Mais importante que o passado para mim, no entanto é o futuro. Porque para nós aqui imersos na luta pela sobrevivência é interessante conhecer como sobreviver à abastança. Claro, a Europa de hoje não é mais a Europa dos anos setenta. Mas talvez justamente por isto. Porque a Europa dos anos setenta, com seu equilíbrio, sua paz social me parece um objetivo excessivamente distante para ser interessante, enquanto que a Europa de hoje com suas massas de desempregados e desiludidos circulando no meio da riqueza já me parece bem mais próxima.
A viagem á Europa permite uma visita a uma constelação de problemas e questões existenciais que por uma série de razões eu consigo pensar, mas não vivenciar aqui. Em primeiro lugar pela premência das nossas questões sociais, econômicas e políticas que parecem a tudo absorver e dão uma resposta fácil a todas as questões. O meu vizinho é alcoólatra. Mas ele é pobre e negro e a sua perspectiva de vida extingue-se na sobrevivência da sua família. Isto explica tudo, ou, ao menos, parece explicar. O enteado do meu amigo londrino também é alcoólatra, mas é branco, tem olhos claros e mesmo afastado do trabalho recebe um auxílio que o permite viver confortavelmente em um apartamento decente e até mesmo viajar. E aí a pergunta sobre o como e o por que surge mais perturbadora e inquiridora.
Não quero colocar primazia nas questões existenciais frente a questões sociais e políticas. Mas dentro de uma visão holística, acho que elas caminham juntas. E a visita à Europa me propicia uma percepção mais clara e uma visão mais nítida das primeiras. Dou alguns exemplos só para ilustrar.
A solidão. A solidão é um tema universal. E, no entanto, a solidão num país tropical como o Brasil, onde a maior parte da vida se passa no exterior, ao ar livre, onde a família, a comunidade é uma presença marcante, jamais atinge o grau da solidão em um país de clima frio, dentro de um marco cultural como o anglo-saxão de reserva e introspecção. Claro, individualismo há aqui e lá, mas o fato de encontrar-se em uma etapa mais avançada do capitalismo acentua o individualismo lá e sempre é interessante ver com os próprios olhos onde isto pode dar. Solidão sempre houve, sempre haverá, e, no entanto, os tempos modernos com o seu individualismo, sua fragmentação, tornaram esta questão mais premente e que requer ser pensada, mas também sentida e vivida. Na Europa vive-se esta realidade com a fragmentação de toda e qualquer estrutura social. A última é a família e sua componente básica: o sexo. Em muitos ambientes vive-se a guerra dos sexos, guerra contra o sexo, e o sexo é visto como submissão e dependência não somente pelo heterossexual onde a desigualdade seria mais óbvia, mas também pelo homossexual onde aparentemente haveria mais base para um equilíbrio dos papeis. Aliás, longe de mim o homofóbico, eu que tive e ainda tenho grandes e bons amigos homossexuais, mas paira em mim uma dúvida. Esta excessiva ênfase na homossexualidade na Europa, a ponto de às vezes ter-se a impressão que o heterossexual é que é a anomalia, não atestaria a incapacidade de lidar com as diferenças?
A irracionalidade da racionalidade é outro tema fascinante para o qual a Europa fornece maravilhosas ilustrações. Assisti à apresentação de uma obra de John Cage tão preocupada em justificar a geração aleatória de sons, tão preocupada em explicar as razões para o silêncio da sua música que me deparo com um dilema: seria a irracionalidade da racionalidade, a racionalidade do irracional ou ambos?
O caminho dialético da contradição encontra na Europa muitas outras instâncias. Vejamos a Bauhaus, por exemplo, escola de arte surgida na Alemanha durante a república de Weimar, um dos berços do design e da arquitetura moderna. A proposta inicial era socialista, retirar a arte dos salões e colocá-la na rua ao alcance do homem comum. A idéia por trás das torres de vidro, concreto e metal era dar habitação barata e digna, ventilar os interiores e enche-los de luz, espantar o úmido e sombrio da vida do povo. Deu em que? A arte foi apropriada pela indústria, preocupações com custos substituíram a busca pelo prático e funcional, modismos, padronização e massificação tomaram o lugar da busca de uma estética satisfatória. As torres cresceram como cogumelos, lançando sombras uma sobre a outra e nesta dança de sombras sepultaram o sonho de ar e luz. Com o crescimento das torres, cresceram também as massas que as povoam e o seu movimento encheu as vias de carros, barulho e poluição. No burburinho e na agitação foi-se o relacionamento humano, o profundo, o intenso, o que importa. As massas soterraram o pequenino grão de areia. Ou talvez, tenham sido dois.
Finalmente tem a política. Uma ida a Europa permite deparar-se com um fenômeno praticamente ausente no Brasil e na América Latina de hoje, mas que pode desempenhar um papel relevante em um futuro não tão distante assim: o terrorismo. Andando pelas estações de trem de Londres, caroço de fruta na mão, levei algum tempo para entender o porquê da inexistência de lixeiras. Entendi mas reluto em aceitar uma lógica que procura eliminar bombas, eliminando as lixeiras. É o sintomatismo no seu mais alto grau. Não se mexe nas causas, não se investiga o porquê nem o como, nem ao menos vai-se em cima do indivíduo ou dos grupos que promovem o terrorismo. Num interesse bem particular de alguma corporação da polícia, de alguma repartição responsável pela segurança, para preservar a ordem que possibilita o progresso das corporações de interesse privado, pune-se o geral, acabando com as lixeiras. Em protesto eu depositei o meu caroço em cima de um telefone. Público.
Maio de 2009
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