quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Povo



Olhando em volta,
Vejo,
O povo:
Cabisbaixo e silencioso,
Olho no celular,
Dedo no joguinho.
E, penso:
Nenhuma solução existe
Fora do povo.

domingo, 7 de abril de 2019

Só mais um cigarrinho...



            Ele só queria poder morrer em paz e fumar um último cigarrinho. Mas, que nada! Era jogo de pingue-pongue, raquetada de um lado, raquetada do outro. De um lado a irmã, do outro lado a ex-mulher.
            “Eu já não aguento mais, Rejane. Você tem que dar um jeito de tirar este homem daqui. Transformou a minha vida em um inferno. Não sou mais criança e mal tenho condição de cuidar de mim. Quanto mais de um velho, ranheta e teimoso como uma mula.” Ana, a irmã, tinha ligado para Rejane, a ex-mulher, para desabafar. Marcelo não tinha mais condição de morar sozinho. Estava com um câncer terminal e o médico tinha dado somente mais algumas semanas.
            Rejane pensava. A mãe-de-santo tinha dito que a semana ia ser cheia de oportunidades. “Vou ver o que eu posso fazer. Aqui perto de casa tem um apartamento vago, três quartos. Com a atual crise não vão alugar nunca. Vou tentar regatear. A Silvinha está procurando casa para morar e ela bem que podia dar uma ajudazinha para cuidar do Marcelo.”
            Em um quarto ela colocava o Marcelo. Tinha que cuidar bem que é para ver se ele durava mais um pouco. Afinal, deles ali, era o único que tinha grana. Ex-funcionário do Banco do Brasil, tinha uma bela aposentadoria que dava para pagar o apartamento e ainda sobrava para mais umas coisinhas.
            O outro quarto ficava com a Silvinha. Ela tinha ligado há dois dias, voz chorosa: “Mãe, acabou. Vou ter que sair daqui.” Era outra que o jogo da vida não dava descanso. Passava de mão em mão, as vezes mão de homem, as vezes mão de mulher que ali não havia fidelidade ideológica. Era o que pintava, o que o momento permitia, ou o tesão.
            Silvinha era menina bonita. Traços finos, nariz afilado, boca pequena, mas carnuda, tez morena. Passava o maior tempo na praia, vendendo artesanato. Pena eram aqueles penduricalhos, anéis, ganchos a perfurar a carne, argolas penduradas no lóbulo do nariz, orelha, alfinetes espetados no umbigo e sabe-se lá mais aonde. Também, pudera, tinha a quem puxar! Rejane não tinha anéis, ganchos, brincos a perfurar o corpo, não tinha alfinetes espetados na carne, mas eram tantos os balangandãs, pulseiras, colares, fitas, que o efeito era quase o mesmo. As carnes fartas derramavam-se por todos os rasgos, decotes e aberturas da roupa e quando ela caminhava pela calçada mais parecia uma barca em dia de mar agitado, chacoalhando e balançando de um lado para o outro.
            Rejane continuava pensando. Sobrava um quarto. Bem que ela podia colocar todas aquelas tralhas que estavam atulhando o seu apartamento e infernizando a sua vida. Como  o novo apartamento era pertinho, cada vez que fosse visitar o Marcelo levava uma sacola e assim ia liberando espaço. E Rejane concluiu: “Ana, vai levando com calma, que a gente vai encontrar uma solução. Concordo com você, o Marcelo não é mole. Eu bem que sei. Deixa eu desligar que já estou atrasada. Passo hoje lá no apartamento novo e vou estudar as condições. Ligo para você mais tarde.” Rejane desligou o aparelho e saiu zunindo.
Rejane falou com Silvinha que topou. Ia poder fumar o seu baseado que o Marcelo nem ia notar. Falou também com o Marcelo, mas nem precisava porque na situação em que ele se encontrava, tinha mesmo era que aceitar. Ia morar aonde, agora que a Ana não o queria mais?
