quinta-feira, 21 de junho de 2012

Pantanal


Já faz muito tempo. Foi no Pantanal, Mato Grosso. A pousada, cheia de gringos, ficava perdida no meio do nada, quer dizer, natureza por toda parte, todo tipo de bicho: cobra, jacaré, capivara, macacos e uma variedade imensa de pássaros. Para chegar lá se levava umas quatro horas, estrada terrível; quando não era lama, era um areal fofo que quase atolava o carro.

“O senhor é brasileiro?” a atendente tinha perguntado pelo telefone, na hora da reserva. “Sou”, respondi, ao que ela retrucou: “É que a gente não costuma receber ...”

Na frente da pousada passava um rio cheio de jacarés. Só quem se aventurou a tomar banho fui eu e um francês. “Os jacarés estão bem alimentados nesta época” tinham dito na recepção, entre sorrisos. Cobras vimos muitas, felizmente nenhuma dentro das acomodações, embora, certa vez, tivéssemos visto uma serpente grande sobre a copa da árvore perto da nossa janela.

O animal, no entanto, que mais me impressionou era um mamífero grande, corpulento e que andava livremente pelos corredores da pousada. Forte talvez tivesse sido alguma vez. Agora não, estava velho. Mediu-me de cima a baixo, olhou fixo no meu rosto e disse: “Você está forte ainda. Os músculos das coxas...Quanto ao resto...”. Fez um muxoxo. Estremeci. Tinha sido rápida a avaliação e acertara na mosca.

De noite, desligado o gerador, ficamos de papo na varanda, na semi-obscuridade da noite, iluminada apenas pelos reflexos da luz do céu na mata e na água. O dono da pousada estava visivelmente satisfeito de poder, enfim, conversar em português. Tinha sido da polícia, mas logo desconversou. Resolvera se aposentar para esfriar a cabeça. A moçada, os baderneiros, filhos de papai, davam muito trabalho e não era possível fazer o serviço direito. A turma do deixa disso sempre interrompia no melhor da festa. Desconversou de novo.

Agora que estava velho e cansado o que gostava mesmo era de caçar. Reunia os amigos, os de antigamente, vinha gente do Rio e de S. Paulo e saiam noite a dentro sem hora para voltar. Contou história de onça pintada, manada de queixadas e cobra surucucu. Falava alto, gesticulava e os olhos se acendiam na noite escura. Era nítida a emoção, o entusiasmo, a sanha, tara e tiro. Não mudara de ramo foi o que eu pensei: ontem caçada humana, hoje onça.

Uma vez saímos juntos ao entardecer. Fomos num jipe grande que tinha sido do exército. Chegou num campo, abandonou a estrada e ia atravessando o capinzal. De repente parou, desligou o motor e mandou a gente calar a boca. Soprando através dos lábios, auxiliado pela língua ou talvez tivesse sido um apito, assobio, começou a fazer uns barulhos que depois nos explicou: imitava uma ave ferida. Não tardou muito para surgir da mata, de mansinho um lobo guará, ou talvez tivesse sido um cachorro do mato. Foi se acercando de nós, cada vez mais perto. A uma dezena de metros parou. Ouviu-se um clique e acenderam-se os faróis do jipe. O animal ficou lá, parado, imobilizado, ofuscado pela luz. Este espetáculo repetiu-se diversas vezes em locais diferentes, mais frequentemente aproximando aves grandes. Às vezes fazia o ruído da fêmea tentando atrair o macho, outra vez imitava os filhotes, chamando a mãe. Era cilada, tocaia, armadilha e blefe, o jogar verde para colher maduro.

Ria muito dos turistas. Volta e meia aparecia algum a cata de aventura, cismando de passar a noite na mata, numa barraca, para ficar mais perto da natureza, sua mágica e seus mistérios. Ele ajudava um pouco e piscou os olhos para mim. Ajudava a montar a tenda, e, voltava à noite, munido da sua orquestra de sons. De manhã era a maior diversão, olhar para a cara do turista, lívido, noite passada em claro. Lançou um olhar de desdém e fez um ruído de desprezo com a língua no céu da boca. O prazer do medo, prazer de meter medo, potência, dono de vida e morte.

