terça-feira, 7 de abril de 2026

Engraxando a bota

 

Quando me mudei, há alguns anos atrás, deixei parte das coisas na casa velha, que ficou para os meus filhos. Acontece que eles também precisam de lugar, e foi assim que em uma das muitas arrumações que eles fizeram, algumas caixas de papelão, malas e sacolas vieram me procurar aqui na minha residência nova

 

A grande maioria do material eram fotografias, fotografias antigas dos meus pais e até dos meus avós. Fotografias de papel. Pensei que as futuras gerações certamente não terão mais este problema. A fotografia digital torna mais fácil o armazenamento das informações. Mas corre-se o risco de perder parte da memória, porque e eletrônica perde-se na nuvem, e a nuvem perde-se no espaço. Sem memória, como é que fica a unidade? Como é que fica o futuro sem passado?

 

No meio das fotografias, uma grande caixa de papelão continha roupas de inverno, sobras das minhas andanças pelas terras frias. No meio das roupas, um par de botas. Me lembrei da história.

 

Estava eu fazendo uma caminhada de três dias com um amigo suíço pelo Ticino, quando chegamos a um riacho que havia que atravessar a vau. Tirei as botas e as atirei para o outro lado do rio, mas a força foi pouca ou a pontaria falha, o rio era encachoeirado, correnteza forte e lá se foram as botas rio abaixo.

 

E agora? Meu pé é de moça, pele fina. A trilha cheia de pedras, cascalho. Não sei como consegui chegar ao próximo povoado, sorte que a Suíça é pequena, densamente povoada, sorte também que sempre havia um mato, uma graminha onde dava para pisar.

 

Chegando ao povoado a primeira providência foi comprar um novo par de botas. É justamente este par de botas que está aqui na caixa de papelão, na casa nova, aguardando o seu destino.

 

Tirei as botas da caixa. Examinei-as com cuidado. O couro continua flexível e macio. Depois de quase cinquenta anos de sono profundo, interrompido uma ou outra vez por uma engraxada ocasional, as botas estão perfeitas como no primeiro dia de uso. O trabalho é magnífico, eu diria que no povoado onde eu comprei, havia um artesão que as fabricava, porque a forração interna denota um cuidado e um esmero pouco usual no sapato industrial. Tudo é couro, não há plástico, não há tecido.

 

Eu ia jogar fora uma preciosidade destas? Um repositório das minhas memórias mais caras e mais queridas? Um monumento ao trabalho, um depoimento do apreço, desvelo e abnegação de um artesão, um testemunho da busca de perfeição? Eu ia jogar fora? Nunca, nunquinha!

 

Eu peguei a minha melhor cera de engraxar, uma que só uso em ocasiões especiais e engraxei as botas, consciente de que jamais as usarei de novo, consciente também que jamais meus filhos vão querer usá-las. São botas antiquadas, o formato está fora do padrão utilizado hoje em dia. São botas complicadas de vestir, um longo cordão dá muitas voltas que há de apertar espira por espira. Não condiz com os tempos modernos em que acima de tudo está a praticidade.

 

Mas, quem sabe? Chegamos ao final dos tempos. Houve acúmulo de erros, gerando o impasse. O que virá depois, a gente não sabe. Pode não sobrar nada, ou pode recomeçar tudo da estaca zero. Neste caso, há que fazer a coisa de forma diferente. E, quem sabe, as botas podem dar uma ideia? Ou pode um extraterrestre, em um futuro remoto, vir nos visitar e descobrir a bota. Vai ficar maravilhado com o nível atingido pela nossa civilização.

 

Temos aqui um paradoxo. A mesma civilização que produziu a bota, produziu também o impasse no qual nos encontramos. Mas isto também é algo positivo. Porque se a mesma civilização pode gerar a bota e a bomba atômica, isto mostra o imenso potencial de alternativas que a vida oferece. Dentro desta infinita capacidade de moldar a existência, a minha opção é pela bota. Foi por causa disto que eu a engraxei.

 

 

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Amante e cunhado (segunda versão)

 

 

A primeira versão desta história foi escrita em 2021. Recentemente ao relê-la achei que ela tinha potencial para ser melhorada. Se a matéria prima é boa, vale a pena caprichar um pouco mais no acabamento. Foi isto que eu pensei.

 

 

 

            A vida requer estratégia. O amor também. Foi isto que João pensou quando bolou o plano. Na verdade, ele não bolou plano nenhum. As coisas foram acontecendo, ao longo do tempo, de forma natural, naturalmente.