O dono do apartamento novo aceitou a oferta. O lugar era espaçoso e cabia tudo, o Marcelo, a Silvinha e mais a tralha . O banheiro era grande, dava até para cadeirante, o que, por hora não era necessário, mas, nunca se sabe. O problema era o fiador. O dono não abrira mão da exigência. Rejane coçava a cabeça, cenho enrugado. Ali ninguém tinha apartamento. Ela morava em imóvel alugado, Ana também. Silvinha não tinha nada. Só se o João Eduardo...
João Eduardo era filho do primeiro casamento do Marcelo. Depois da separação de Rejane, pai e filho tinham ido morar no apartamento do primeiro. Em função da doença, João Eduardo tinha convencido Marcelo a passar o apartamento para o seu nome. Como este ia morar com a irmã, não precisava mais de moradia própria. Marcelo, conformado, concordara. João Eduardo nunca aceitara Rejane, e era uma maneira de tentar a reconciliação.
O problema era que João Eduardo era osso duro de roer. Vagabundo, não fazia nada. Passava os dias ao léu, alegando sempre estar à procura de emprego. Também, pudera, tinha estudado administração de empresas. Ora, administrador todo mundo é. Quero ver, pegar no pesado, descascar o abacaxi. Assim pensava Rejane. Na família dela todo mundo trabalhava. Até mesmo a Silvinha fazia os seus bicos.
Rejane pensava. Era melhor deixar a tarefa ingrata do contato com o João Eduardo para a Ana. Ela era a tia, eles que se entendessem. Era Ana quem tinha maior interesse na questão, livrar-se daquele peso morto, ou melhor, quase morto.
Ana concordou. Ligou para o João Eduardo e explicou a situação, tim-tim por tim-tim, as dificuldades, a idade avançada, a ranhetice do irmão. Não dava mais. Deixou até subentendido, muito vagamente para não ofender, que o dever de cuidar do pai era do filho e não da irmã. Falou cheia de dedos, com muito cuidado, mas era preciso mencionar, despertar os sentimentos, o remorso, a consciência. Só o que Ana não precisava ter falado era que a idéia do novo apartamento era da Rejane. Nem precisava ter dito que a Silvinha ia morar lá.
“A Silvinha? A Silvinha não suporta o velho. Como é que o velho aceitou, isto é que eu não entendo. Deve estar gagá. Vai ver que nem falaram com ele. Montaram a arapuca e botaram o velho à força. Do jeito que ele está, tem que aceitar. É tudo armação da Rejane. Quer resolver os seus problemas às nossas custas. O dindim para pagar esta orgia, vai ser do velho. É nisso que ela está de olho.” João Eduardo fez uma pausa que Ana aproveitou para insistir. Mas já não adiantava mais. João Eduardo a interrompeu e deu o argumento definitivo, infalível: “No mais, tia, nem adianta, porque eu não posso ser o fiador. O dono não vai aceitar. Nós fizemos a escritura, o velho passou o imóvel para o meu nome, mas não fiz o registro. Não fiz por falta de grana.”
Ana colocou o telefone no gancho e ligou para Rejane para comunicar o resultado. João Eduardo não estava com a documentação em dia e o proprietário do apartamento novo não ia aceitá-lo como fiador.
           O jeito era voltar para o pingue-pongue. Uma semana Marcelo passava na casa da irmã, e uma semana na casa da ex-mulher. Silvinha? Silvinha logo arrumou um namorado com casa em Búzios. E João Eduardo, é claro, não providenciou o RGI. Agora ele sabia que além de economizar a grana, isto tinha lá as suas vantagens. O único problema não resolvido era o cigarrinho. Nem mesmo no táxi que o levava da casa da irmã para a casa da ex-mulher Marcelo tinha liberdade para fumar.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Na fila da farmácia



