Eu trabalhava para uma instituição que estava fazendo um
estudo para as empresas de ônibus do Rio de Janeiro. A ideia era dar sugestões
para um uso mais eficiente do transporte público e um dos problemas identificado
foi a longa fila para entrar no coletivo. Como a roleta ficava muito perto da
porta de entrada, o espaço era exíguo, de forma que para um novo passageiro
entrar era preciso um outro passar pela roleta e esta operação levava tempo o
que explicava a fila. Devo acrescentar que tudo isto se passa em uma época em
que não havia bilhete único, cartão de idoso, gratuidades, etc. o que tornava o
serviço ainda mais lento.
A sugestão óbvia era deslocar a posição da roleta mais para
o meio do carro. Foi feita uma reunião com os empresários explicando a proposta.
A rejeição foi imediata e a oposição enérgica. Argumentou-se que a evasão, isto
é, passageiro sem pagar, ia aumentar muito, causando prejuízo.
Para verificar se a objeção tinha fundamento resolveu-se
montar um experimento, colocando um ônibus para rodar alguns meses nas
condições preconizadas, isto é, com a roleta deslocada. O veículo foi
monitorado e findo o período de teste verificou-se que, de fato, a evasão
aumentava um pouco, mas que isto era largamente compensado pelo aumento do
número de passageiros transportado. Ou seja, face ao menor tempo de espera nas
paradas, para igual período, o ônibus do protótipo levava mais pagantes, o que
aumentava a receita.
Nova reunião para explicar os resultados do experimento. Não
adiantou. Mais importante que o aumento do lucro era a demonização da evasão.
Alguém entrar no coletivo, viajar e não pagar, era pecado que não podia ser
permitido de forma nenhuma. Que o custo do pecado fosse pago pelo empresário e
pelos outros passageiros, por aqueles que nada tinham a ver com a evasão, pelo
trabalhador ordeiro que só queria chegar logo no serviço, isto era secundário!
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