Este texto é uma seção do livro Terapia & Cosmovisão que eu estou escrevendo e que está acessível em http://ctbornstl.blogspot.com.br. Pelo fato de ser bastante independente do restante do livro resolvi colocá-lo aqui.
Cláudio Thomás Bornstein
Paradoxos
muitas vezes somente o são na aparência. Basta olhar a questão de um outro
ângulo, introduzir uma nova informação, basta mudar de ponto de vista para que
o que aparentemente era paradoxal, não o seja mais. Ângulo, perspectiva e ponto
de vista são tão importantes quanto a questão em si, mostrando que o subjetivo
e o objetivo se confundem. A busca de diversas perspectivas também faz parte da
visão holística que é central neste texto. Está também associada à busca da
síntese na dialética, pois a resolução de conflitos e contradições é facilitada
ao se permitir diversos pontos de vista. Dialética é movimento, é mudança e
transformação e é este movimento, esta mudança e transformação que permitem a
descoberta de novas perspectivas.
Dentro
deste objetivo vamos, neste texto, considerar a perspectiva oriental. No
Ocidente costuma se colocar grande expectativa em cima da máquina. Esta
representa a exteriorização da busca, a ênfase no fazer, a dinâmica e a inquietação do Ocidente em contraste com uma atitude
mais introspectiva, mais espiritual e contemplativa do Oriente [1]. Onde
no Ocidente está a superação da natureza, no Oriente está a identificação com a
natureza. A máquina e a conquista tecnológica espelham uma mentalidade mais
agressiva que enfatiza racionalidade (no sentido tradicional do termo), questionamento
e pensamento analítico, em contraste com uma visão mais holística do Oriente
que prioriza aceitação, harmonia, respeito e equilíbrio. Onde no Ocidente está
a compreensão no Oriente está a revelação. A preocupação com a geração de verdades é típica da visão afirmativa e
assertiva do Ocidente, representando a importância da verbalização, da
eloquência e da intelectualização em contraste com uma maior preocupação com sentimento,
gentileza, humildade, compromisso e flexibilidade do Oriente. A própria
contraposição do homem à máquina surge como resultado da visão competitiva do Ocidente.
No Oriente a ênfase é no cooperativo e no colaborativo. As características acima
mencionadas são consequência do maior peso que no Ocidente tem o individual, a
independência, liberdade, conquista e realização em contraposição com a maior
importância que no Oriente tem a família, a comunidade, tradição, integração,
identificação e interdependência. Onde no Ocidente existe o amor aos resultados
do trabalho e a ênfase no objetivo, no Oriente existe o amor ao trabalho e a
ênfase no subjetivo.
Evidentemente que
tudo isto são generalizações. O Oriente é uma multiplicidade de crenças e
religiões, hábitos e costumes e a tentativa de reduzir tudo a um padrão é uma
simplificação que nivela a riqueza das diferenças [2].
Existe, no entanto, um fundo de verdade naquilo que foi dito. Existem elementos
comuns nas culturas do Oriente e diferenças em relações ao Ocidente e é
importante realçar estas diferenças ao se procurar introduzir a perspectiva
oriental. É dentro da ótica do Zen-Budismo que vamos examinar o papel da
contradição e, por extensão, da dialética [3].
O que
aparentemente é absurdo, só o é aparentemente. É concepção comum em arte, em
especial, na música e na dança que é preciso se ocupar com a técnica para se
livrar dela. O que é que isto significa? Significa, por exemplo, que um
pianista, ao procurar dominar a técnica do instrumento, o faz para que esta
técnica se entranhe de tal forma, que se torne parte integrante dele mesmo. Ao
se incorporar, a técnica não mais é apercebida como algo distinto dele. Ele, o
piano e a técnica passam a ser uma coisa só e é exatamente isto que vai
possibilitar uma grande interpretação. Ela ocorre quando a sensibilidade do
músico se alia à capacidade técnica de exprimi-la. É o fato do pianista não
mais ter que se preocupar com a técnica que vai permitir a superação da cisão
daí resultante e é esta superação que possibilita a unidade da qual resulta a
entrega à música. Música, intérprete e técnica tornam-se uma coisa só e é desta
fusão que resulta uma grande interpretação musical.
