segunda-feira, 10 de agosto de 2009

PORQUE EUROPA?

Porque Europa? Europa representa uma parte do passado, uma parte das raízes. Além disso, apesar dos carros, dos turistas e suas máquinas, poucos passeios urbanos para mim são tão prazerosos como andar pelas ruelas tortuosas de uma cidade européia de traçado medieval. Existe sempre um rio, uma ponte, um castelo, uma igreja, ou tudo isto junto, fornecendo a desculpa para a gente dobrar uma esquina.

Mais importante que o passado para mim, no entanto é o futuro. Porque para nós aqui imersos na luta pela sobrevivência é interessante conhecer como sobreviver à abastança. Claro, a Europa de hoje não é mais a Europa dos anos setenta. Mas talvez justamente por isto. Porque a Europa dos anos setenta, com seu equilíbrio, sua paz social me parece um objetivo excessivamente distante para ser interessante, enquanto que a Europa de hoje com suas massas de desempregados e desiludidos circulando no meio da riqueza já me parece bem mais próxima.

A viagem á Europa permite uma visita a uma constelação de problemas e questões existenciais que por uma série de razões eu consigo pensar, mas não vivenciar aqui. Em primeiro lugar pela premência das nossas questões sociais, econômicas e políticas que parecem a tudo absorver e dão uma resposta fácil a todas as questões. O meu vizinho é alcoólatra. Mas ele é pobre e negro e a sua perspectiva de vida extingue-se na sobrevivência da sua família. Isto explica tudo, ou, ao menos, parece explicar. O enteado do meu amigo londrino também é alcoólatra, mas é branco, tem olhos claros e mesmo afastado do trabalho recebe um auxílio que o permite viver confortavelmente em um apartamento decente e até mesmo viajar. E aí a pergunta sobre o como e o por que surge mais perturbadora e inquiridora.

Não quero colocar primazia nas questões existenciais frente a questões sociais e políticas. Mas dentro de uma visão holística, acho que elas caminham juntas. E a visita à Europa me propicia uma percepção mais clara e uma visão mais nítida das primeiras. Dou alguns exemplos só para ilustrar.

A solidão. A solidão é um tema universal. E, no entanto, a solidão num país tropical como o Brasil, onde a maior parte da vida se passa no exterior, ao ar livre, onde a família, a comunidade é uma presença marcante, jamais atinge o grau da solidão em um país de clima frio, dentro de um marco cultural como o anglo-saxão de reserva e introspecção. Claro, individualismo há aqui e lá, mas o fato de encontrar-se em uma etapa mais avançada do capitalismo acentua o individualismo lá e sempre é interessante ver com os próprios olhos onde isto pode dar. Solidão sempre houve, sempre haverá, e, no entanto, os tempos modernos com o seu individualismo, sua fragmentação, tornaram esta questão mais premente e que requer ser pensada, mas também sentida e vivida. Na Europa vive-se esta realidade com a fragmentação de toda e qualquer estrutura social. A última é a família e sua componente básica: o sexo. Em muitos ambientes vive-se a guerra dos sexos, guerra contra o sexo, e o sexo é visto como submissão e dependência não somente pelo heterossexual onde a desigualdade seria mais óbvia, mas também pelo homossexual onde aparentemente haveria mais base para um equilíbrio dos papeis. Aliás, longe de mim o homofóbico, eu que tive e ainda tenho grandes e bons amigos homossexuais, mas paira em mim uma dúvida. Esta excessiva ênfase na homossexualidade na Europa, a ponto de às vezes ter-se a impressão que o heterossexual é que é a anomalia, não atestaria a incapacidade de lidar com as diferenças?

A irracionalidade da racionalidade é outro tema fascinante para o qual a Europa fornece maravilhosas ilustrações. Assisti à apresentação de uma obra de John Cage tão preocupada em justificar a geração aleatória de sons, tão preocupada em explicar as razões para o silêncio da sua música que me deparo com um dilema: seria a irracionalidade da racionalidade, a racionalidade do irracional ou ambos?

O caminho dialético da contradição encontra na Europa muitas outras instâncias. Vejamos a Bauhaus, por exemplo, escola de arte surgida na Alemanha durante a república de Weimar, um dos berços do design e da arquitetura moderna. A proposta inicial era socialista, retirar a arte dos salões e colocá-la na rua ao alcance do homem comum. A idéia por trás das torres de vidro, concreto e metal era dar habitação barata e digna, ventilar os interiores e enche-los de luz, espantar o úmido e sombrio da vida do povo. Deu em que? A arte foi apropriada pela indústria, preocupações com custos substituíram a busca pelo prático e funcional, modismos, padronização e massificação tomaram o lugar da busca de uma estética satisfatória. As torres cresceram como cogumelos, lançando sombras uma sobre a outra e nesta dança de sombras sepultaram o sonho de ar e luz. Com o crescimento das torres, cresceram também as massas que as povoam e o seu movimento encheu as vias de carros, barulho e poluição. No burburinho e na agitação foi-se o relacionamento humano, o profundo, o intenso, o que importa. As massas soterraram o pequenino grão de areia. Ou talvez, tenham sido dois.

Finalmente tem a política. Uma ida a Europa permite deparar-se com um fenômeno praticamente ausente no Brasil e na América Latina de hoje, mas que pode desempenhar um papel relevante em um futuro não tão distante assim: o terrorismo. Andando pelas estações de trem de Londres, caroço de fruta na mão, levei algum tempo para entender o porquê da inexistência de lixeiras. Entendi mas reluto em aceitar uma lógica que procura eliminar bombas, eliminando as lixeiras. É o sintomatismo no seu mais alto grau. Não se mexe nas causas, não se investiga o porquê nem o como, nem ao menos vai-se em cima do indivíduo ou dos grupos que promovem o terrorismo. Num interesse bem particular de alguma corporação da polícia, de alguma repartição responsável pela segurança, para preservar a ordem que possibilita o progresso das corporações de interesse privado, pune-se o geral, acabando com as lixeiras. Em protesto eu depositei o meu caroço em cima de um telefone. Público.

Maio de 2009

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