            João era dado a um Manoel, um Francisco e um José, mas na cidadezinha onde  morava, isto era um problema. Podia cair na boca do povo e como tinha reputação a zelar, era chefe de repartição, ia perder autoridade, e, sem autoridade, como é que ia ser?

            Ele costumava ser cuidadoso na escolha. Só escolhia menino novo, destes que ficam pelos cantos, não namoram, passeiam sozinhos na praça, e, nas festas, permanecem de lado, sem jeito, deslocados, encabulados. João observava atentamente, colhia informações, escutava e aguardava.

            Aguardando, o tempo foi passando, e, com a chegada do inverno, chegou S. João. Como todo ano, ia ter festa no pátio da paróquia. O forró estava animado, pares dançando juntos, apertadinhos, mantendo a boca do povo ocupada.

            João foi se achegando. Manoel estava num canto, não dançava, não puxava conversa com as meninas, tímido, desajeitado.

            “Como é Manoel, desanimado?”

            “Não, estou cansado.”

            “É a coisa aqui é devagar quase parando. Cidadezinha pequena, sabe como é?  Atraso de vida. Só dá forró. Voltei do Rio de Janeiro, semana passada. Lá que a farra é boa. Carnaval, boate e folia.” E tacava a falar das suas aventuras, deixando entrever, subentendido, dito sem dizer, os prazeres que lhe interessavam.

            O outro, acostumado com a pequenez do interior, jamais saído dos rincões da mata, restrito àquela vidinha de cidade pequena, bebia suas palavras, olhos acesos, boca aberta, fogo na imaginação.

            João ficou olhando o fogo se espalhar. Fez uma pausa longa para estudar o efeito. “Qualquer dia te levo lá para passear, se divertir um pouco.”

            Mas Manoel era de família humilde: “ai, quem dera, mas e a grana?”

            “Ora, isto a gente vê. Para tudo tem jeito. Posso emprestar, depois você devolve.”

            E a conversa morreu ali. João tinha dado o primeiro passo, tinha lançada a semente. Agora era esperá-la germinar.

 

*   *   *

 

            João tinha comprado uma casinha afastada, na beira da mata. Tinha sido um depósito de material e ferramentas, mas ele foi reformando, no capricho. Dizia que era para alugar, mas, longe de tudo, quem ia querer? Acabava ele usando, de vez em quando, para espairecer, esquecer de tudo, esfriar a cabeça. Era o que dizia.

            Morar mesmo, João morava bem no centro da cidade, perto da pracinha principal. Foi na pracinha que ele voltou a encontrar Manoel. Conversaram, trocaram impressões.

            “Falei outro dia da minha viagem. Tirei umas fotos. Você não quer ver? Está na minha casinha, na boca do mato. Levei para lá para ver na calma, sem pressa nem afobação.”

            E lá se foram os dois. Era meia hora de caminhada. Subia a serra, descia a serra, a estrada ia dando voltas sinuosas e na sinuosidade da estrada foram se enredando os passos, foram se trocando as pegadas, num troca-troca de sinuosidades, passos e pegadas.

            Chegando na casinha, abriram a porta e entraram.

            Eu, que sou o narrador desta história, não vou entrar. Fico aqui fora esperando, que é para não atrapalhar. Além disso, em função de tudo aquilo que pode acontecer, posso embaraçar as ideias e a imaginação. Posso perder o fio da meada e me enredar também.

            Melhor ficar aqui fora esperando, olhando a noite estrelada. É mais tranquilo e eu aspiro o ar da mata e o cheiro da terra, escutando o barulho dos insetos e o coaxar das rãs.

A lua ainda não nasceu. Vejo em volta só estrelas. No céu, as estrelas, astros. No chão, os vagalumes, estrelas caídas do céu.

            A única coisa que atrapalha o brilho da noite faiscando nas estrelas, é a luz amarelada que sai da janela da casinha. Mas logo, logo, também isto se resolve. A luz se apaga e agora é só natureza e o seu espetáculo. No entanto, quem olhar bem, quem prestar bem atenção, vai ver que da chaminé da casinha, começam a surgir umas fagulhas, uns pontinhos luminosos, fogo subindo pro céu.

 

*   *   *

 

            João e Manoel ainda se encontraram algumas vezes na casinha, mas aquilo era perigoso. Na cidadezinha tudo se sabia, tudo se acabava sabendo. Havia que botar as coisas nos eixos, ou, como se diz, regularizar a situação, porque o que está regularizado, regularizado está.