Algo
semelhante acontece com a dialética. Dialética é movimento. É a ótica mais
adequada para lidar com a realidade pois realidade é movimento. É a intensa
ocupação com a multiplicidade de tudo e de todos, a familiaridade com toda esta
dinâmica que vai permitir que ela crie corpo e forma, que ela deixe de ser uma
abstração, uma idéia e se transforme em algo concreto e real. O processo é mais
ou menos o mesmo que ocorre quando observamos o mar. O que é o mar? É um
incessante movimento, são as ondulações formadas pelo vento, são as ondas que
se quebram, as espumas que se desfazem é o ir e vir das águas. O mar em sua
essência é esta movimentação e é somente a intensa ocupação com esta essência
que vai permitir que o mar tome corpo e que se incorpore em nós.
Da mesma forma,
o todo é a integração das partes, o todo é um painel que tudo integra. Este todo, como incorpora tudo, é ele próprio
parado, imutável. Para se aperceber do todo
não adianta negar o movimento, pois neste caso o resultado é o vazio. Negar o
movimento é negar as partes que se movem e que justamente compõe o todo. Ao se preocupar com o movimento
nós o fazemos para que o movimento se entranhe de tal forma que se torne parte
integrante de nós mesmos. Ao se incorporar, o movimento não mais é apercebido
como algo distinto de nós. É o fato da gente não ter mais se preocupar com o
movimento (porque ele se entranhou de tal forma em nós que nós nem mais o
apercebemos como tal) que vai permitir a superação da cisão daí resultante e é
esta superação que possibilita a compreensão do todo. Nós e o movimento tornamo-nos uma coisa só e é desta fusão
que resulta o todo. Dito de outra
maneira, se nós somos o movimento, o movimento cessa [4].
No Zen-Budismo
fala-se da necessidade de pensar com a
barriga. O que é que isto exatamente significa? O pensamento tradicional
(pensar com a cabeça) é essencialmente dualista, isto é, ele traz a cisão
embutida dentro dele. Pensar significa sempre dizer o que as coisas são e isto
significa contrapô-las ao que elas não são. Se eu digo que um objeto é uma
mesa, isto significa dizer que este objeto não é uma cadeira, ou seja,
significa contrapor a mesa à cadeira o que cria uma cisão entre estas duas
categorias. Pensar é discriminar e a discriminação envolve cisão e diferença. Já
a barriga, ou mais precisamente, o sistema digestivo, age de forma inteiramente
diferente. Ele incorpora aquilo que ele bota para dentro. O alimento ao se
tornar sangue, passa a fazer parte da gente. Suzuki no segundo livro mencionado
em nota anterior, na pg.27, diz: logo que
começas a pensar numa coisa, ela deixa de ser. Precisas vê-la imediatamente,
sem raciocinar, sem hesitar. Na pg. 21 do mesmo livro Suzuki diz que o enfoque Zen consiste em penetrar
diretamente no objeto e vê-lo, por assim dizer, por dentro. Conhecer a flor é
tornar-se flor, ser flor, florescer como flor e deleitar-se tanto com o sol
quanto com a chuva...por conhecer a flor, conheço o meu eu. Na última frase,
Suzuki quer dizer que ao se tornar flor, o conhecimento da flor passa a ser o
conhecimento de si mesmo. A flor e o eu passam a ser uma coisa só.
No Zen-Budismo
os koans tem papel fundamental. Os koans são pequenas histórias,
aparentemente sem sentido, que visam quebrar a dualidade inerente ao
pensamento. A finalidade é nos levar ao insight.