“A vovó viajou a noite toda. O vôo foi longo e cansativo.” disse a velha dirigindo-se a um menino de cerca de sete anos. Para o menino, cansaço era uma palavra que não dizia nada. Em contrapartida, a palavra vôo lembrava um monte de guloseimas, de forma que ele perguntou: “E o lanche vó, como é que foi?”
“A vovó não come no avião.” A resposta, seca e ríspida, na certa era para cortar de vez o tema e evitar perguntas embaraçosas. A velha devia ter lá os seus problemas de saúde e não queria dar detalhes, ou então, era porque não tinha guardado nada para o netinho e estava com a consciência pesada.
Uma senhora mais jovem, cabelos tingidos de louro, amarrados em forma de coque surgiu e, dirigindo-se ao menino, disse, de dedo em riste: “Espere aqui e não saia do lugar. Vou ali e já volto.” Era um pouco corpulenta para os quarenta anos que aparentava ter e guardava ainda uns restos de beleza que lutavam contra a flacidez adiposa, a maquilagem excessivamente pesada e, principalmente, os óculos escuros, espelhados.
Esqueci de dizer que nos encontrávamos, a velha, a jovem senhora, o menino e eu em uma longa fila do caixa de uma farmácia. A fila não andava, e na falta do que fazer, eu prestava atenção na conversa dos três que estavam atrás de mim. A moça, nem tão moça assim, devia, na certa, ter notado o meu interesse, porque ajeitou os cabelos e alisou o vestido.
A avó tinha se afastado da fila para fazer um reconhecimento de terreno e a jovem senhora tinha se dirigido a uma prateleira de cremes de beleza. Ficou somente o menino que, entediado, remexia um cesto grande, com barras de chocolate em promoção.
Farmácia e chocolate não deixa de ser uma contradição, foi o que eu pensei. Mas deviam estar exercitando a dialética, ou então, era por conta dos valores medicinais do cacau. Lembrei-me também que o cacau era usado como dinheiro pelos astecas, e esta explicação me satisfez.
Entrementes, a mãe tinha voltado do seu giro. Trazia nas mãos um frasco. Também a velha voltara, de forma que estávamos todos os quatro de novo reunidos. “Esta loção é excelente para retirar a maquilagem. Deixa a pele fresca e rejuvenescida.” Falava como se fosse um comercial.
“Eu só uso da marca B.” foi a resposta da velha para demarcar o terreno e deixar bem clara a diferença. A filha tinha optado pela marca A, mais barata.
Foi o menino que interrompeu a competição. Tirando uma barra de chocolate do cesto, ele perguntou: “Vovó, compra pra mim?”
“Vovó compra o que você quiser.” A resposta tinha sido dada para demarcar ainda mais as diferenças. Achando, no entanto, que desta vez tinha ido longe demais, a velha ajuntou, corrigindo: “Até onde o dinheiro der.”
O menino nem notara a correção. Sentindo-se incentivado na sua gulodice tirou mais uma barra de chocolate o que obrigou a mãe a interceder: “Chega! Agora chega! Duas barras são o suficiente.” e virando-se para a avó, lançou um olhar de repreensão.
Como sua tentativa de expandir limites e fronteiras esbarrara em terreno pantanoso, a avó foi obrigada a mudar de tema. Com ar preocupado disse, dirigindo-se à filha: “Estou preocupada. Acho que fiz uma besteira. Comprei uma passagem aérea, mas nem sei se vou poder viajar.”
“E para onde é?”
“É para Paris. A passagem estava muito barata e dava para parcelar. É que sempre acabo deixando para a última hora e aí, em cima da data, a passagem fica caríssima.”
A filha, que possivelmente jamais tinha saído do Brasil, estava a exercitar a sua tolerância. Mas a velha tinha acabado de chegar, fizera viagem longa e cansativa. Tinha que aguentar. Se brigasse agora, como é que ia ficar? Tentando contemporizar, atenuou o problema: “Mãe, não se preocupe. Se não puder viajar desta vez, você remarca o bilhete.”
A velha, no entanto, guardava para si o direito da última palavra: “Para remarcar tem que pagar taxa. E a passagem só tem validade por um ano.” Deixava claro que na administração da riqueza não se podia dar bobeira. Tinha que se estar atento a todos os detalhes. Para garantir que a última palavra ia ser a dela, resolveu mudar novamente de assunto. Virando-se para a filha, disse, cheia de reticências e subentendidos: “E aí, como é que vão indo as coisas?” No vão indo é que tinha sido colocado o acento, talvez porque dentro da perspectiva da velha, se tratasse de algo dinâmico, fugaz e passageiro. O olhar, lançado de soslaio ao menino, deixava claro o porquê das reticências e dos subentendidos.
“Pior do que você imagina.” foi a resposta da jovem senhora, talvez porque ela não concordasse com o fugaz e passageiro.
Ficava claro, no entanto, que entre filha e mãe havia mais do que só disputa de limites e fronteiras. Havia agora no ar uma certa cumplicidade que, para mim, tornava a conversa mais interessante. Infelizmente, no entanto, chegara a minha vez de ser atendido na fila. Antes que a velha me cutucasse e me lançasse impropérios, num arranco me desgarrei do grupo e me dirigi ao caixa.