sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Poesia: garimpo e lapidação



Poesia, garimpo de idéias.
O deparar-se de repente com o veio, com o afloramento,
Quase sem saber nem como, nem donde, nem porque.
O ser avassalado pelo júbilo da gema,
Na solidão da vereda solitária, inóspito sertão.
O inesperado encontro, o encontro com o inesperado, o render-se à inspiração.

Poesia, garimpo de imagens e palavras,
Pepita, súbita luz no fundo da bateia.
Diamante, brilho no meio do cascalho.
A repentina ordem, a súbita forma clara, no selvagem e desordenado turbilhão de sentimentos.
A sorte, o acaso, o mistério,
Da natureza e seus caminhos intrincados.


Mas poesia não é só natureza, só garimpo, só inesperada inspiração...


Poesia também é ciência, lapidação.
É o trabalho paciente, horas, dias e semanas,
Lendo e relendo, virando e revirando a palavra,
Na busca da mais precisa expressão.
É o paciente tornear da pedra na caneta das idéias, é refinar, polir, retrabalhar,
É revelar o brilho escondido do pensamento na brunidura das facetas dos versos e estrofes.


Poesia também é julgamento, é balanço de efeitos,
É autor à busca de leitor, é procura no outro de outra perspectiva,
É busca de distância, distanciamento.
É observar atentamente o luzir, o faiscar, a luminescência,
Variando ângulo e luz,
Na finita infinita forma dos arranjos das palavras.


Poesia é luz e música,
Relâmpago e trovão, sol e sinfonia.
É composição de cores, trova de relampejos.
É ritmo, rima e cadência.
É o polir e o lapidar ,
Que fazem da pedra bruta, da idéia, a jóia, beleza, luz, revelação.




Este poema foi modificado em agosto de 2018 mas mantive a versão antiga porque não me considero dono da verdade e possivelmente alguns preferem a versão antiga.



Poesia: garimpo e lapidação

Poesia, garimpo de idéias.
O deparar-se de repente com o veio, com o afloramento,
Quase sem saber nem como, nem donde, nem porque.
O ser avassalado pelo júbilo da gema,
Na solidão da vereda solitária, inóspito sertão.
O inesperado encontro, o encontro com o inesperado, o render-se à inspiração.


Poesia, garimpo de imagens e palavras,
Pepita, súbita luz no fundo da bateia.
Diamante, brilho no meio do cascalho.
A repentina ordem, a súbita forma clara, no selvagem e desordenado turbilhão de sentimentos.
A sorte, o acaso, o mistério,
Da natureza e seus caminhos intrincados.


Mas poesia também é ciência, lapidação.
É o trabalho paciente, horas, dias e semanas,
Lendo e relendo, virando e revirando a palavra,
Na busca da mais precisa expressão.
É o paciente tornear da pedra na caneta das idéias, é refinar, polir, retrabalhar,
É revelar o brilho escondido do pensamento na brunidura das facetas dos versos e estrofes.


Poesia também é julgamento, é balanço de efeitos,
É autor à busca de leitor, é a procura no outro, de outra perspectiva,
É busca de distância, de distanciamento.
É observar atentamente o luzir, o faiscar, a luminescência,
Variando ângulo e luz,
Na finita, infinita, forma dos arranjos das palavras.


Se poesia é luz, também é música,
Se é relâmpago, também é trovão,
Se é sol, é sinfonia.
Composição de cores, trova de relampejos.
É ritmo, rima e cadência,.
É escuta no silêncio dos sons.


Garimpo de idéias,
Brilho das imagens e palavras,
Polir e lapidar,
Balanço de efeitos,
Consonância e dissonância,
Fazem da pedra bruta, beleza e revelação.
 

sábado, 1 de novembro de 2014

Faca, fio e genitália perdida


Muito aprendi com Mané-Gato, homem nordestino, pintor de paredes. Não que eu tenha pintado muita parede na minha vida, mas ele me ensinou, eu tive que mandar pintar, e, para mandar, tem que saber. “Massa de pintor, é pura enganação, só para embelezar, vá lá que seja para o quarto, sala, interior, mas prá chuva, vento, sol?” foi uma das lições que depois muito utilizei.

Mané-Gato falava da pele que sua na friagem, linda imagem para a parede molhada pelo orvalho da manhã. Experimentou as minhas cachaças todas, com ou sem meu consentimento, algumas ele até esvaziou, nem o casco encontrei.

