sábado, 19 de julho de 2014

Barroco Mineiro



“Eu sou um homem rural!” A expressão soava meio deslocada nos corredores da repartição, pilhas de papeis sobre as mesas, arquivos, pastas e computadores. Depois explicou melhor. Vinha de uma cidadezinha pequena nas cercanias de Ouro Preto. E com o olhar saudoso falou da mãe, dos irmãos, do antigo casarão, do velho armazém de secos e molhados, do jogo de bola de gude no pátio do colégio e dos cochichos do padre com a viúva no confessionário.

Barroco mineiro foi como eu o apelidei pelos volteios da conversa, pelas sinuosidades do pensamento. Ele não gostou. Devia preferir-se gótico, mais para cardeal do que para Aleijadinho. Falava palavras difíceis, expressões empoladas, frequentemente arcaísmos e ficava olhando de lado, estudando o efeito. Gostava de sentir-se centro, gostava que se lhe reconhecesse a importância e era dado a mesuras, rapapés e reverências. Tudo que dizia se enchia logo de esplendor. Como se acreditava de esquerda, procurava ressaltar o seu lado simples e popular, mas fazia-o com tal pompa que água transformava-se em champanha e areia em ouro em pó.

Uma vez, nas minhas andanças por Minas Gerais, tive oportunidade de visitar a cidadezinha onde o Alves tinha se criado. Achei que ia propiciar-lhe uma alegria não só pela deferência, pela lembrança e pela atenção como também pelas notícias e novidades que eu ia trazer de lá. Na parte velha da cidade, que se resumia a uma colina coroada pela igrejinha, fui fazer a minha busca. Infelizmente não consegui encontrar a viúva nova e bonita, nem o padre, mesmo porque talvez os dois já devessem estar longe e juntos, ou, mais realisticamente, já devessem estar a muito separados, espalhados por aí, cada um por um canto, mas no pergunta daqui, pergunta dacolá, acabei descobrindo o velho armazém. Estranhei a porta meio encostada, mas bati assim mesmo. Uma voz mandou-me entrar. Na penumbra demorei a enxergar os dois velhinhos sentados em tamboretes de madeira, debruçados sobre o balcão. As prateleiras estavam quase vazias. Aqui e ali, garrafas de refrigerante, pinga, conhaque, embalagens de biscoito e batata frita. Uma geladeira devia ter cerveja, mas não abri para conferir. Apresentei-me, falei o nome do amigo, mas torpor, modorra e silêncio pouco foram afetados pelas palavras. Eu olhava em volta, as prateleiras empoeiradas, teias de aranha pelos cantos, a penumbra e o cheiro de mofo misturado com creolina. Eles devem ter sentido o incômodo, porque só depois de uma longa pausa foi que surgiu o comentário: “É, deve estar no bem bom lá no Rio de Janeiro. Há muito que não aparece. Na certa se esqueceu de nós.” Fiquei sem jeito e a conversa acabou morrendo. Restou um silêncio incômodo e resolvi me despedir não sem antes perguntar pelo velho casarão. Um irmão ainda morava por lá.

A conversa com o irmão não foi muito melhor e também o velho casarão não devia estar em melhor estado que o armazém porque o irmão nem mandou entrar. Ficamos conversando na soleira da porta. Não serviu café, não ofereceu bolo, nem ao menos uma fatia de queijo. Nas entrelinhas, nas pausas e nos silêncios ia se esgueirando o ressentimento, o azedume e o acabrunhamento.

De volta ao Rio procurei o Alves. Achei que ao menos ia ficar contente com a deferência e a atenção. Mas o Alves não era bobo. Às primeiras palavra percebeu o descompasso e a desproporção entre sonho e realidade. A cabeça foi baixando, o sorriso amarelou e as costas foram se encurvando, sob o peso dos pensamentos. 



