segunda-feira, 10 de agosto de 2009

UMA DIGRESSÃO SOBRE O MUNDO, O BOM E O MAU

Uma das razões centrais para a falta de crença das pessoas no mundo, natureza, Deus, ou qualquer outra entidade mais ampla (leia-se o todo) é o sofrimento. Manuel-gato, o pintor, me disse uma vez: “Minha fé em Deus desapareceu no dia que eu vi na televisão, de um lado um rebanho de bois bem nutridos, pastando grama farta e viçosa e, logo depois, um rebanho na seca, morrendo a mingua. Como é possível Deus deixar uma injustiça destas?” Manuel, na infinita sabedoria do ignorante, usou o boi, ao invés do ser humano. Boi a gente não pode acusar de pecador, para tentar justificar a injustiça.

A linha de pensamento seguida por Manuel-gato é mais ou menos a seguinte. Se Deus existe, ele é bom. Mas Deus é o criador, o todo poderoso e, portanto, responsável pelo que cria. Se Deus é bom e é responsável pelo que cria como pode haver o sofrimento ainda mais na natureza?

Dentro desta ótica não há resposta possível. O que é necessário é mudar de ótica. Em primeiro lugar, será que faz sentido considerar Deus como criador? E se o mundo não teve começo? E se o mundo for uma infinita sucessão de estágios? Acabando-se com a idéia de Deus como criador acaba-se com a idéia de Deus como responsável. Não há responsáveis. Responsável pelo mundo é o mundo. Deus é tão somente o todo que o mundo é.

Ninguém em sã consciência vai negar que existe sofrimento no mundo. E daí? Isto prova o que? Dizer que o mundo é mau, ou a natureza é má porque existe sofrimento é restringir-se na sua visão de mundo ao que é mau ou sofrido, ou seja, é uma visão parcial, fragmentada do mundo. O mundo, a natureza não é má nem boa. A natureza simplesmente é. O mau e o bom, a beleza e a feiúra, o sofrimento e a beatitude co-existem no mundo. Se o mundo é mau ou bom, belo ou feio, sofrido ou paz, de que serve este julgamento? Será possível? Bom, mau, justo e injusto não seriam duas faces da mesma realidade? O boi gordo pode ir para o abate e o boi magro pode ser poupado. Assim o que era bom passa a ser mau e injustiça converte-se em justiça e vice-versa, ao menos na ótica do boi.

Numa linha de pensamento bastante parecida podemos citar o raciocínio do homem comum que reclama da injustiça do mundo porque este frequentemente não pune o sujeito pelos erros (leia-se pecados) que comete. Novamente temos um raciocínio que traz embutido diversas premissas que podem ser questionadas. Em primeiro lugar pressupõe um agente da punição, ou seja, alguém que pune, pois reclamar da injustiça é reclamar de alguém ou algo que é injusto. Se o mundo somos nós, a injustiça do mundo significa que nós estamos sendo injustos. Que tal reverter este quadro, procurando ser justo, ao invés de reclamar? Na verdade o que se está fazendo ao reclamar da injustiça do mundo é entender por mundo alguma entidade externa e indefinida, provavelmente metafísica e atribuir a ela a culpa. Em segundo lugar, traduz uma visão limitada do ato de errar. Porque se alguém errou, eu também errei por deixá-lo errar. Ou seja, querer que com o erro seja punido tão somente aquele que errou, traduz uma visão simplista, simplificada, cada ser, solitário e isolado, encerrado em seu mundo, cometendo erros e acertos segundo algum código mágico, pré-definido, recebendo por eles punição ou prêmio. Tal somatório de mundos individuais é o resultado de uma visão míope que não enxerga conexões e vê cada individuo encerrado em sua redoma. É o fato de eu ser responsável pelos erros dos outros que vai possibilitar que eu me mobilize para impedi-lo. Fosse cada um responsável exclusivamente pelos seus erros, além do elemento mágico e misterioso que teria que ser introduzido, como já foi mencionado acima, estar-se-ia consolidando um individualismo em que cada um cuidaria exclusivamente daquilo que faz. Uma punição post mortem (a admissão de céu e inferno), como o faz a igreja católica, apesar de traduzir uma visão mais elaborada ao jogar as consequências dos erros não na própria vida, mas na continuidade desta, continua sofrendo dos problemas apontados acima.

Agosto de 2009

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