Especial deferência tinha para o chapéu de couro e o matulão, pendurados num dos cantos do corredor, lembranças de uma viagem à Bahia. Passava por eles com um misto de assombro e ironia. “Que é que um sujeito destes faz com coisa sem importância, sem valor, exposta assim de quadro de parede, parecendo relíquia, pegando pó?” Mas pode ter sido também saudade de um passado que não voltava mais, de uma terra largada, abandonada, a família dele tinha ficado, mãe, irmãos, tios, primos. Não sei. Nunca falou dos abandonos, nem de terra, nem de gente.

Mais interessante foi a história do facão. Debaixo do chapéu de couro e do matulão, guardo um facão grande, dentro de bainha de couro. O facão eu mantenho sempre afiado, afiado que nem gilete. Não, não é para decepar cabeça de ninguém, muito menos a genitália, que eu quero mais é que todos mantenham a sua, para procriação da espécie, que o mundo bem que precisa. Eu sou da paz, e jamais teria coragem de ameaçar quem quer que seja, mesmo ladrão que viesse invadir a minha casa, cafajeste, insolente ou mal-educado. O facão eu uso é para cortar os galhos do jardim, alguma trepadeira indesejável, erva daninha, erva de passarinho e faca eu gosto afiada, porque faca não é martelo, prá bater.

Numa das minhas muitas ausências, Mané-Gato deve ter desembainhado o facão, certamente passou o dedo pelo fio, soltou assobio fino e agudo, experimentou cortar um talo de grama no jardim. Provavelmente repetiu o gesto mais de uma vez, deve ter comentado à noite com os colegas no boteco, num misto de orgulho e admiração, o patrão dele não era mole não. Ao certo eu não sei, mas sei pelo olhar de respeito que ele tinha ao passar pelo instrumento. Certa vez falou pra mim, olhar enviesado, canto do olho espichado para o ferro na parede “Afiada, né?”. Eu não disse nada, nem pelo sim nem pelo não, que é para manter o mistério. O que é a vida sem mistério?

Do que eu me orgulho mesmo não é do ferro nem do mistério, mas é que Mané-Gato me fez seu confidente, e ainda por cima, para coisas de amor. Não é que eu goste de fofoca, mas eu me amarro em uma boa história. Ele era casado, filhos grandes, já criados. Gostava da mulher, muito religiosa e crente, mas gostava mesmo era de uma farra e um forró. Sexta à noite, fim-de-semana, não resistia. Era grande dançador, xote, baião, xaxado, e na exibição das desenvolturas das piruetas, rodopios e rodeios, na quebrada dos requebros dos quadris acabava sempre enredando e enredado. Quando eu o conheci, já devia andar pela casa dos quarenta, mas, morena, mulata, loirinha, branquinha, sarará, nova ou muito nova, nada escapava aos seus encantos, nenhum encanto lhe escapava e a todos encantava. Falava das bobeiras dos jovens com um misto de desprezo e com a alegria de quem não dá bobeira, não deixa vago o espaço, o buraco, a brecha, a fenda, pois a natureza não gosta de vácuo.

Tanto fez, tantas armou, que o instrumento que tanto gostava de usar, quebrou a ponta ou rachou o ferro, assim ao certo eu não sei. Não deve ter embainhado corretamente a espada, eu sei que descuidou, deixou prá lá, e mais farra e mais forró e mais uso da espada, a rachadura se alastrando, a quebradura se quebrando. Acabou na mão de doutor, e aí foi duelo de espada e bisturi, Golias e David. Como na Escritura, foi o pequeno e ardiloso que ganhou e foi a espada decepada pela raiz! Sobrou um cotoco só, que fazia o serviço, quer dizer, cutucava, mas cotoco não é espada.

Mané-Gato não deixou de frequentar nem farra nem forró, muito menos deixou de balançar e requebrar, rodear e arrodear as mulatas e as branquinhas, que continuavam a cair na sua rede que nem peixe. O problema era depois o que fazer com o peixe já que o facão agora não servia nem mesmo para descamar, quanto mais para a cama. Na hora de abrir a porteira, da vaca ir para o pasto, sol e céu, corria o risco da vaca ir pro brejo, a iniciativa cair n’água, o empreendimento afundar no pântano do riso e da chacota. Ele adiava, inventava desculpa, arrumava pretexto, mal estar súbito, indisposição, compromisso inadiável. Mané-Gato tinha vergonha, não abria o segredo para ninguém. Era macheza, orgulho. Na tormenta, perdera o barco, mas não perdia a pose. Andava pela rua como se ainda estivesse no comando.

