quarta-feira, 5 de agosto de 2009

LIÇÕES DE TOLERÂNCIA

Fui passar as férias no Maranhão, terra de um dos pivôs da realpolitik do nosso presidente Lula. No caminho do aeroporto para a pousada em S. Luís o chofer de táxi me contou uma história que eu aqui reconto para vocês.
“Minha mulher agora resolveu adotar um menino. Tem três anos. Ele é filho da minha cunhada e minha mulher cisma que ele é meu.”
“E é?” foi a pergunta que eu consegui formular, aliás, de total irrelevância porque se fosse, ele podia não dizer, e se ele dissesse que era, podia não ser. Finalmente se ele dissesse que era e, de fato fosse, qual a diferença que faria?
“É não!” continuou o motorista “Mas eu gosto do danado do menino e ele de mim. Se o senhor visse como ele é esperto. Parecer ter oito anos. Fala que nem gente grande.”
“O senhor tem outros filhos?” prossegui eu dentro da minha lógica, tentando entender. Ele tinha mais dois, já adultos. E eu, insistindo na mesma direção: “Mas a mãe dele, sua cunhada, não achou mal perder a criança?”
“Achou não. Ela sabe que o menino gosta de mim, que eu posso dar melhor trato. Quando o menino era pequeno, ele costumava passar os fins-de-semana comigo. Minha cunhada mora no interior, sabe com é, né?”
“E o seu cunhado não diz nada?”
“Diz não. Ele também acha que o filho é meu.” Segundo o motorista, tudo se passava na mais santa paz. Se é verdade ou não, eu não sei nem nunca vou saber.
A história teve mais detalhes que eu aqui omito por causa do espaço. Teve ainda a questão do teste de DNA que o motorista propôs fazer, mas o cunhado recusou com a argumentação de que na hora do exame podia haver troca de sangue. Ou será que o cunhado estava com medo do teste dar negativo, e ele não ter mais pretexto para justificar a entrega do menino? Se o teste desse positivo, a dúvida podia perder um espaço talvez conveniente.
As feministas e os moralistas que me desculpem. Não estou aqui fazendo a apologia do macho que planta a sua semente pelo mundo afora, nem tampouco estou pregando a dissolução do casamento, campanha aliás de pouca serventia, visto já ter acontecido. Simplesmente achei a história bonita porque traduz um pouco daquele espírito comunitário que talvez venha dos indígenas, em que ninguém pertence a ninguém.


Julho de 2009

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