Através de aparentes absurdos/paradoxos pretende-se justamente quebrar a lógica dualista do
certo/errado. Algo que não é nem certo, nem errado, pode nos levar a uma nova
forma de pensar. Tentar entender o koan
é por si só um paradoxo porque o koan
não é para ser entendido, ao menos não na forma tradicional de entendimento. No
entanto, como eu aqui não sou Zen, mas sim dialético não vejo nenhum absurdo em
tentar entender aquilo que não é para ser entendido. No fundo, trata-se de pensar para deixar de pensar e este é um
parente próximo do ocupar-se da técnica
para livrar-se dela que vimos anteriormente.
Um dos koans mais famosos é o Mu. Mu
ou wu em chinês, literalmente
significa não. É o não ao entender, ao pensar, ao dualismo
de forma geral, à cisão, à fragmentação inerente ao pensamento. A cisão
sujeito/objeto da mesma forma que o certo/errado é uma destas fragmentações.
Quando eu falo de um objeto eu me coloco fora dele e isto cria uma cisão entre
eu e o objeto. Se eu falo de mim mesmo então ainda é pior porque eu me divido
entre o eu que fala e o eu sobre o qual é falado.
Na verdade, o Mu deve ser entendido simplesmente como
um som. É uma espécie de mantra que repetido tem como objetivo deflagrar um
novo tipo de entendimento. A monótona repetição do som faz com que não sobre
espaço para o pensamento e provoca a identificação com o som. Não mais se é a
pessoa que repete a palavra Mu. É a
palavra Mu que se repete a si
própria. Um exemplo de um koan com a palavra Mu é a história de um monge que chegou para o mestre e perguntou: Um cachorro tem a natureza de Buda? E o
mestre respondeu: Mu!
O que é que a
resposta do mestre significa? Podemos arriscar algumas interpretações. Em
primeiro lugar podemos considerar o significado literal. Se Mu significa não então o cachorro não tem a natureza de Buda. Mas se tudo tem a
natureza de Buda, se ela é o todo,
então porque o cachorro não a teria? Talvez o Mu signifique um não mais
transcendental. Pode ser um não a uma
falta de compreensão implícita na pergunta, pois se tudo tem natureza de Buda,
não faz sentido perguntar se um cachorro a tem. A natureza de Buda é um todo e não tem sentido perguntar se ela
se aplica a algo particular como um cachorro. Uma perspectiva ainda mais
transcendental diria que o não é um não à pergunta em si porque não tem
sentido perguntar sobre a natureza de Buda. Se Buda é tudo, se Buda é o todo, ao perguntar sobre Buda, a pessoa
que faz a pergunta se coloca fora deste todo
e a resposta para isto é Mu. Ou uma
resposta mais transcendental ainda diria que Mu é a resposta a todas as perguntas. Mu é tudo, é aquele que pergunta e aquele que responde.
Vou dar um
exemplo de um koan mais dentro da
perspectiva ocidental: Duas mãos batendo
produzem um som. Qual é o som de uma
mão? Aparentemente este koan expõe
simplesmente um paradoxo porque uma mão não produz som algum. Podemos, no
entanto, interpretar as duas mãos como a dualidade dentro da qual se move o
pensamento tradicional, ou seja, as duas mãos representariam a dualidade
sujeito/objeto, certo/errado, ser/não-ser. O som seria o pensamento. E a
proposta seria uma nova forma de pensar,
ou seja, o pensar com a barriga, em
que não mais existe esta forma de dualidade. Esta nova forma de pensar seria o
som produzido por uma mão.
Verificamos mais
uma vez que as coisas têm diversos níveis em que se dá o entendimento. Um
aparente absurdo como o som produzido por uma só mão se torna compreensível em
um nível superior em que interpretamos a mão como uma unidade à qual poderia
estar associado, por exemplo, o som do universo [5].
Da mesma maneira, a dualidade inerente à dialética, o ser transformando-se em
não-ser do qual resulta o movimento, conseguem ser superados em um nível
superior por uma unidade que justamente reúne e sintetiza todo este movimento [6].