Só quem sabia mesmo do segredo era sua mulher, sua velha. Mané-Gato tentou voltar para ela. Não que a tivesse abandonado, ao menos não de casa, mas lá, a cama a muito que não era mais lugar de festa e ela, muito religiosa, tinha fechado vanguarda e retaguarda. Ele pediu, mas era tarde e ela não aceitou. Também tinha o seu orgulho. Para quem tinha conhecido a espada, ficava ruim, agora que estava velha, ficar só com o cotoco. Depois, como era muito religiosa, achou que isto de justamente acabarem com o instrumento dele, depois de tanta devassidão, na certa era castigo do céu. Para não dizer assim direto, no desafio, no descalabro, que ela não era Maria Bonita prá enfrentar homem assim no acometimento, impôs suas condições: que ele largasse farra e forró. Mané-Gato não largou!

Cláudio Thomas Bornstein

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Minas e o queijo: ciência e fé


Minha mulher é mineira, quer dizer, ela nasceu mesmo foi no Rio de Janeiro, mas a mãe dela é mineira, legítima de muitas gerações. Até mesmo eu, que nem muito brasileiro sou, me considero mineiro, por casamento. Une-nos a nós e a Minas Gerais o mesmo amor, muito mais importante que o local do nascimento: o amor ao queijo.

Lá em casa o queijo ocupa um lugar central. Não só, como seria óbvio, na geladeira, mas em todo lugar existe queijo empilhado. Empilhado? Sim, pois eu me esqueci de dizer o principal: queijo, principalmente o queijo Minas, precisa, para adquirir o sabor e a textura característica, ser curado. E a cura do queijo é uma ciência que flui por meandros tão intrincados que, nos seus limites, atinge até mesmo a fé. Como explicar de outra maneira os véus, paninhos, campânulas e redomas a cobrir e manter afastado dos olhares indiscretos a recata e alva nudez da maciez úmida da matéria? Como explicar aquele incidente, ocorrido na véspera de um casamento da família, em que eu, ao retirar o meu terno para arejar, encontrei um queijo Minas no bolso interno do meu paletó? Questionada, minha mulher respondeu com ar de santa: “Poxa, você nunca usa o terno. Além disso, lá no escurinho do armário, a temperatura e umidade são ideais!”

Real ou ideal, isto daria uma discussão para muito além da física ou metafísica. Bem físico, no entanto, foi o encontro na cama, no escurinho do meu quarto, na hora de dormir. Debaixo do meu travesseiro jazia um queijo na placidez inocente da bem-aventurança! Desta vez nem mesmo a santidade pode ser evocada. Minha mulher fez ar de surpresa e, com uma ponta de culpa e arrependimento disse: “Ih, esqueci de tirar. Aproveitei o calorzinho da manhã para iniciar a cura, mas depois eu devia ter tirado.”

A nossa geladeira daria um capítulo à parte. Pilhas de queijo enchem o compartimento superior, separadas por pequenas tábuas de madeira, cobertas por todo tipo de recipiente para, de um lado, não ressecar demais e, por outro lado, não mofar ou amargar. São obras a desafiar a inventividade de arquitetos e engenheiros e o fato de até hoje, jamais ter havido desabamento ou catástrofe, são provas mais que suficientes de que na ciência existe também a fé.

Fila de Banco - De máquinas e homens



Fui ao banco antes do dia dez, coisa que não se deve fazer. Uma sala imensa atulhada de caixas eletrônicos estava repleta de gente, suada, nervosa e irritada. Em um dos lados, uma passagem dava para uma porta giratória que levava ao andar superior onde estavam os caixas humanos. Antes da porta formava-se uma pequena fila de umas dez pessoas para o recebimento da senha, distribuída por um funcionário sentado em uma escrivaninha. Entrei na fila, pois a operação que eu precisava realizar não podia ser feita no caixa eletrônico. Na minha frente uma senhora aparentando setenta e poucos anos, apoiava-se com uma das mãos em uma bengala e com a outra em um senhor de uns cinqüenta anos que parecia ser o seu filho. O senhor estava bem tenso e logo achei que a relação entre os dois não devia ser das melhores. A fila não andava porque o funcionário, além da distribuição das senhas, dava todo tipo de informação e ainda por cima ajudava as pessoas que não sabiam utilizar os caixas eletrônicos. O senhor à minha frente foi ficando cada vez mais tenso, a cabeça movia-se em todas as direções em movimentos bruscos, lábios apertados, dentes cerrados, maxilares salientes e pequenos tiques nervosos no rosto duro.

