quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Seu Pescocinho

Numa das nossas idas à Serra da Bocaina, entre Bananal e São José do Barreiro, RJ, querendo visitar o Parque Nacional fiquei sabendo da péssima estrada, em parte mérito (ou será demérito?) do IBAMA, que vê no homem um predador, quando, pelo contrário, devia o dito órgão ver no homem um amigo da natureza, ou, ao menos, tentar fazê-lo (não seria esta justamente a sua principal tarefa?). Com medo da estrada me dirigi ao dono da pousada onde estávamos hospedados e este prontamente me recomendou seu Pescocinho, ou melhor, o táxi dele.

Fiquei sabendo através do dono da pousada, que seu Pescocinho era vereador. Mas o município era pequeno, a arrecadação baixa, o homem era humilde, de poucas posses, de forma que era obrigado a ajudar no sustento da casa, transportando os turistas. Na câmara a sua atuação era discreta, discretíssima. Como a verba era pouca e não dava para grandes obras, ficava mais barato as discussões do legislativo girarem em torno da mudança do nome da praça, ou então, concentrarem-se na seleção do candidato para o título de cidadão honorário do município. Na câmara os discursos se sucediam interminavelmente e os ilustres tribunos disputavam a eloquência principalmente através da veemência e da extensão dos argumentos. Seu Pescocinho não resistia, a cabeça pesava, o pescoço dobrava, a coluna vergava e todo ele se arredondava. Na hora da votação, no entanto, o cutucão dos colegas, o levava de volta ao dever. Seu Pescocinho não se embaraçava. O olhar certeiro o levava a acompanhar o gesto, não de todos, pois  nem todos votavam da mesma maneira, nem de qualquer um, que seu Pescocinho tinha posição política, mas, às vezes de um, às vezes de outro, ele tinha as suas preferências.

No dia marcado para o passeio seu Pescocinho apareceu acompanhado de seu Fusquinha e pegamos a estrada. Era pedra, pedregulho, vala, costeleta e às vezes tudo isto junto, somado e multiplicado. Seu Pescocinho, pé embaixo, não estava nem aí para as gretas, sulcos, cortes, enfim, as mazelas e os ferimentos da mãe terra. Pairava incólume, muito acima dos sacolejos e solavancos. Em certo momento, para compor o clima, puxou do bolso uma gaita. Uma mão ia no volante e com a outra fazia a gaita dançar sobre os seus lábios. Na hora da troca da marcha é que era o problema. Seu Pescocinho trocava a gaita de mão e com a direita livre trocava a marcha. O volante? Ia na mão de Deus!

Se seu Pescocinho tinha uma ligação com o Além, isto eu não sei dizer ao certo. Mas o seu Fusca não tinha. Prova disto é que numa curva mais fechada, ou talvez tenha sido uma vala mais profunda, ou uma pedra mais alta, o carro arriou. Saltamos do carro e coçamos a cabeça que é o que dá para fazer nestas situações. Quer dizer, seu Pescocinho não, pois ele já tinha o diagnóstico pronto. Não só tinha o diagnóstico como tinha também a solução e, resoluto, puxou do fundo do compartimento de bagagem uma corda com a qual ele amarrou o facão ao eixo do carro.

Se Deus erra, então também seu Pescocinho tinha o direito de errar. De fato, o remendo, que é o que a gente, com propriedade, pode chamar o concerto feito de corda juntando aço, durou uns quinhentos metros e, novamente, o carro arriou. Mas seu Pescocinho não se aperreava. Ele tinha soluções na cachola como outros têm coelhos na cartola. Mandou a gente esperar e não tardou quinze minutos para surgir, como por passe de mágica, não com um coelho, que a região era de mata e os coelhos preferem o campo, mas, pasmem, com outro Fusca. Depois viemos a saber, que seu Pescocinho tinha uma rede de compadres e amigos com Fuscas, ao longo de toda a estrada.

O resto do passeio? Ora, o resto do passeio foi o habitual: cachoeiras, mata, o frescor da natureza, o céu azul e o ar límpido. O que ficou mesmo foi seu Pescocinho e o seu toque de originalidade, suas soluções para lidar com a adversidade.