            Para começar, João arrumou um emprego para Manoel. Na repartição, é claro, porque ali quem mandava era ele. Assim, o contato ficava mais fácil. Podia combinar os encontros, ter as conversas, sem levantar desconfianças.

            Mas, a longo prazo, era pouco. Havia que dissipar as dúvidas porque a boca do povo está sempre à cata do que é suspeito.

            É aqui que entram as três irmãs de João: Rosa Maria, a mais velha, Maria Rosa, a do meio e Rosemary, a mais nova. Três rosas em botão, três botões de rosa. Todas três querendo desabrochar, principalmente a mais velha que já estava mesmo em idade de casar. Muito tímidas, muito recatadas, estavam esperando o irmão apresentar rapaz ajuizado, decente e trabalhador, de preferência com emprego.

            Neste sentido Manoel vinha mesmo a calhar. E, de quebra, acabavam-se as dúvidas e as suspeitas. Ficava claro que com a aproximação, a amizade e o emprego novo, João estava só procurando ajudar Rosa Maria a se arrumar na vida.

            Não foi difícil convencer Manoel. Ele era flexível, versátil, pau para toda obra. O que ele queria mesmo era se arrumar na vida, sair da pobreza e da miséria que ele tinha conhecido em casa. O emprego ele já tinha arrumado, mas João podia se cansar dele, e aí como é que ia ser? Agora, entrando para a família, era diferente. Rosa Maria era menina bonita, prendada, caprichosa, sabia cozinhar e costurar. Com ajuda do cunhado, ele comprava uma casinha, que Rosa ia mantendo limpa e arrumada. E, de quebra, ganhava prestígio, reputação e ainda ganhava uma família respeitada na cidade. Que mais ele podia querer?

            Foi exatamente assim que as coisas aconteceram. Manoel e Rosa Maria se casaram e João foi o padrinho. Um ano depois tiveram um filho, um ano depois mais um, e teriam tido mais, se o tempo permitisse, e se a casa em que moravam tivesse mais espaço, mas João tinha colocado limites.

            Os encontros de João e Manoel na casinha da boca do mato tinham rareado, mas, em compensação, volta e meia, eles faziam uma viagem. A viagem era grande e demorada. João já não era mais garoto e queria a ajuda e a companhia do cunhado para carregar as malas, e resolver os problemas que iam aparecendo. Era o que dizia.

            Rosa Maria ficava, porque havia que cuidar da casa e das crianças. Na verdade, ela até preferia, porque cidade grande, terra distante, gente desconhecida, barulho e confusão, não era bem o que ela gostava. Além disso, em troca dos cuidados e da dedicação, ganhava uma mala recheada de presentes.

 

*   *   *

 

            O arranjo teria durado a vida toda se Manoel não tivesse se cansado. Um certo dia, depois de uma viagem daquelas, longa e demorada, tinha se chegado a João, no maior respeito e consideração. Não era para magoar, não era para ferir. Ele queria a amizade do cunhado, lhe queria bem, lhe tinha carinho e afeição.

            Manoel falou com cuidado, porque ali, tratava-se de sentimento e toda cautela era pouca. Mas ele, Manoel, precisava arrumar a vida, acertar o rumo, aprumar o juízo. Rosa Maria sentia sua falta e aquelas viagens longas e constantes perturbavam o ritmo e a vida do casal. E apontando para a barriga disse que já não era mais garoto.

            João compreendeu e, além disso, que mais lhe restava se não compreender? Havia que se conformar, ou então, quem sabe ....

 

*   *   *

 

            É aqui que Francisco e Maria Rosa entram na minha história. Ou melhor, é assim que a minha história continuaria, se eu quisesse que ela assim continuasse. Os detalhes da história eu só não conto, porque é mais ou menos a mesma coisa que se passou com Manoel e Rosa Maria, a narrativa e os fatos são semelhantes, e eu tenho o maior respeito pelo tempo e pela paciência do leitor.

            Depois do Francisco e da Maria Rosa tem ainda o José e a Rosemary. Mas, e depois? Como é que eu continuo a história se João só tinha três irmãs e todo estoque de planos e estratégias é finito?

            Como eu já disse no início, aqui não se trata de plano nenhum. Aqui se trata de coisas acontecendo de forma natural, naturalmente.