Finalmente a fila voltou a andar, o senhor e a senhora receberam a senha, mas e a porta giratória? A velha, a bengala e o filho não cabiam no espaço da porta e, aparentemente, a velha não conseguia dispensar nenhum dos dois. Felizmente havia uma passagem lateral e o segurança do banco, detrás da parede de vidro, indicou o caminho. A senhora, no entanto, trazia uma bolsa, o senhor portava uma mochila e o segurança indicou uma abertura por onde o equipamento teria que ser introduzido, para inspeção. Acontece que a mochila não passava pela abertura. Discussão daqui, discussão dali, o senhor foi ficando cada vez mais nervoso, pequenas gotas de suor brotavam no seu rosto, movimentava-se para um lado e para o outro, largou a mão da mãe que, sem apoio, encostou-se na parede, o senhor percebeu, voltou para junto da mãe, mas a mochila, o que fazer com a mochila?

Tensão do lado de cá, tensão do lado de lá da parede de vidro. De tanta tensão fiquei com medo da corda arrebentar, quer dizer, corda não, que não havia, mas podia o vidro da porta estilhaçar, a velha podia dar uma bengalada, o filho podia jogar a mochila ou outra coisa qualquer, sabe-se lá o que havia dentro da mochila, de forma que dei dois passos para trás e já ia perder o meu lugar na fila, quando, felizmente, a questão acabou-se resolvendo, bolsa e mochila foram inspecionadas, a porta de vidro foi aberta, os dois passaram e lá se foi a velha, passinho curto e duro e o seu filho, rosto crispado, olhando em volta, visivelmente incomodado.

Passada a tensão, pensei com meus botões. Primeiro vem a automação bancária e o abismo cultural que daí resulta: senha, memorizar senha, leitura biométrica, dedo sujo ou machucado, pressão do dedo incorreta, tela eletrônica e o seu código misterioso, saber onde estão as coisas, que botão clicar, quando e como, memorizar números e dados, memorizar a receita e o caminho do menu, saber a informação a tempo, tempo cada vez mais rápido, tempo que a máquina nos rouba que é para ganhar o tempo dela, quer dizer, deles. Tudo isto reforça a marginalização: velhos, pobres, iletrados, desligados, descolados e desmemoriados.

Depois vêm as barreiras para reter a massa dos marginalizados, marginalizados que o sistema mesmo criou: câmaras de segurança, portas giratórias, sensores eletrônicos, detectores de metais, seguranças e seu arsenal de armas e armaduras. Para neutralizar os monstros que o sistema mesmo cria, crackudos, ladrões, delinquentes e psicóticos de todo tipo, o sistema cria fossos, muros, barreiras tecnológicas, verdadeira idade média. Só que com os muros e barreiras criam-se ainda mais monstros, mais muros e barreiras, seguem mais monstros, daí resultando um círculo vicioso que não é difícil imaginar onde pode terminar.

Cláudio Thomas Bornstein

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Crackudos: matar ou morrer?


Recente discussão na lista de correio eletrônico da COPPE falava da invasão da ilha do Fundão por usuários de crack. De uma maneira geral, e se não me falha a memória, os argumentos enquadravam-se nas seguintes linhas de pensamentos. Uma primeira linha falava da necessidade de reforçar o policiamento. Uma segunda linha, oposta à primeira, defendia a necessidade de compreensão do problema social por trás da questão. Uma terceira linha falava da necessidade de discussão propondo um amplo debate do problema, palestras com especialistas, etc. E, finalmente, uma quarta linha propunha a internação compulsória dos viciados em centros de reabilitação.

