domingo, 27 de abril de 2025

Ame o seu próximo

 

Não quero me gabar, mas sou bastante musical. Só assim consigo explicar meu dom de imitar vozes de animais, e eu poderia contar inúmeras histórias e mesmo falar de um amor que surgiu tão somente por causa dos meus dotes vocais.

 

Fui visitar uns amigos. Eles moram em uma casa cercada por um belo jardim. Não sei se é por tédio, se combina com o jardim, ou se é por causa dos ovos, eu sei que, ciscando  no terreno, existem umas galinhas e até um galo. Por ocasião da minha visita, andando sobre o gramado, passos firmes e decididos, o galo exibia a sua garbosa crista vermelha, de forma a deixar bem claro que ali quem mandava era ele.

 

Assim que eu pisei no jardim, ele veio examinar quem era o intruso que invadia a sua área. Eu estava sintonizado em paz e amor, queria mais é fazer amizade, e como prova, comecei a cocoricar.

 

Ele me olhou desconfiado de um lado, olhou do outro, fazendo pequenos movimentos bruscos com a cabeça, curioso e pensativo: Que diabo de pássaro é este? O que é que ele está fazendo aqui? Este canto é mera farsa, é deboche, é advertência, ou é um grito de guerra? E como prevenir é melhor do que remediar, bateu as asas, esticou a cabeça, abriu o bico e partiu para cima de mim.

 

Eu estava sintonizado em paz e amor, mas mantinha um pé atrás. Afinal, tratava-se de um desconhecido e nem ao menos tínhamos sido apresentados. Além disso, o bater de asas, que não estava no meu script, me alertou, dando tempo de eu preparar a retirada. Só assim se explica o fato de ter conseguido escapar ileso ao ataque. Daí por diante, no entanto, passear no jardim, somente com uma vara, e esta tinha que ser de bom tamanho, suficientemente grande para manter o galo à distância.

 

Esta história não tem happy end. O galo, como aliás seria de se esperar, terminou seus dias na panela. Além de mim, ele ameaçou outros visitantes, e quando chegou a vez do netinho dos meus amigos, a paciência se esgotou. Quanto a mim, não foram necessárias medidas tão drásticas. As conclusões do incidente, tirei-as eu mesmo. Daí por diante valeria a máxima: ame o seu próximo, mas deixe os pássaros em paz.

 

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Tirem-me daqui!

 

 

Em plena rua Vinicius de Morais, coração de Ipanema, um sujeito descalço, pijama listrado, olhar sonâmbulo, arrastando atrás de si, fios, tubos e até mesmo um pedestal hospitalar como soro e tudo? A história que eu vou contar não chegou a tanto, mas foi quase isto.

 

Vivo dizendo que para ser internado em hospital, só mesmo levando médico e advogado. Pois o relato que eu faço já começa com advogado, porque o plano de saúde enrolou e não queria autorizar a internação. Entrou-se com processo e o juiz, corretamente, achou que demora é negação, obrigando o seguro a conceder a autorização.

 

Internado, procedeu-se à cirurgia, correu tudo bem, mas no pós-operatório notou-se pequena arritmia cardíaca. O cirurgião responsável achou que se tratava de coisa menor, que poderia ser resolvida com um exame suplementar feito fora do hospital, mas o plantonista insistia em manter o paciente internado em observação.

 

Como o hospital não possuía a aparelhagem necessária para fazer um exame mais apurado da questão cardíaca, foi providenciada uma transferência para um hospital do mesmo grupo em Ipanema. Lá foi finalmente feito o exame, mas o resultado custava a sair. Enquanto isto o paciente na UTI, monitorado, incomunicável, sem celular e visita diária restrita a uma hora.

 

Os familiares e o paciente pressionando pela liberação, o médico do hospital dizendo que havia que aguardar o resultado do exame, mas quedê o resultado que não saía? Nervoso com a demora e o ambiente claustrofóbico da UTI o paciente começou a reclamar. No início foram rogos e súplicas, seguiram-se resmungos e blasfêmias, acabando em gritos e impropérios. A direção do hospital ficou preocupada. E se a moda pegasse? Já imaginou toda a UTI aos berros de tirem-me daqui? Tratava-se de subversão perigosa, não da ordem pública, pois o hospital era privado, mas subversão é subversão.

 

Ameaçaram com tranquilizante, mas, familiares e paciente unidos, mais o reforço do médico da família conseguiram evitar o cala-boca. Felizmente. Transformasse o homem em uma múmia, ele só saía no sarcófago.