Conversa maior tivemos tão somente nos primeiros dias. Depois os contatos foram rareando. Acho que tentou me evitar. Provavelmente me achou muito enxerido, muito perguntador. Ou talvez tivesse sido a minha cara de turista. Ficamos uma semana na pousada. Mais tarde, pensei em lá voltar, sondar com mais detalhes e apurar as suspeitas, mas, confesso, fiquei com medo. Ele tinha muitos amigos no Rio e em São Paulo e depois, um jacaré daqueles do rio, podia, de mansinho, dar o bote.

Mázinho

Moro na encosta de um morro. A rua que passa defronte à minha casa avança sobre a escarpa, sustentada por uma espécie de escoramento de concreto que forma um abrigo contra sol e chuva. Tal oportunidade não podia passar despercebida à legião de sem teto que habita a nossa cidade maravilhosa. Costuma utilizar o refúgio tanto o queimador de crack como o cidadão honrado à cata de um pernoite barato. Com alguns a gente puxa dois dedos de prosa, claro, a conversa sempre termina com um pedido de empréstimo, mas aí a gente sai fora e desconversa.

Entre os moradores do abrigo teve um casal que passou lá muito tempo. Ela tinha sido mulher bonita e vistosa. Quando a conheci, no entanto, já estava acabada apesar dos trinta e poucos anos. Muita cachaça, muita briga, tinha perdido os dentes da frente, e, para piorar, acidentou-se, quebrou a perna, engessou, mas numa das brigas, quebrou o gesso e ficou assim mesmo, capengando. O casal volta e meia pedia para usar a água da minha torneira, depois passaram a pedir álcool para o fogão, algumas vezes dei, mas depois, desconfiado que a serventia era outra, passei a negar. Um dia sumiram. Vim a encontrá-los, meses depois, já separados. Ambos tinham parado de beber. Ela tinha uma filha com a qual, no entanto, não se dava. De qualquer maneira tinha arrumado um canto para ficar. Ele tinha arrumado um lugar de toma-conta de um templo evangélico e, ainda de quebra, tinha montado uma barraquinha onde vendia beiju. Estava irreconhecível, camisa de manga comprida, calça com vinco e óculos escuros. Quando, depois de alguma hesitação, o cumprimentei, não me deu confiança. Apenas acenou com a cabeça, respeitoso.

Mas a história que eu quero aqui contar é a do Mázinho, o sem-teto com o qual, de longe, maior amizade fiz. Mázinho tinha sido mecânico de automóvel e, segundo me disseram, dos mais habilidosos. Quando o conheci ainda carregava uma maleta com algumas ferramentas com as quais fazia pequenos reparos na vizinhança garantindo assim os tragos da branquinha que era a sua perdição. Depois, com o tempo, as ferramentas dispersaram-se e viraram marcas da sua via crúcis. Ficou uma chave de fenda ali, no local que um tropeço o levou ao chão e um alicate acolá, no pé do poste que por algum tempo o sustentou.

Mazinho era um bom papo. Inteligente, falava e desenvolvia bem os pensamentos. Tinha algo da ingenuidade de uma criança e era provido de um humor terno, meio encabulado. Ria principalmente das suas desventuras. Dei-lhe muitos conselhos. Não seguiu nenhum.

Faz poucos dias o encontrei. Parou de beber e deve estar pela casa dos setenta, para contestar aqueles que, como eu, diziam que ele não passaria dos cinqüenta. “Como é Mázinho, e a vida?” foi o que eu disse à guisa de cumprimento. “Vou levando” foi a resposta e desandou a descrevê-la. Mora em Caxias na casa de uma filha com a qual, no entanto, não se dá. “Vivem todos às minhas custas” foi o comentário que fez. Mázinho é aposentado e sustenta a filha mais velha, o genro que é viúvo com duas filhas do primeiro casamento e, de quebra, outra filha mais nova, deficiente mental. “Todo mundo desempregado. E ainda por cima me tratam mal, me desrespeitam. Até a geladeira que eu comprei meu genro vendeu, para arrumar uns trocados.” Para ver se desanuviava o ambiente perguntei: “E o que é que você está fazendo por aqui?” “Vim passear.” “Vem sempre?” “Não, só de vez em quando.” Mázinho contou que por uns dias tinha arrumado um lugar onde ficar, numa comunidade vizinha. “Lá todo mundo me conhece. Até arrumei um prato de comida hoje.” Não consegui me conter e tasquei outro conselho: “Mas se em Caxias está tão ruim, porque é que você não muda para cá? Traz a aposentadoria, aluga um barraco e, de quebra, se livra da parentada.” Mazinho olhou para o chão e disse encabulado: “Não dá mais. Estou muito velho. É melhor eu ir levando.” Deu uma risada e, para arrematar, me pediu dois reais para um café.