Evidentemente que as quatro linhas mencionadas acima são uma simplificação das dezenas de idéias contidas nas mensagens. Vou simplificar ainda mais dizendo que a primeira e a quarta linha de pensamento implicam em um caminho sem volta para o viciado. Estou supondo que a primeira opção, ou seja, o reforço do policiamento implique em detenção e, possivelmente, encarceramento dos drogados [1] . Ora, o nosso sistema penitenciário é um dos piores do mundo, as prisões são superlotadas, as condições de vida são inumanas e a droga circula livremente. Poucos, pouquíssimos conseguem escapar do círculo vicioso encarceramento – crime – encarceramento e com certeza a droga acompanha os dois tipos de elos desta corrente. Além disso, o encarceramento para delitos leves é ineficiente, pois como o nosso sistema econômico é uma enorme fábrica de marginais, para cada individuo retirado do mercado (marginal), outros dois surgem para ocupar o seu lugar. Se o encarceramento pode, infelizmente, ser necessário no caso de crimes graves, ele me parece desaconselhável em caso de crimes menores como drogadição e pequenos furtos. Por outro lado, centros de reabilitação na base da internação compulsória são uma versão maquilada do sistema prisional. Boa parte dos estudos sobre drogadição menciona que condição fundamental para libertar o sujeito do vicio é a vontade do viciado de largar a droga, condição esta automaticamente excluída pelo compulsório da internação [2]. Além disso, tratamento a base de outras drogas (desta vez legais), sem a resolução das questões psicológicas e sociais por trás do problema, dificilmente produzirá resultado satisfatório além do imenso custo, provavelmente drenado da área de saúde já carente de recursos.

A necessidade de discussão e compreensão do problema social por trás (segunda e terceira linhas de pensamento) apesar dos nobres propósitos, pouco contribui para a solução do problema a curto prazo. A invasão da ilha por usuários de crack é uma questão que exige uma resposta de curto prazo, pois o que pode estar em jogo é a vida das pessoas que trabalham ou estudam na universidade.

O que fazer? Matar ou morrer? Antes de tentar responder esta questão gostaria de ressaltar que o dilema apontado acima é característico do sistema no qual vivemos. No capitalismo, o que vigora é a lei da selva, e esta se resume exatamente em matar ou morrer.

Sim, mas o que fazer? Não sou especialista no assunto, não possuo informações suficientes de forma que não quero introduzir mais caos na confusão. No entanto, para não ficar completamente em cima do muro vou mencionar algumas coisas que, em minha opinião, não fazem parte da solução. Dentro da minha ótica a solução certamente não passa pela Polícia (com p maiúsculo), ou pelo reforço da atuação desta dentro da cidade universitária. Polícia, dentro da minha perspectiva, não é solução, é parte do problema. Além disso, Polícia (com p maiúsculo) e Universidade, dentro da minha visão, são opostos que se repelem. Hoje prendem crackudos, amanhã... sabe-se lá o que mais são capaz de fazer. Excluída a Polícia, sobra o DISEG da UFRJ, ou seja, a solução poderia ser o reforço da atuação desta instituição com a cobrança de um trabalho mais efetivo. Evidentemente o DISEG é uma espécie de polícia da UFRJ, mas, acredito que exista uma diferença significativa entre o minúsculo e o maiúsculo do p. No fundo, trata-se de uma solução de compromisso entre o matar e o morrer. Solução limpa e livre de contradições evidentemente não existe pelos motivos já apontados acima.

[1]A bem da verdade, algumas mensagens deixavam clara uma solução diferente que comento no final deste artigo.

[2]Veja por exemplo www.recovery.org.

04/2014
Cláudio Thomás Bornstein

sábado, 2 de agosto de 2014

A vida é um conto de fadas... ao menos para alguns e por algum tempo


Não me lembro exatamente onde esta história começou, mas deve ter sido num dos passeios que meus pais costumavam fazer em Teresópolis. Eles iam à frente conversando em alemão e nós, crianças, íamos fechando a retaguarda, matraqueando em português. Numa curva do caminho, ou pede ter sido uma reta, não me lembro bem, no sentido oposto ao nosso, vinha uma senhora e uma criança mais ou menos da nossa idade. A medida que a gente se aproximava os olhares da senhora tornavam-se mais insistentes, visivelmente interessada na conversa dos adultos. Abordou-nos e se apresentou. Era a governanta alemã do menino que, se não me falha a memória, chamava-se Eduardo Guinle. A conversa foi curta, pois o assunto era pouco, mas, ao se despedir, a governanta convidou a nós, crianças, para no dia seguinte ir fazer-lhes uma visita.

