Na época em que eu morava encarrapitado no alto do morro com acesso a um único supermercado e nenhum banco, tendo que constantemente descer para fazer compras, eu estacionava o carro no pátio de uma igreja. Tomando conta do estacionamento e zelando pela ordem e os bons costumes tinha um moreno sessentão, forte, espadaúdo, porte ereto e desempenado. Meticuloso e exigente, ele não permitia a menor transgressão às regras que, imagino, ele próprio criara. Estacionar tinha que ser no centro da vaga e esta última era ele quem alocava de forma precisa, não admitindo questionamento, muito menos discussão. Não se podia encostar no muro que demarcava a parte frontal da vaga, mas ele também não gostava que ficasse longe. A distância não podia ser menos de 5 nem mais de 10 cm. Ele ficava olhando, avaliava cuidadosamente e frequentemente corrigia, para mais ou para menos, dependendo das circunstâncias. Fiquei imaginando. Como é que o cara tinha toda essa autoridade? Quem é que dava a ele tanto poder? Porque? Quem era o padre da igreja?
Aos poucos o mistério foi se revelando, às custas de muitos anos de compras no mesmo supermercado, parando o carro no mesmo estacionamento. Claro que a história pode não ser exatamente esta que eu vou contar, mas eu juro que vi, com estes olhos que a terra há de comer, o moreno forte aos cochichos com o padre da igreja. Vi também a viuvinha vistosa levando a fatia de bolo na guarita do rapaz e, muitas vezes, me dei conta da excessiva intimidade e informalidade dos seus cumprimentos e das suas conversas com as beatas da igreja. Estes são os fatos. O resto é fruto de minha imaginação, doentia ou não, não vem ao caso, porque, o que é doença e, pior, o que é sanidade mental?
O padre devia ter lá os seus problemas. A sucessão interminável de senhoras de meia idade que vinha ao confessionário contar os seus problemas o esgotava. Se ao menos os pecados variassem, mas não, invariavelmente se resumiam a um único: desejo. Desejo nas suas diversas formas, mas desejo é sempre desejo. Uma vez uma viúva lhe dissera com voz triste e arrependida, que tinha sonhado que o marido recém falecido a tinha possuído no leito matrimonial. O padre, condescendente, comentara: Filha, isto não é pecado. Afinal ele é seu marido. Mas não adiantara. A viúva estava convencida do caráter pecaminoso do ato sexual com um defunto. Morreu, morreu e acabou. Mas filha, não acaba. Existe a terra, e existe o céu, retrucara o padre. Sexo no céu? tinha sido o argumento que enterrara definitivamente o raciocínio do padre. Ele bem que era liberal e progressista, mas aquela pergunta tinha esbarrado nos limites da sua teologia.
Mas os pecados contados no confessionário não se extinguiam com os mortos. Às vezes eram olhares dirigidos ao verdureiro da esquina, uma conversa excessivamente longa com um vizinho casado, um aperto de mão seguido de um abraço por demais afetuoso, pensamentos concupiscentes, libido, luxúria, cupidez, o esbanjar de sensualidade, sexualidade em todos os cantos, prazeres da carne, labaredas e fogo a chamuscá-la. E já se estava a arder nas chamas do inferno, com Satanás empunhando o espeto e fazendo-o girar lentamente sobre as brasas.
De que adiantava, nestes casos, mandar rezar os Padre nossos e as Ave-marias habituais, talvez, em um caso mais grave e mais renitente, mandar até rezar o terço, se o manancial que alimentava aquele caudal era inesgotável, se a fonte que dava origem àquela torrente era inexpugnável. Não, tinha que haver outra solução fora das rezas e dos atos de contrição.
O padre era homem culto e lido. Na sua juventude lera até mesmo Freud. Sabia que aquela torrente ninguém pára meramente represando ou fechando o registro. A água continua a correr, acumula, aumenta a pressão, arrebenta a represa e não há registro que segure. Neste caso, melhor que fechar e represar, era ordenar e canalizar.
Ia nestes pensamentos, quando lhe cruza pelo caminho o moreno forte. Olhou de cima a baixo a figura, avaliou a estatura e o porte, e concluiu: Taí, é o homem certo para o serviço!
Educadíssimo e discretíssimo, distinto mesmo, o moço jamais iria permitir que a coisa descambasse para o vulgar, o mau-caratismo ou a cafonice. Era homem respeitável e respeitador, mas, ao mesmo tempo, e esta combinação é dificílima de se encontrar, o que tinha de distinção, tinha de sensualidade. O padre o conhecia bem. Sabia que quando ele conversava com uma mulher, pousava o olhar sobre os pontos certos, sabia mexer a boca, o sorriso assumia no momento exato, e a vista acompanhava os contornos, parando em certos acidentes de percurso, demorando-se aqui e ali a explorar as profundezas e os mistérios ocultos no recôndito de dobras e saliências.
Não foi difícil concretizar o plano. O confessionário não era só para os pecados, mas sobretudo o local para conselhos e recomendações. E a carência ali não era somente afetiva, mas havia muitos outros problemas a se resolver, de forma que ficava fácil fazer a ligação exata do útil com o agradável. Era uma compra mais pesada para se carregar, era uma torneira com vazamento e uma carta para se despachar nos correios. As coroas tinham problema ao estacionar e junto com a chave do carro vinha a chave do coração.
Sinto-me autorizado a dizer, se bem que eu não possa, como já disse, garantir, que, na maioria dos casos, a coisa não ia muito além de um aperto de mão, um olhar um pouco mais penetrante e uma mão passando pausadamente pelos ombros. Vez por outra, pode ter acontecido do moreno forte ter ultrapassado a soleira da porta de entrada do apartamento da coroa, e no caso da viúva apaixonada pelo marido morto, pode ter ocorrido o milagre da ressurreição, mas, no mais, tenho certeza que o rapaz era extremamente cioso do seu nome e das suas responsabilidades, zeloso de sua reputação e, sobretudo e principalmente, valorizava a sua liberdade e o seu descomprometimento. Não ia se meter em uma fria e não ia deixar se amarrar pelo cabresto!
Para o padre o arranjo tinha também suas vantagens. Primeiramente ele exercitava a sua imaginação, o que para um celibatário assumido por convicção e devoção, tem sua utilidade. Ademais, não se comprometia nos seus devaneios, porque realidade é realidade e imaginação é imaginação. Em segundo lugar, ele se colocava a serviço do amor. Ora, Cristo não pregara o amor? Se a carne estava ou não nesta jogada, era coisa secundária, coisa de somenos importância. A própria santa Igreja já mudara de concepção diversas vezes, mais carne ou menos carne, dependendo da cozinha, do cardápio, do cozinheiro, dos cardeais que frequentam a cozinha e principalmente dos ventos a soprarem no Vaticano.
O leitor crítico pode discordar. Pode achar que a solução encontrada pelo padre não solucionou o problema do pecado. A conversa excessivamente longa, o aperto de mão e o abraço caloroso continuavam a existir, só que agora, ao invés do verdureiro e do vizinho casado, era o moço do estacionamento. Esta mudança não seria sutil demais para tal transformação? Como é que as beatas iam se sentir assim, sem mais, livres do sentimento do pecado? Tendo a concordar com o raciocínio, mas eu acrescentaria que o diabo mora nos detalhes, ou melhor, neste caso, Deus está nos detalhes, expressão esta que, na verdade, é a origem da primeira. Tudo bem. Continuava a conversa longa, o aperto de mão e o abraço afetuoso, só que agora, intermediados pelo padre e com o aval da santa Igreja. Com a sanção e o consentimento da autoridade tudo muda de figura.
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