segunda-feira, 5 de outubro de 2009

RILKE - 1a. Parte

O meu contato mais íntimo com Rilke, afora algumas leituras esparsas e superficiais e o texto em prosa A balada do amor e morte do alferes Christoph Rilke, que eu tinha escutado em um LP compacto, foi em um CD que eu trouxe da Alemanha com poemas de amor lido por Christian Redl. Entendi uns 10% mas fiquei impactado pela beleza e a força das imagens, pelo melodioso da língua e do ritmo. Sentindo que estava perdendo muito, fui na internet buscar os poemas, imprimi e passei alguns meses lendo. Todo dia lia um ou dois poemas, botava de lado e no outro dia voltava a insistir. Dos quarenta poemas consegui entender uns quatro ou cinco, dos demais entendi um ou outro pedaço. De onde resultava entendimento, sacudia-me o espanto: como é que o cara conseguiu escrever isto? Algum pacto com o além? O que mais me espanta é o processo criativo por trás. As imagens invocadas são totalmente não convencionais, nada das metáforas usuais que se utiliza para falar do amor, a construção das imagens não tem nada com o foco tradicional que o tema recebe no mundo real e, no entanto, é realidade. A musicalidade da poesia de Rilke advém de uma rima toda espalhada pelos versos com tal engenhosidade que resultam versos dentro dos versos num intrincado de melodias que se entranham numa trama cuja lógica não consigo perceber. Que tipo de poesia é esta?

Hoje de manhã ao fazer a barba resolvi voltar a botar o CD. Não consegui, isto é, não consegui fazer a barba, ou melhor, para fazer a barba tive que desligar o aparelho. E veio a luz, ao menos um pouco de luz. Em Rilke o amor é reduzido, o amor é elevado à essência. É um processo de destilação em que do corpo é extraído espírito. É espiritualidade, é um amor metafísico, mas não, não é nada disto. Porque espírito, metafísica, lembra algo etéreo, irreal. E Rilke é concreto, é real, é matéria. A imagem que me veio na hora foi que do concreto Rilke faz o abstrato, ou seja, extrai a essência, mas não contente com isto, volta ao concreto, ou seja, condensa a essência em imagens da realidade. Concreto – abstrato – concreto este me parece ser o processo de criação de Rilke. É como se para falar do mar eu me voltasse para as nuvens, vapor d’água, mas não contente com o etéreo, o vaporoso, eu me voltasse depois para os rios e lagos nos quais o vapor se condensa. É nos rios e lagos que bebe o mar.

Estou cansado de poetas que, embevecidos, carregam as imagens de detalhes. Aprisionados na individualidade, aprisionam-se no hermético. Em Rilke não há espaço para detalhes porque o que importa é a essência. Ou seja, o gesto caracteriza-se pela economia, o verso é seco, enxuto, nenhuma palavra desnecessária. As palavras são simples, despojadas, fazem parte do cotidiano, do dia-a-dia. Não há exuberância barroca. O verso é gótico, adjetivos são utilizados com parcimônia, a rima não se impõe pela artificialidade. Tudo flui naturalmente e, no entanto, ou talvez por causa disto, nos sacode o espanto, pois no fluxo natural não parecem haver regras tal a quantidade de excessões. Regras são criadas a cada momento e abandonadas no momento seguinte. Aqui onde se esperava uma sequencia longa de palavras vem um corte, onde se esperava uma rima, vem outra. E, no entanto, a música se resolve no inusitado. Resulta harmonia na desarmonia. O que é a vida, senão isto? Unidade na multiplicidade.

As imagens de Rilke transcendem a individualidade do poeta. Apesar do inusitado, da leve suspeita do particular e do individual, as imagens têm generalidade e amplitude. A prova disto está nos sentimentos que em nós provocam. Porque se as imagens nos causam tamanho impacto, só pode ser fruto da riqueza do poeta. Se a construção fosse minha, era eu o Rilke, e não ele.

Procurando praticar Rilke e não teorizar/abstrair, pego talvez o poema mais famoso dele A Pantera e tento concretizar algumas das idéias acima. Uso a versão original e duas traduções magníficas que preservam a sonoridade do original. A Pantera não é bem uma poesia sobre o amor e tão somente a utilizo porque para ela disponho de traduções que considero boas. Depois pretendo examinar alguns poemas de amor do autor.



Der Panther
(Rainer Maria Rilke)
Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden, dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein grosser Wille steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf-. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille-
und hört im Herzen auf zu sein.

A Pantera
(Tradução de Augusto de Campos)
De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.