Fomos. Eu, muito tímido e muito envergonhado, relutei, mas os outros insistiram. Chegamos até o portão de onde se abria um imenso jardim francês, gramados a estender de vista, pequenos canteiros floridos muito bem cuidados e lá longe, algumas construções. O porteiro nos mandou esperar e depois de alguns minutos, surgiu a governanta e o menino da véspera, convidando-nos a entrar. Dirigimo-nos para uma das construções que nada mais era do que uma casa destinada a abrigar as centenas de brinquedos do menino. Uma garagem imensa estava atulhada de carrinhos elétricos e de pedal. Quartos tinham tudo que uma criança poderia sonhar e imaginar, diversos modelos de trem elétrico, uma coleção de carrinhos Schuco, carros para dirigir a distância com cabo, caixas de montar, casinhas de todos os tamanhos, uma cidade em miniatura. Os brinquedos eram tantos que ficamos, qual barata tonta, correndo de um lado para o outro, de um brinquedo para o próximo. O menino, não me lembro muito bem da interação com ele, mas deve ter ficado de dono da bola a comandar as brincadeiras.

Voltamos ainda algumas vezes naquele verão e também nos verões seguintes. Depois, o tempo foi desfazendo a ligação e os interesses e imagino que a partir de determinada época, também o alemão e a governanta. Ficou foi a memória de um mundo dourado, um sonho de riqueza e esplendor.

sábado, 19 de julho de 2014

Barroco Mineiro



“Eu sou um homem rural!” A expressão soava meio deslocada nos corredores da repartição, pilhas de papeis sobre as mesas, arquivos, pastas e computadores. Depois explicou melhor. Vinha de uma cidadezinha pequena nas cercanias de Ouro Preto. E com o olhar saudoso falou da mãe, dos irmãos, do antigo casarão, do velho armazém de secos e molhados, do jogo de bola de gude no pátio do colégio e dos cochichos do padre com a viúva no confessionário.

Barroco mineiro foi como eu o apelidei pelos volteios da conversa, pelas sinuosidades do pensamento. Ele não gostou. Devia preferir-se gótico, mais para cardeal do que para Aleijadinho. Falava palavras difíceis, expressões empoladas, frequentemente arcaísmos e ficava olhando de lado, estudando o efeito. Gostava de sentir-se centro, gostava que se lhe reconhecesse a importância e era dado a mesuras, rapapés e reverências. Tudo que dizia se enchia logo de esplendor. Como se acreditava de esquerda, procurava ressaltar o seu lado simples e popular, mas fazia-o com tal pompa que água transformava-se em champanha e areia em ouro em pó.

Uma vez, nas minhas andanças por Minas Gerais, tive oportunidade de visitar a cidadezinha onde o Alves tinha se criado. Achei que ia propiciar-lhe uma alegria não só pela deferência, pela lembrança e pela atenção como também pelas notícias e novidades que eu ia trazer de lá. Na parte velha da cidade, que se resumia a uma colina coroada pela igrejinha, fui fazer a minha busca. Infelizmente não consegui encontrar a viúva nova e bonita, nem o padre, mesmo porque talvez os dois já devessem estar longe e juntos, ou, mais realisticamente, já devessem estar a muito separados, espalhados por aí, cada um por um canto, mas no pergunta daqui, pergunta dacolá, acabei descobrindo o velho armazém. Estranhei a porta meio encostada, mas bati assim mesmo. Uma voz mandou-me entrar. Na penumbra demorei a enxergar os dois velhinhos sentados em tamboretes de madeira, debruçados sobre o balcão. As prateleiras estavam quase vazias. Aqui e ali, garrafas de refrigerante, pinga, conhaque, embalagens de biscoito e batata frita. Uma geladeira devia ter cerveja, mas não abri para conferir. Apresentei-me, falei o nome do amigo, mas torpor, modorra e silêncio pouco foram afetados pelas palavras. Eu olhava em volta, as prateleiras empoeiradas, teias de aranha pelos cantos, a penumbra e o cheiro de mofo misturado com creolina. Eles devem ter sentido o incômodo, porque só depois de uma longa pausa foi que surgiu o comentário: “É, deve estar no bem bom lá no Rio de Janeiro. Há muito que não aparece. Na certa se esqueceu de nós.” Fiquei sem jeito e a conversa acabou morrendo. Restou um silêncio incômodo e resolvi me despedir não sem antes perguntar pelo velho casarão. Um irmão ainda morava por lá.

A conversa com o irmão não foi muito melhor e também o velho casarão não devia estar em melhor estado que o armazém porque o irmão nem mandou entrar. Ficamos conversando na soleira da porta. Não serviu café, não ofereceu bolo, nem ao menos uma fatia de queijo. Nas entrelinhas, nas pausas e nos silêncios ia se esgueirando o ressentimento, o azedume e o acabrunhamento.

