detenção e, possivelmente, encarceramento dos drogados [1] . Ora, o nosso sistema penitenciário é um dos piores do mundo, as prisões são superlotadas, as condições de vida são inumanas e a droga circula livremente. Poucos, pouquíssimos conseguem escapar do círculo vicioso encarceramento – crime – encarceramento e com certeza a droga acompanha os dois tipos de elos desta corrente. Além disso, o encarceramento para delitos leves é ineficiente, pois como o nosso sistema econômico é uma enorme fábrica de marginais, para cada individuo retirado do mercado (marginal), outros dois surgem para ocupar o seu lugar. Se o encarceramento pode, infelizmente, ser necessário no caso de crimes graves, ele me parece desaconselhável em caso de crimes menores como drogadição e pequenos furtos. Por outro lado, centros de reabilitação na base da internação compulsória são uma versão maquilada do sistema prisional. Boa parte dos estudos sobre drogadição menciona que condição fundamental para libertar o sujeito do vicio é a vontade do viciado de largar a droga, condição esta automaticamente excluída pelo compulsório da internação [2]. Além disso, tratamento a base de outras drogas (desta vez legais), sem a resolução das questões psicológicas e sociais por trás do problema, dificilmente produzirá resultado satisfatório além do imenso custo, provavelmente drenado da área de saúde já carente de recursos.
A necessidade de discussão e compreensão do problema social por trás (segunda e terceira linhas de pensamento) apesar dos nobres propósitos, pouco contribui para a solução do problema a curto prazo. A invasão da ilha por usuários de crack é uma questão que exige uma resposta de curto prazo, pois o que pode estar em jogo é a vida das pessoas que trabalham ou estudam na universidade.
O que fazer? Matar ou morrer? Antes de tentar responder esta questão gostaria de ressaltar que o dilema apontado acima é característico do sistema no qual vivemos. No capitalismo, o que vigora é a lei da selva, e esta se resume exatamente em matar ou morrer.
Sim, mas o que fazer? Não sou especialista no assunto, não possuo informações suficientes de forma que não quero introduzir mais caos na confusão. No entanto, para não ficar completamente em cima do muro vou mencionar algumas coisas que, em minha opinião, não fazem parte da solução. Dentro da minha ótica a solução certamente não passa pela Polícia (com p maiúsculo), ou pelo reforço da atuação desta dentro da cidade universitária. Polícia, dentro da minha perspectiva, não é solução, é parte do problema. Além disso, Polícia (com p maiúsculo) e Universidade, dentro da minha visão, são opostos que se repelem. Hoje prendem crackudos, amanhã... sabe-se lá o que mais são capaz de fazer. Excluída a Polícia, sobra o DISEG da UFRJ, ou seja, a solução poderia ser o reforço da atuação desta instituição com a cobrança de um trabalho mais efetivo. Evidentemente o DISEG é uma espécie de polícia da UFRJ, mas, acredito que exista uma diferença significativa entre o minúsculo e o maiúsculo do p. No fundo, trata-se de uma solução de compromisso entre o matar e o morrer. Solução limpa e livre de contradições evidentemente não existe pelos motivos já apontados acima.
[1]A bem da verdade, algumas mensagens deixavam clara uma solução diferente que comento no final deste artigo.
[2]Veja por exemplo www.recovery.org.
04/2014
Cláudio Thomás Bornstein
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