Barroco Mineiro (*)

“Eu sou um homem rural!” A expressão soava meio deslocada nos corredores da repartição, pilhas de papeis sobre as mesas, arquivos, pastas e computadores. Depois explicou melhor. Vinha de uma cidadezinha pequena nas cercanias de Ouro Preto. E com o olhar saudoso falou da mãe, dos irmãos, do antigo casarão, do velho armazém de secos e molhados, do jogo de bola de gude no pátio da escola e dos cochichos do padre com a viúva nova e bonita no confessionário.

Barroco mineiro foi como eu o apelidei pelos volteios da conversa, pelas sinuosidades do pensamento. Ele não gostou. Devia preferir-se gótico, mais para cardeal do que para Aleijadinho. Era dado a mesuras, rapapés e reverências. Falava palavras difíceis, expressões empoladas, arcaísmos e ficava olhando de lado, estudando o efeito. Gostava de sentir-se centro, gostava que se lhe reconhecesse a importância.

Como se acreditava de esquerda, procurava ressaltar o seu lado simples e popular. Vinha daí a ênfase no rural e no interiorano. Fazia-o, no entanto, com tal pompa e circunstância que água transformava-se em champanha e areia em ouro em pó.

Uma vez, nas minhas andanças por Minas Gerais, tive oportunidade de visitar a cidadezinha onde ele tinha se criado. Achei que ia propiciar-lhe uma alegria não só pela deferência, pela lembrança e pela atenção como também pelas notícias e novidades que eu ia trazer de lá. Na parte velha da cidade, que se resumia a uma colina coroada pela igrejinha, fui fazer a minha busca. Não consegui encontrar a viúva nova e bonita, nem o padre, mesmo porque talvez já devessem estar longe e casados, ou, mais realisticamente, deviam estar é separados, espalhados por aí, cada qual por um canto.

Pergunta daqui, pergunta dacolá, acabei descobrindo o velho armazém. Estranhei a porta meio encostada, mas bati assim mesmo. Uma voz arrastada mandou entrar. Na penumbra demorei a enxergar os dois velhinhos sentados em tamboretes de madeira, debruçados sobre o balcão. As prateleiras estavam quase vazias. Aqui e ali, garrafas de refrigerante, pinga, conhaque, bagaceira, embalagens de biscoito e batata frita. Uma geladeira devia ter cerveja, mas não abri para conferir. Apresentei-me, falei o nome do amigo, mas nada havia ali que rompesse o torpor, a modorra e o silêncio. Eu olhava em volta, as prateleiras empoeiradas, teias de aranha pelos cantos, a penumbra e o cheiro de mofo misturado com creolina. Eles devem ter sentido o incômodo, porque depois de algum tempo surgiu o comentário: “Deve estar no bem bom lá no Rio de Janeiro. Há muito que não aparece. Na certa se esqueceu de nós.” Fiquei sem jeito e a conversa acabou morrendo. Restou um silêncio incômodo e resolvi me despedir não sem antes perguntar pelo velho casarão. Um irmão ainda morava por lá.

A conversa com o irmão não foi melhor e o velho casarão não devia estar em melhores condições, porque o irmão nem mandou entrar. Ficamos conversando na soleira da porta. Não serviu café, não ofereceu bolo, nem ao menos uma fatia de queijo. Nas entrelinhas, nas pausas e nos silêncios ia se esgueirando o ressentimento, o azedume e o acabrunhamento.

De volta ao Rio procurei pelo mineiro da repartição. Achei que ia ficar contente com a deferência e a atenção. Eu tinha mudado a minha rota, passado uma tarde na cidadezinha e esperava que ele ao menos reconhecesse a importância que eu lhe tinha dado. Mas ele não era bobo. Às primeiras palavras logo percebeu o descompasso e a desproporção entre o meu relato e o dele. A cabeça foi baixando, o sorriso amarelou e as costas foram se encurvando, sob o peso dos pensamentos.  

(*) Versão nova escrita em março de 2021

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A vida não é um conto de fadas


Huginho, Zezinho e Luizinho certamente aprontaram. Na longa-curta vida armaram muitas e boas, outras não tão boas assim. O Huginho, por exemplo, já se foi faz tempo. Morreu de AIDS, ou então, foi overdose, crack na veia ou pico.