            Naturalmente pode ter acontecido que João, ele também, se cansasse dessa vida de viajante errante. Pode ter resolvido sossegar o facho. Pode ter construído um caramanchão na casinha na boca do mato e hoje planta orquídeas. Senta-se na rede a balançar, aproveita a brisa fresca do final da tarde e observa, como eu naquele velho tempo, as estrelas lá no céu, os vagalumes, esperando o nascer da lua.

            Para aqueles que preferem final mais trágico e menos natural, existe sempre a possibilidade, de, em algum momento, em algumas das instâncias, o plano de João não ter dado certo. Em certo instante, alguma das irmãs desconfiou das viagens prolongadas, e resolveu acabar com a farra. Devo, no entanto, dizer, que a probabilidade disto ter acontecido é remota, porque ali todo mundo só tinha a ganhar, mantendo o silêncio e a discrição.

            A terceira e última possibilidade é a que mais me atrai e é por isto que eu a deixei por último. Pode ter acontecido que José, o último dos três cunhados, não se cansasse. Pode até ser que José não criasse barriga, nem juízo, nem ficasse interessado em arrumar a vida. Não arrumou a sua vida, porque a sua vida já estava arrumada. José continua por aí, passeando com o João, viajando por este Brasil a fora, aproveitando a vida e os prazeres que ela oferece.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

O padre, o moço do estacionamento e as viúvas do confessionário

 

Na época em que eu morava encarrapitado no alto do morro com acesso a um único supermercado e nenhum banco, tendo que constantemente descer para fazer compras, eu estacionava o carro no pátio de uma igreja. Tomando conta do estacionamento e zelando pela ordem e os bons costumes tinha um moreno sessentão, forte, espadaúdo, porte ereto e desempenado. Meticuloso e exigente, ele não permitia a menor transgressão às regras que, imagino, ele próprio criara. Estacionar tinha que ser no centro da vaga e esta última era ele quem alocava de forma precisa, não admitindo questionamento, muito menos discussão. Não se podia encostar no muro que demarcava a parte frontal da vaga, mas ele também não gostava que ficasse longe. A distância não podia ser menos de 5 nem mais de 10 cm. Ele ficava olhando, avaliava cuidadosamente e frequentemente corrigia, para mais ou para menos, dependendo das circunstâncias. Fiquei imaginando. Como é que o cara tinha toda essa autoridade? Quem é que dava a ele tanto poder? Porque? Quem era o padre da igreja?

 

Aos poucos o mistério foi se revelando, às custas de muitos anos de compras no mesmo supermercado, parando o carro no mesmo estacionamento. Claro que a história pode não ser exatamente esta que eu vou contar, mas eu juro que vi, com estes olhos que a terra há de comer, o moreno forte aos cochichos com o padre da igreja. Vi também a viuvinha vistosa levando a fatia de bolo na guarita do rapaz e, muitas vezes, me dei conta da excessiva intimidade e informalidade dos seus cumprimentos e das suas conversas com as beatas da igreja. Estes são os fatos. O resto é fruto de minha imaginação, doentia ou não, não vem ao caso, porque, o que é doença e, pior, o que é sanidade mental?

 

O padre devia ter lá os seus problemas. A sucessão interminável de senhoras de meia idade que vinha ao confessionário contar os seus problemas o esgotava. Se ao menos os pecados variassem, mas não, invariavelmente se resumiam a um único: desejo. Desejo nas suas diversas formas, mas desejo é sempre desejo. Uma vez uma viúva lhe dissera com voz triste e arrependida, que tinha sonhado que o marido recém falecido a tinha possuído no leito matrimonial. O padre, condescendente, comentara: Filha, isto não é pecado. Afinal ele é seu marido. Mas não adiantara. A viúva estava convencida do caráter pecaminoso do ato sexual com um defunto. Morreu, morreu e acabou. Mas filha, não acaba. Existe a terra, e existe o céu, retrucara o padre. Sexo no céu? tinha sido o argumento que enterrara definitivamente o raciocínio do padre. Ele bem que era liberal e progressista, mas aquela pergunta tinha esbarrado nos limites da sua teologia.

 

Mas os pecados contados no confessionário não se extinguiam com os mortos. Às vezes eram olhares dirigidos ao verdureiro da esquina, uma conversa excessivamente longa com um vizinho casado, um aperto de mão seguido de um abraço por demais afetuoso, pensamentos concupiscentes, libido, luxúria, cupidez, o esbanjar de sensualidade, sexualidade em todos os cantos, prazeres da carne, labaredas e fogo a chamuscá-la. E já se estava a arder nas chamas do inferno, com Satanás empunhando o espeto e fazendo-o girar lentamente sobre as brasas.