Um excelente
exemplo de como a contradição entra no Zen-Budismo é dado por D.T. Suzuki na
pg. 18 do segundo livro referenciado em nota acima quando ele menciona o
conceito Zen de liberdade: A liberdade é
outra idéia disparatada. Vivo socialmente, num grupo, que me cerceia todos os
movimentos, tanto mentais quanto físicos. Nem quando estou só sou inteiramente
livre. Tenho toda a sorte de impulsos, que nem sempre se acham sob o meu
controle.... Além disso, como produto biológico, o homem é governado por leis
biológicas. A hereditariedade é um fato e nenhuma personalidade poderá mudá-la.
Não nasci por minha livre e espontânea vontade...A pessoa só é livre quando não
é pessoa. É livre quando se nega a si mesma e se absorve no todo. Para ser mais
exato, é livre quando é ela mesma e, ao mesmo tempo, não é ela mesma.
Suzuki
primeiro constata que a liberdade é uma ilusão. Ela não existe porque estamos
sujeitos a um grande número de condicionantes que determinam a nossa
individualidade. A única maneira de ser livre é negar esta individualidade, é
suprimir os impulsos que dela provém e imergir no todo. Só aí, quando a gente passa a ser parte deste todo, quando liberdade passa a
significar interdependência ao invés de independência, a gente é livre.
Liberdade não é negar o todo.
Liberdade acontece quando a gente se identifica com o todo. Somente quando a gente e o todo somos uma coisa só, nada mais pode nos restringir.
Uma versão
talvez um pouco mais concreta e palpável do que foi dito decorre da constatação
de que somos tanto mais livres quanto mais adaptados estivermos ao meio onde
estamos inseridos. Isto não implica em uma visão conformista porque na adaptação há que se levar em conta a
dimensão espaço/tempo, ou seja, há que incluir nas nossas decisões uma
abrangência de espaço e tempo que acaba, quando levada ao extremo, por levar à
noção de todo mencionada no parágrafo
anterior. O importante é considerar que liberdade não consiste em fazer o que se quer, mas sim em fazer o que é possível de ser feito, ou
seja, incluir e respeitar o meio e o grupo social dentro do qual se está
inserido. Volto a insistir que não se trata aqui de uma apologia ao
conformismo, à passividade, resignação, aceitação e submissão. Não se trata de
não fazer nada. Trata-se de fazer aquilo que pode ser feito. Como já dissemos,
no pode ser feito entram as dimensões
espaço/tempo, ou seja, é preciso considerar diversas pessoas, grupos e lugares
e diversas épocas da história.
[1]
Evidentemente com a globalização houve a ocidentalização do Oriente e nos
extratos mais modernos da sociedade
oriental encontramos padrões semelhante ao Ocidente. Aqui quando se fala de Oriente
se faz referência aos valores tradicionais.
[2] Frequentemente
afirma-se que o Oriente é o caos em
contraposição com o ordenamento do
Ocidente. Só que por vezes há mais ordem no caos do que em um ordenamento que
só gera desordem.
[3] Este
texto está fortemente baseado em dois livros que em minha opinião são fundamentais
para entender o Zen-Budismo. O primeiro é Introdução
do Zen-Budismo de D.T. Suzuki, Editora Pensamento e o segundo é Zen-Budismo e Psicanálise de D.T.
Suzuki, E. Fromm e R. de Martino, Editora Cultrix.
[4] Utilizando
uma imagem da física bem pouco condizente com o espírito deste texto,
poder-se-ia dizer que movimento é algo relativo. A gente se apercebe do
movimento de um carro em relação a nós quando estamos fora do carro. Se
entramos no carro ele não mais se move em relação a nós.
[5] À
semelhança do Om do hinduísmo
[6] As
palavras superior e superar não reproduzem fielmente a idéia
que está por trás porque traduzem uma hierarquia de valores. Na verdade, a
dualidade conduz à unidade, da unidade surge nova dualidade e assim por diante.
Unidade e dualidade fazem ambos parte de um só processo que conduz ao todo.
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