A guisa de explicação eu diria que foram criados sem amor, mas sinceramente acho que isto nada mais é do que um estereótipo. Aliás, preconceito é este negócio de ter que dar explicação, encontrar a causa, botar a culpa. Se a Benedita era só gritos, palavrão e descompostura isto prova o que? É muito fácil culpar a mãe. Vá você criar seis filhos, roupa lavada, conseguir comida para o almoço e a janta, arrumar a casa, levar os filhos na escola, e ainda por cima, ser carinhosa, ter paciência e tempo para as crianças.

Morava todo mundo num quarto e sala com a televisão ligada dia e noite. Dormiam espalhados pelo chão.

Benedita gostava de homem bonito, desempenado, de preferência claro, mais claro do que ela. Teve muitos. Com cada um fez um filho que era para levar alguma coisa de recordação. O último eu conheci bem. Morreu na praça, num banco de jardim. Era chegado a um baseado e otras cositas más.

Zézinho e Luizinho andaram sumidos. Deviam estar em uma destas crackolândias, sem coragem para voltar. Ou então estavam em um centro de detenção ou recuperação, compondo o círculo vicioso que alterna a droga livre com a droga confinada. Droga livre conseguida no espaço confinado e droga confinada no espaço livre. Triste paradoxo!

Para garantir o dinheiro das pedrinhas, andavam praticando pequenos furtos. Até meu filho eles pegaram e o encostaram num canto da Praça Tiradentes. “Poxa Zezinho, sou teu vizinho. A gente se conhece.” “Não tem conversa, passa o celular”. E ameaçava com o caco da garrafa quebrado. Mas a amizade deve ter valido para alguma coisa porque deixaram a mochila e uns trocados.

Na vizinhança também andaram aprontando. Em uma casa escalaram o muro, na outra forçaram a porta. Na minha casa, facilitei demais. Deixei a porta aberta e até que para a bobeira, levaram pouco: duas bicicletas e uma máquina fotográfica.

O lance mais interessante foi com o Luizinho. Andava ele e o irmão de braços dados com o crack, noite e dia. De longe a gente via as pequenas faíscas das pedrinhas, o isqueiro emborcado sobre a tampa perfurada de Guaravita, a cabeça inclinada sobre o copo, a boca sorvendo o fumo inebriante por um canto levantado do alumínio. A nóia, o constante olhar em volta, em cima, em baixo, de um lado e do outro, a cabeça quase dando nó de tanto círculo, já denunciavam, de longe, o que eles procuravam esconder, de perto. Estavam nesta vida, quando, um dia, Luizinho apareceu com um travesti. Era bem mais velho do que ele, pouco vistoso, já estava meio gasto pela vida. Seja como for, Luizinho e o travesti andavam grudados se agarrando e era clara a tara, o rapaz-moça freqüentando a casa do menino, Benedita aceitou, tinha mais um ajudante para empurrar o carrinho de comida que ultimamente garantia o sustento da família e a moça-rapaz, que acho que era manicure, ou pedicuro, por uns dias até montou salão de beleza na nova casa.

Luizinho largou o crack. Andava penteado, perfumado, roupa estalando de nova, celular na mão, tênis limpo, pisando firme. O que não faz o amor, foi o que eu pensei. Dois marginalizados, à toa, pisados pela vida, desprezados por tudo e por todos. Aí vem o amor que tudo pode, e une e salva. Que lindo!

Puro romantismo. A vida não é um conto de fadas e as coisas são mais complicadas do que aquilo, pouco, que cabe na cabeça de um intelectual. De tórrido, o amor passou a quente, depois morno e, finalmente esfriou. Ficaram os negócios, os dois servindo cachorro quente na barraca da Benedita. Depois, sem o cimento do amor, vieram as desavenças, o negócio terminou e voltou tudo à forma antiga.