Depois em casa eu pensei. Que é que eu entendo da vida do Mázinho? Na comunidade arrumam um prato de comida hoje, mas e depois? E quem segura a barra se ele ficar doente? E as filhas dele, as netas, como é que ficam? E aquela que é doente mental, quem cuida? Depois, as brigas na família muitas vezes não são problema, são solução. Melhor mesmo era ir levando....


Cláudio Thomas Bornstein

Problemas de comunicação


Seu Adolpho, com ph, é daqueles cidadãos da antiga, origem lusitana, que prima por dizer não a qualquer pergunta que lhe é dirigida. No início discuti muito. Depois aprendi que a melhor reação é o silêncio. No embaraço da pausa que surge, seu Adolpho, de mansinho, começa a tecer fios de sim na malha de não e o que costuma resultar é uma trama positiva, para satisfação minha e dele.

Tudo seu Adolpho sabe melhor, para tudo tem uma resposta, qualquer afirmação é logo contestada e a última palavra é sempre a dele. Fora disso, é ótima pessoa. Honesto, confiável, leal e, acima de tudo, um profissional competente. Seu Adolpho tem uma pequena serralheria na zona norte do Rio de Janeiro.

Precisando fazer uma porta para um armário da área de serviço, telefonei para seu Adolpho e, como de costume, na hora marcada ele apareceu. Fez um desenho em que anotou as medidas, deu algumas sugestões e ficou de me mandar o orçamento. No dia seguinte, me lembrei que eu tinha esquecido de especificar o lado de abertura da porta e resolvi telefonar. “Seu Adolpho, a porta deve abrir do lado esquerdo” disse eu e, para reforçar, acrescentei “isto é, a dobradiça deve ficar do lado direito”. “Mas é claro” prontamente contestou seu Adolpho “não poderia ser de outra maneira, visto que do lado direito tem uma parede.” Com a consciência culpada por tamanha obviedade resolvi, à guisa de desculpa, justificar: “mas o senhor podia ter esquecido...”. Tamanha falta seu Adolpho não podia perdoar de forma que partiu logo para o ataque. “Espera aí, você disse que a porta abre do lado esquerdo. Mas é para o lado direito.” Meio nervoso e receoso de algum mal entendido, retruquei: “Como, seu Adolpho? A dobradiça fica do lado direito, portanto a porta abre pela esquerda”. “A porta abre da esquerda para a direita, portanto, é para a direita que ela abre” foi o comentário de seu Adolpho ao que eu, na certeza de que nenhuma surpresa podia mais acontecer, já que tínhamos incluído tanto a esquerda quanto a direita na negociação, resolvi dar a conversa por encerrada.

Alguns dias mais tarde recebi o orçamento. Tudo estava perfeito com exceção de um pequeno detalhe. A porta tinha uma parte fixa e no nosso encontro eu tinha dito que ela devia ficar acima da porta. No orçamento vinha parte fixa inferior.
Novo telefonema e novo comentário meu contestando o detalhe do orçamento. Fez-se um silêncio embaraçoso, mas seu Adolpho logo se recuperou. “Ora, isto é só uma questão de semântica!” Confesso que em lingüística eu ando meio enferrujado de forma que levei algum tempo para retrucar. Depois, me lembrei que certamente a questão não era de sintaxe e que, sim, tratava-se de um assunto sobre significado. Tentando recuperar o tempo perdido e com uma ponta de ironia, acrescentei: “Claro, seu Adolpho, a questão é de semântica. Por isso mesmo...”. Mas seu Adolpho nem estava mais aí e deu o comentário definitivo: “Além do mais, o que vale é o desenho que eu fiz. Lá está tudo direitinho. A parte fixa é a superior. O orçamento, ora, o orçamento...”

Cláudio Thomas Bornstein