De volta ao Rio procurei o Alves. Achei que ao menos ia ficar contente com a deferência e a atenção. Mas o Alves não era bobo. Às primeiras palavra percebeu o descompasso e a desproporção entre sonho e realidade. A cabeça foi baixando, o sorriso amarelou e as costas foram se encurvando, sob o peso dos pensamentos. 



Barroco Mineiro (*)

“Eu sou um homem rural!” A expressão soava meio deslocada nos corredores da repartição, pilhas de papeis sobre as mesas, arquivos, pastas e computadores. Depois explicou melhor. Vinha de uma cidadezinha pequena nas cercanias de Ouro Preto. E com o olhar saudoso falou da mãe, dos irmãos, do antigo casarão, do velho armazém de secos e molhados, do jogo de bola de gude no pátio da escola e dos cochichos do padre com a viúva nova e bonita no confessionário.

Barroco mineiro foi como eu o apelidei pelos volteios da conversa, pelas sinuosidades do pensamento. Ele não gostou. Devia preferir-se gótico, mais para cardeal do que para Aleijadinho. Era dado a mesuras, rapapés e reverências. Falava palavras difíceis, expressões empoladas, arcaísmos e ficava olhando de lado, estudando o efeito. Gostava de sentir-se centro, gostava que se lhe reconhecesse a importância.

Como se acreditava de esquerda, procurava ressaltar o seu lado simples e popular. Vinha daí a ênfase no rural e no interiorano. Fazia-o, no entanto, com tal pompa e circunstância que água transformava-se em champanha e areia em ouro em pó.

Uma vez, nas minhas andanças por Minas Gerais, tive oportunidade de visitar a cidadezinha onde ele tinha se criado. Achei que ia propiciar-lhe uma alegria não só pela deferência, pela lembrança e pela atenção como também pelas notícias e novidades que eu ia trazer de lá. Na parte velha da cidade, que se resumia a uma colina coroada pela igrejinha, fui fazer a minha busca. Não consegui encontrar a viúva nova e bonita, nem o padre, mesmo porque talvez já devessem estar longe e casados, ou, mais realisticamente, deviam estar é separados, espalhados por aí, cada qual por um canto.

Pergunta daqui, pergunta dacolá, acabei descobrindo o velho armazém. Estranhei a porta meio encostada, mas bati assim mesmo. Uma voz arrastada mandou entrar. Na penumbra demorei a enxergar os dois velhinhos sentados em tamboretes de madeira, debruçados sobre o balcão. As prateleiras estavam quase vazias. Aqui e ali, garrafas de refrigerante, pinga, conhaque, bagaceira, embalagens de biscoito e batata frita. Uma geladeira devia ter cerveja, mas não abri para conferir. Apresentei-me, falei o nome do amigo, mas nada havia ali que rompesse o torpor, a modorra e o silêncio. Eu olhava em volta, as prateleiras empoeiradas, teias de aranha pelos cantos, a penumbra e o cheiro de mofo misturado com creolina. Eles devem ter sentido o incômodo, porque depois de algum tempo surgiu o comentário: “Deve estar no bem bom lá no Rio de Janeiro. Há muito que não aparece. Na certa se esqueceu de nós.” Fiquei sem jeito e a conversa acabou morrendo. Restou um silêncio incômodo e resolvi me despedir não sem antes perguntar pelo velho casarão. Um irmão ainda morava por lá.

A conversa com o irmão não foi melhor e o velho casarão não devia estar em melhores condições, porque o irmão nem mandou entrar. Ficamos conversando na soleira da porta. Não serviu café, não ofereceu bolo, nem ao menos uma fatia de queijo. Nas entrelinhas, nas pausas e nos silêncios ia se esgueirando o ressentimento, o azedume e o acabrunhamento.

De volta ao Rio procurei pelo mineiro da repartição. Achei que ia ficar contente com a deferência e a atenção. Eu tinha mudado a minha rota, passado uma tarde na cidadezinha e esperava que ele ao menos reconhecesse a importância que eu lhe tinha dado. Mas ele não era bobo. Às primeiras palavras logo percebeu o descompasso e a desproporção entre o meu relato e o dele. A cabeça foi baixando, o sorriso amarelou e as costas foram se encurvando, sob o peso dos pensamentos.  

(*) Versão nova escrita em março de 2021