A Pantera
(Tradução de Geir Campos)
Varando a grade, a nada mais se agarra
o olhar tomado de um torpor profundo
para ela é como se houvesse mil barras
e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.

Seu firme andar de passos gráceis, dentro
dum círculo talvez muito apertado,
é uma dança de força em cujo centro
ergue-se um grande anseio atordoado.

De raro em raro, só, o véu das pupilas
abre-se sem ruído – e deixa entrar
a imagem, que sobe, pelas tranquilas
patas, ao coração, para aí ficar.


Em Rilke, em minha opinião, três coisas são fundamentais: a essência, as imagens e a música. A essência deste poema, dentro da minha ótica, é a fera enjaulada, uma metáfora para a natureza domada, ou seja, impulsos vitais e naturais, o id, a libido, colocados dentro da jaula das convenções, barrados em seu livre curso por civilização e cultura.

Concreto – abstrato – concreto é pegar A Pantera, tema concreto, tradicionalmente usado para cantar a natureza, força e graça, e usá-lo com um propósito diverso. A abstração aqui é o cerceamento, o aprisionamento dos instintos vitais. Mas a época em que Rilke vive não é mais a da fuga para a metafísica e Rilke retorna ao físico, ao concreto das barras da jaula desfilando perante o olhar entorpecido, dos círculos concêntricos do caminhar, das pupilas que observam e da observação que morre no coração porque não tem mais para onde ir.

O primeiro verso descreve este clima de clausura evocando o monótono desfile das barras da jaula. Para a pantera é a isto que o mundo se reduz. Mas a monotonia, o torpor da civilização é tão somente uma parte da história. O contraponto é a natureza com a sua vitalidade. É aí que entra o segundo verso que ressalta a força do felino contrastando-a com a graça e a suavidade dos seus movimentos. Para ressaltar a força, Rilke a contraponteia com a suavidade do andar. Depois, numa espécie de síntese, Rilke junta à pantera, força e graça, a jaula do primeiro verso. A jaula reduz a força a círculos concêntricos.

Barras, círculos concêntricos são motivos muito geométricos. Falta o coração. É aí que vem o terceiro verso. O tema fundamental é a morte e a morte se dá no coração. Morte é passividade, é o estímulo que entra e não sai, entra pelas pupilas e morre no âmago do ser.

Quero ainda falar da música. No primeiro verso a palavra Stäbe (barras) ocorre três vezes contribuindo para a maravilhosa sonoridade do verso. Na segunda linha junta-se ainda a palavra gäbe. Stäbe gäbe é um destes versos dentro do verso. Augusto de Campos traduz Stäbe por grades e coloca a palavra quatro vezes no verso o que ajuda a preservar a música.

No segundo verso, a primeira linha traduz magnífica onomatopéia. Gang e geschmeidig além da maravilhosa sonoridade em torno da letra g traduzem a suavidade, contrastando como o staccato de starker Schritte (st, da mesma maneira que sch, soa em alemão como o ch em português) que além de belas variações em torno do som da letra t, traduzem o caráter abrupto da força. Ainda na primeira linha weiche e geschmeidig criam uma linda cadência em torno do som ei (ei em alemão soa como ai em português) complementada pelo allerkleinsten Kreise da segunda linha. Na segunda e terceira linha, ainda do segundo verso as palavras allerkleinsten, Kreise e Kraft criam lindas combinações da gutural kr, a lingual kl e os sons ei e a. Mencionável é ainda o contraste dos sons abertos de ei e a (de allerkleinsten, Kreise e Kraft) e o som fechado eh (soa como ê em português) de dreht, steht estendendo-se para geht (duas vezes no terceiro verso).

Para terminar esta parte da análise uma palavrinha sobre as imagens. O centro do primeiro verso é o desfilar de barras traduzindo a cadência da monotonia. No segundo verso a imagem gira em torno de Kreise (círculo) e Mitte (centro), traduzidos por Augusto de Campos por círculos concêntricos, preservando, na minha opinião, a essência geométrica das idéias. Assim, as imagens desfilar de barras, círculo e centro têm a precisão fria da matemática, do objetivo objeto, contrastando com vida e carne de pupila (Pupille) e coração (Herz) do terceiro verso. Neste último, Herz contrasta com o prosaico Vorhang (cortina). A cortina da pupila abrindo-se em silêncio (lautlos) é uma imagem linda embora irreal que se complementa com silêncio tenso (angespannter Stille) e morte no coração (hört im Herzen auf zu sein). Todas as três imagens traduzem o desalento de uma vida condenada á passividade, uma vida reduzida ao não-ser.

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