segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O mundo não tem jeito!




Tinha acabado de fechar o jornal, olhei para minha mulher com um sorriso triste e balançando a cabeça, disse: “O mundo não tem mais jeito. Vamos ter que encontrar um novo Noé.” E depois, achando que era ocasião apropriada para uma demagogiazinha, complementei: “Ou melhor, uma Nooa, porque o mundo agora é das mulheres.”

Minha mulher é mineira, não gosta de deturpações históricas, ainda mais bíblicas, de forma que o sorriso foi amarelo. Tive que deslocar um pouco a linha do raciocínio, mas para ficar do mesmo lado, passei para o irmão dela, meu cunhado, que há um tempo atrás criou um personagem, a mulher-pato, para ilustrar uma exposição. Nada a ver com o pato da Fiesp que é ideia bem mais recente, desconfio até que roubaram dele. A mulher-pato não paga imposto, não se recusa a pagá-los, nem tampouco precisa de cruzar os olhinhos para isto.

Prosseguindo na linha do arrazoado, eu disse: “Taí a mulher-pato, candidato ideal ao novo Noé. Já traz a barca embutida no próprio corpo de forma que é só botar pra dentro e sair navegando”, foi o que eu disse à guisa de conciliação. E para reforçar, falei: “Prometo que ajudo. Minha relação atual com o divino é das melhores. Peço para ele providenciar uma chuva maneira, sem estragos em demasia.”

Minha mulher continuava séria e sisuda, de forma que fui obrigado a pensar no que tinha dito.  Ela tinha razão. Fosse com pato ou sem pato, com Noé ou com Nooa, deste jeito era melhor deixar tudo como estava, porque de novo aquilo não tinha nada.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Ah, os nossos empresários! – II




Eu trabalhava para uma instituição que estava fazendo um estudo para as empresas de ônibus do Rio de Janeiro. A ideia era dar sugestões para um uso mais eficiente do transporte público e um dos problemas identificado foi a longa fila para entrar no coletivo. Como a roleta ficava muito perto da porta de entrada, o espaço era exíguo, de forma que para um novo passageiro entrar era preciso um outro passar pela roleta e esta operação levava tempo o que explicava a fila. Devo acrescentar que tudo isto se passa em uma época em que não havia bilhete único, cartão de idoso, gratuidades, etc. o que tornava o serviço ainda mais lento.

A sugestão óbvia era deslocar a posição da roleta mais para o meio do carro. Foi feita uma reunião com os empresários explicando a proposta. A rejeição foi imediata e a oposição enérgica. Argumentou-se que a evasão, isto é, passageiro sem pagar, ia aumentar muito, causando prejuízo.

Para verificar se a objeção tinha fundamento resolveu-se montar um experimento, colocando um ônibus para rodar alguns meses nas condições preconizadas, isto é, com a roleta deslocada. O veículo foi monitorado e findo o período de teste verificou-se que, de fato, a evasão aumentava um pouco, mas que isto era largamente compensado pelo aumento do número de passageiros transportado. Ou seja, face ao menor tempo de espera nas paradas, para igual período, o ônibus do protótipo levava mais pagantes, o que aumentava a receita.

Nova reunião para explicar os resultados do experimento. Não adiantou. Mais importante que o aumento do lucro era a demonização da evasão. Alguém entrar no coletivo, viajar e não pagar, era pecado que não podia ser permitido de forma nenhuma. Que o custo do pecado fosse pago pelo empresário e pelos outros passageiros, por aqueles que nada tinham a ver com a evasão, pelo trabalhador ordeiro que só queria chegar logo no serviço, isto era secundário!

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Ah os nossos empresários! – I




Eu estava cursando o último ano de engenharia e fazia um estágio em uma empresa pequena. A maior parte do tempo ficava ocupado com burocracia. Encomenda uma peça aqui, cuida da manutenção de uma máquina acolá, preenche um formulário, faz um levantamento, nada que caracterizasse aprendizado, muito menos, engenharia.

Foi, portanto, grande a minha alegria quando  vieram me propor o desenvolvimento de uma correia transportadora para levar carga de um local para outro da fábrica. Finalmente eu ia poder utilizar o que eu tinha aprendido na faculdade, foi o que eu pensei. Como o vão a vencer era grande e a carga era pesada, havia que ter cuidado no dimensionamento do equipamento. Peguei o livro e me pus a estudar, buscando fórmulas e fazendo os cálculos.

No departamento técnico éramos dois estagiários, um engenheiro, os supervisores e mais um rapaz responsável pelo controle de qualidade. Ficávamos no rés-do-chão junto com a produção. No andar de cima ficava a parte administrativa, departamento de vendas, compras, finanças, recursos humanos e o escritório do dono da empresa que ao mesmo tempo era diretor e gerente.

O diretor ficava a maior parte do tempo no ar-condicionado, mas uma vez por dia fazia uma ronda, e tinha o costume de variar o horário da inspeção, talvez para tentar nos pegar desprevenidos. Dei azar que naquele dia, na hora que ele abriu a porta do nosso escritório, eu estava com o livro aberto sobre a escrivaninha. Ele foi se acercando, talvez desconfiando que eu tivesse escondendo uma revistinha de sacanagem entre as páginas do livro, mas, possivelmente desapontado por ver que só havia mesmo fórmulas, me pregou tremenda descompostura. “Isto aqui não é universidade, para ficar estudando. Eu pago você para produzir”, foi o que me disse.

Resolvi não argumentar porque não ia conseguir convencer lobo a comer alface. Além disso a corda rebenta sempre do lado mais fraco. Dei umas desculpas, eu não sabia, coisa e tal, estava tão somente cuidando do projeto, fechei o livro, levantei e fui esfriar a cabeça dando umas voltas pela fábrica. Mais tarde, mais calmo, fui conversar com o engenheiro que estava lá mais tempo do que eu.
“Como é que eu faço para dimensionar corretamente o equipamento? É muita responsabilidade e se desabar como é que eu fico?”
“Chuta, cara”, foi o que ele respondeu.
“Mas chuta como?”
“Superdimensiona. Na dúvida, joga para cima. Se você acha que o perfil de três polegadas não vai aguentar, bota um de cinco, e assim por diante.”

Foi assim que eu fiz e foi assim que o projeto saiu. Mais tarde, com o ensinamento na cabeça, entendi melhor porque havia equipamento lá que parecia um paliteiro, tantas eram as escoras se escorando. Era um reforçozinho aqui para ajudar a reforçar o reforçozinho dacolá. Era uma viga duplicando o papel de outra. Pensei com os meus botões que saía cara a economia que o empresário fazia por não deixar o engenheiro estudar, mas não disse nada, porque se ele achava que engenharia era sair fazendo, ele também devia achar que diretor é capataz, chicote na mão, botando para trabalhar.