 

De que adiantava, nestes casos, mandar rezar os Padre nossos e as Ave-marias habituais, talvez, em um caso mais grave e mais renitente, mandar até rezar o terço, se o manancial que alimentava aquele caudal era inesgotável, se a fonte que dava origem àquela torrente era inexpugnável. Não, tinha que haver outra solução fora das rezas e dos atos de contrição.

 

O padre era homem culto e lido. Na sua juventude lera até mesmo Freud. Sabia que aquela torrente ninguém pára meramente represando ou fechando o registro. A água continua a correr, acumula, aumenta a pressão, arrebenta a represa e não há registro que segure. Neste caso, melhor que fechar e represar, era ordenar e canalizar.

 

Ia nestes pensamentos, quando lhe cruza pelo caminho o moreno forte. Olhou de cima a baixo a figura, avaliou a estatura e o porte, e concluiu: Taí, é o homem certo para o serviço!

 

Educadíssimo e discretíssimo, distinto mesmo, o moço jamais iria permitir que a coisa descambasse para o vulgar, o mau-caratismo ou a cafonice. Era homem respeitável e respeitador, mas, ao mesmo tempo, e esta combinação é dificílima de se encontrar, o que tinha de distinção, tinha de sensualidade. O padre o conhecia bem. Sabia que quando ele conversava com uma mulher, pousava o olhar sobre os pontos certos, sabia mexer a boca, o sorriso assumia no momento exato, e a vista acompanhava os contornos, parando em certos acidentes de percurso, demorando-se aqui e ali a explorar as profundezas e os mistérios ocultos no recôndito de dobras e saliências.

 

Não foi difícil concretizar o plano. O confessionário não era só para os pecados, mas sobretudo o local para conselhos e recomendações. E a carência ali não era somente afetiva, mas havia muitos outros problemas a se resolver, de forma que ficava fácil fazer a ligação exata do útil com o agradável. Era uma compra mais pesada para se carregar, era uma torneira com vazamento e uma carta para se despachar nos correios. As coroas tinham problema ao estacionar e junto com a chave do carro vinha a chave do coração.

 

Sinto-me autorizado a dizer, se bem que eu não possa, como já disse, garantir, que, na maioria dos casos, a coisa não ia muito além de um aperto de mão, um olhar um pouco mais penetrante e uma mão passando pausadamente pelos ombros. Vez por outra, pode ter acontecido do moreno forte ter ultrapassado a soleira da porta de entrada do apartamento da coroa, e no caso da viúva apaixonada pelo marido morto, pode ter ocorrido o milagre da ressurreição, mas, no mais, tenho certeza que o rapaz era extremamente cioso do seu nome e das suas responsabilidades, zeloso de sua reputação e, sobretudo e principalmente, valorizava a sua liberdade e o seu descomprometimento. Não ia se meter em uma fria e não ia deixar se amarrar pelo cabresto!

 

Para o padre o arranjo tinha também suas vantagens. Primeiramente ele exercitava a sua imaginação, o que para um celibatário assumido por convicção e devoção, tem sua utilidade. Ademais, não se comprometia nos seus devaneios, porque realidade é realidade e imaginação é imaginação. Em segundo lugar, ele se colocava a serviço do amor. Ora, Cristo não pregara o amor? Se a carne estava ou não nesta jogada, era coisa secundária, coisa de somenos importância. A própria santa Igreja já mudara de concepção diversas vezes, mais carne ou menos carne, dependendo da cozinha, do cardápio, do cozinheiro, dos cardeais que frequentam a cozinha e principalmente dos ventos a soprarem no Vaticano.

 

O leitor crítico pode discordar. Pode achar que a solução encontrada pelo padre não solucionou o problema do pecado. A conversa excessivamente longa, o aperto de mão e o abraço caloroso continuavam a existir, só que agora, ao invés do verdureiro e do vizinho casado, era o moço do estacionamento. Esta mudança não seria sutil demais para tal transformação? Como é que as beatas iam se sentir assim, sem mais, livres do sentimento do pecado? Tendo a concordar com o raciocínio, mas eu acrescentaria que o diabo mora nos detalhes, ou melhor, neste caso, Deus está nos detalhes, expressão esta que, na verdade, é a origem da primeira. Tudo bem. Continuava a conversa longa, o aperto de mão e o abraço afetuoso, só que agora, intermediados pelo padre e com o aval da santa Igreja. Com a sanção e o consentimento da autoridade tudo muda de figura.